Garotas formam bandas e desconstroem padrões durante semana de vivências musicais em Porto Alegre

Sophie Alonso, oito anos, teve aulas de baixo (Foto: Camila Domingues, especial)
Sophie Alonso, oito anos, teve aulas de baixo (Foto: Camila Domingues, especial)

Por Rossana Silva, Especial

O encontro das baquetas acima da cabeça sinalizava que os primeiros acordes estavam por começar:

— Um, dois, três, quatro!

Aos 11 anos, Helena Rosa Moretti Gross ditava o comando do som, segundos antes de despencar os braços sobre a bateria. Era o segundo contato da garota com o aparato percussivo, apesar de sua atitude frente ao instrumento insinuar uma relação antiga.

— A bateria é um instrumento livre e faz bastante barulho, dá para usar a criatividade — dizia Helena.

Junto a quatro garotas que havia conhecido horas antes, ela ensaiava para tocar um “rocão furioso”. Foi por meio de afinidades por este e outros estilos musicais fictícios que o primeiro Girls Rock Camp de Porto Alegre criou, nos últimos dias, seis bandas com 30 meninas entre sete e 17 anos. Desde segunda até esta sexta-feira, elas permaneceram imersas em uma espécie de retiro musical realizado numa escola na região central da cidade, com a ideia de fortalecer a autoestima, desconstruir padrões e desenvolver o espírito de cooperação e liderança.

A motivação para acordar cedo em plenas férias era vivenciar experiências às quais normalmente não são incentivadas, como tocar guitarra e bateria. Cada grupo, composto por vocalista, guitarrista, baixista, tecladista e baterista, era assessorado por uma empresária e uma produtora musical.

— O espaço musical é muito ocupado por homens, e a mulher não é estimulada a acreditar que ela também pode fazer parte. Os pais não incentivam as filhas a serem roqueiras, e sim os meninos. Até o respeito aos músicos é maior. Se a mulher diz que toca, logo perguntam se é piano, ou se ela é cantora. Existe essa barreira ainda para as mulheres ocuparem esse espaço. A sociedade sempre impôs um papel menor e coadjuvante. Aqui estamos buscando um protagonismo para as mulheres a partir da música, para todos os espaços — afirma a baterista e produtora musical Letícia Rodrigues, 38 anos, voluntária do evento.

Fazer com que dezenas de garotas — a maior parte delas sem nenhuma vivência musical — formassem bandas com uma composição própria em poucos dias era um desafio que exigiu um mutirão. Cerca de 60 profissionais de atividades afins à música — como musicistas e produtoras — se envolveram em turno integral nesta última semana. Mais do que só falar, o evento todo feito por mulheres quer mostrar, na prática, que elas são capazes de fazer tudo.

— É importante que elas vejam exemplos reais de mulheres trabalhando em todas as funções, especialmente as que são normalmente destinadas a homens. Por isso, as aulas de todos os instrumentos são realizadas por mulheres, assim como a montagem e desmontagem dos equipamentos, a técnica, a iluminação, a coordenação… _ explica a musicista Liege Milk, 30 anos.

As atividades do rock camp eram abertas às 9h, com uma assembleia. Depois, as garotas recebiam aulas do instrumento escolhido desde o momento da inscrição — a bateria foi o mais disputado, seguido do canto, teclado, guitarra e baixo. Às 12h, junto ao almoço, elas assistiam a shows de bandas com componentes mulheres. Durante a tarde, os grupos se revezavam entre os estúdios e oficinas como as de composição, expressão corporal e defesa pessoal. A alguns metros da sala na qual Helena e as colegas ensaiavam, outro grupo escolhia o nome da banda: Unicórnias Zumbi.

Versos criados por mentes dos oito aos 11 anos eram transpostos para o papel com orientação de uma voluntária, que não interferia no conteúdo. A ideia era narrar a trajetória de uma super-heroína que lutava a favor das mulheres. A primeira composição começava a ser delineada. “Uma zumbi feminista/que come cérebros de homens machistas”, dizia o refrão, criado por Ariela de Oliveira Munhoz, 11 anos. Cada nova frase era discutida pelas integrantes, que se animavam ao ver a letra da música tomando forma.

— Nossa, nós somos muito boas! Que bom que a gente se encontrou — animou-se Daniela Becker, 10 anos, enquanto descobria o talento para a escrita em comum com as novas amigas.

O Girls Rock Camp da Capital segue os moldes do evento original, em Portland (EUA), e da única versão brasileira até então, em Sorocaba (SP). A edição gaúcha começou a ser idealizada por 10 organizadoras, entre musicistas e produtoras, que dividiram tarefas e levantaram recursos durante o último ano. Ao invés de patrocinadores públicos ou privados, o evento foi financiado com pequenas cotas de apoio e por festivais de bandas femininas. Das 30 vagas, 10 foram gratuitas e oferecidas a alunas de escolas públicas.

A apresentação das bandas formadas durante o Girls Rock Camp Porto Alegre ocorrerá neste sábado, a partir das 16h, no Ocidente (Rua João Telles, esquina com Avenida Osvaldo Aranha, Porto Alegre), com ingressos a R$ 10. O próximo Girls Rock Camp deve ser realizado em janeiro de 2018.

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