Fotógrafo Steve McCurry ensina o caminho para uma foto memorável

Imagem da menina afegã sensibilizou o mundo em 1985 e até os dias de hoje

Foto da menina afegã, feita por McCurry para a revista "National Geographic", que sensibilizou o mundo; abaixo, retrato da miséria infantil nas ruas da
Foto da menina afegã, feita por McCurry para a revista "National Geographic", que sensibilizou o mundo; abaixo, retrato da miséria infantil nas ruas da Foto: Steve McCurry, Divulgação

Em 1985, a revista National Geographic publicou na capa uma foto que mexeu com o mundo: uma refugiada afegã de 13 anos, com os cabelos cobertos por um pano velho, rosto sujo e olhos incrivelmente verdes e expressivos. Considerada uma das imagens mais marcantes do século 20, ela é de autoria do fotógrafo norte-americano Steve McCurry. Nesta entrevista, ele pontua que nem a melhor máquina, nem a melhor luz ou ângulo são suficientes para se fazer uma boa foto. É tudo uma questão de captar a essência do momento, do ser humano, ensina. Entre coberturas incríveis de guerras e prêmios internacionais, McCurry eleva o fotojornalismo à arte em seu mais puro conceito.

Pergunta – Qual é o caminho para uma foto se tornar mundialmente conhecida?
Steve McCurry – Como em qualquer vocação, você precisa de tenacidade, perseverança e compromisso com o seu trabalho para ser um fotógrafo de sucesso. Eu acho importante a habilidade de ser capaz de isolar e reconhecer uma foto ou uma cena. Nas fotos de pessoas que fotografo, por exemplo, reconheço algo fascinante sobre a aparência daquela pessoa. Sejam seus olhos ou o jeito como está vestida. Eu procuro achar uma espécie de conexão que prenda a minha atenção.

Pergunta – Isso torna a foto especial?
McCurry – Uma boa foto é aquela que diz algo sobre a pessoa ou a situação. Nós, de alguma forma, nos vemos nas outras pessoas, então um bom retrato também deve dizer algo sobre a condição humana. Nós vemos a emoção da pessoa que podemos relacionar – felicidade, tristeza, sofrimento. Quando o retrato não faz sucesso, é porque você não enxerga nada além dele. Você deve ser levado em alguma direção particular.

Pergunta – Qual foi o seu maior desafio profissional?
McCurry – Foi durante a Guerra do Golfo, pelo impacto do ambiente. Não tanto pela guerra, mas pelo que sobrou do pós-batalha. Todos os poços de petróleo estavam pegando fogo. Isso era uma experiência absolutamente fora do normal, esteja você em outro planeta, num set de filmagem ou no fim do mundo. Seiscentos poços queimando. Às 11 horas da manhã, era como se fosse noite. Animais vagavam pelos campos perdidos, soldados iraquianos mortos por todos os lados. Era a visão do inferno.

Pergunta – Já passou algum tipo de situação inusitada para tirar uma boa foto?
McCurry – Eu estava fotografando os efeitos dos foguetes e projéteis de morteiro em Cabul, no Afeganistão. De repente, um monte de foguetes começou a cair na cidade. Eu precisava achar um abrigo. O primeiro refúgio que encontrei foi o que parecia ser uma série de prédios abandonados. Entrei e me escondi. Quando vi, estava dentro de um sanatório abandonado, onde moravam vítimas de mais de uma década de guerra, soldados que perderam a sanidade mental e civis traumatizados pela indelével imagem de horror que presenciaram. Não tinha eletricidade, água potável, enfermeiras nem médicos. A maioria dos homens e mulheres ficava caminhando ou sentado o dia inteiro num estupor catatônico. Eu os fotografei, e eles pareciam completamente alheios à minha presença. Em um certo ponto, olhei para trás e um homem batia com uma pedra na cabeça de outro. Eu apenas lembro de ver uma enorme pedra de cem quilos balançando sobre a cabeça de outro homem. Nós o pegamos com dificuldade e corremos para levá-lo ao hospital.

Pergunta – É mais fácil fazer boas fotos com as câmeras digitais?
McCurry – Uma das coisas mais interessantes da foto digital é que você é capaz de fotografar com muito pouca luz e, mesmo assim, parar uma ação, quando mesmo os filmes mais rápidos não podiam congelar a imagem tão bem. A velocidade do disparador era muito lenta, e objetos que se movem saíam borrados. Eu sempre fico atônito em poder fotografar com clareza e nitidez em condições extremas de luz baixa.

Pergunta – O que é mais importante para uma boa foto: o momento ou a condição?
McCurry – Quando a foto é apenas baseada na preocupação da luz e da cor, não acho que vá muito longe. A cor sozinha e a estrutura não são, para mim, o que fazem a foto ser boa. Não penso muito sobre o uso da cor, a não ser quando quero suavizar uma paleta que pode estar distraindo ou chamando atenção. Eu penso que um fotógrafo precisa dizer alguma coisa sobre a pessoa: ou fornecer algum insight. Mostrar como a vida dela é diferente da minha.

Pergunta – Como foi seu primeiro contato com uma câmera fotográfica?
McCurry – Estudei história e cinema na universidade. Eventualmente, me concentrando em fazer filmes. Durante minha busca por uma carreira no nicho de documentários, fiz aulas de belas artes na fotografia. Ao mesmo tempo, comecei a fotografar para o jornal da universidade. Era como se um novo mundo se abrisse para mim. A fotografia era um trabalho solitário, enquanto os filmes eram um esforço de equipe. Amei a ideia de poder sair por uma porta e começar um trabalho, a fotografar sem um plano particular em mente, apenas pensando e observando a vida ao que ela se revela, desde uma fascinante rachadura numa calçada ou parede a uma fotografia de uma pessoa interessante.

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