Garotas que lançam tendências na frente e atrás das câmeras

Blogs de estilo de rua revolucionaram a moda

Foto: Deidre Schoo

Vestindo moletom com capuz e casaco com gola de pele, um cara de estilo hipster nos observa em uma fotografia em preto-e-branco.

Seu cabelo está penteado com um estilo rockabilly; suas calças, amarrotadas. Equilibrando aspereza e refinamento, ele aparece em um dos muitos e arrebatadores retratos de moda de rua da fotógrafa Vivian Maier, atualmente em exposição na Galeria Kasher Steven, em Chelsea.

Embora tenha produzido a maior parte de seu trabalho nas décadas de 1950 e 1960, o olho de Maier para estampas arrojadas e tendências que vão do decadente ao artisticamente decomposto poderia ter colocado as suas imagens no centro da fotografia da moda de rua contemporânea. Se ela tivesse feito um blog…

Inquestionavelmente, os blogs de estilo de rua revolucionaram a moda, tanto em termos de como a vemos quanto em como podemos defini-la. A moda em forma de testemunho de sites como o Sartorialist, de Scott Schuman, abriu espaço e inspirou inúmeros outros blogueiros, muitos com perspectivas altamente evoluídas do que a moda é ou deveria ser.

Na verdade, com um blog e um pouco de astúcia, Maier não teria ficado à margem, nem teria sido uma mulher solitária em meio a uma série de fotógrafos do sexo masculino. Certamente se poderia argumentar que a fotografia de moda tradicional ainda é dominada pelos homens, mas a realidade, quando se trata de retratar a moda de rua, é bem diferente.

Mesmo com toda a atenção dada a fotógrafos como Schuman, Tommy Ton e Yvan Rodic, do Face Hunter, o estilo de rua como um gênero não se configura como um clube do Bolinha. Um crescente grupo de fotógrafas talentosas que trabalham em Nova York e no exterior merece igualmente os holofotes.

Elas chamam ainda mais atenção por trabalharem sem fazer grande esforço em ambos os lados da câmera. Vestidas impecavelmente, elas próprias, mulheres como Candice Lake, Hanneli Mustaparta e Tamu McPherson são frequentemente fotografadas pelas suas colegas.

Na busca das estrelas da moda de rua, elas mesmas se tornaram novas celebridades.

Enquanto modelos, compradores e editores de moda chegavam a Nova York para a Semana de Moda, multidões de fotógrafos da moda de rua convergiam no Lincoln Center e outros lugares. Enquanto começava o desfile de Richard Chai, Bridget Fleming, que fotografa moda para uma agência de fotografia, esperava junto à fonte do Lincoln Center. Ela usava um gorro escarlate e uma capa de lã sobre uma volumosa gola rolê. Como um pingente, levava a câmera pendurada no pescoço.

– “Parece que existe mesmo uma tendência relacionada ao gênero”, disse Fleming, que é mais conhecida por seu projeto solo, Downtown From Behind, um blog popular que apresenta personagens incrivelmente descoladas que andam de bicicleta nas ruas de Lower Manhattan. “Talvez haja realmente mais mulheres do que homens.”

Para Mustaparta, que antes era modelo em tempo integral, o ímpeto de fotografar desconhecidos vem do fato de ela própria ser fotografada.

– “Eu estava a caminho do Bryant Park para ver o desfile de um amigo”, disse ela, “e enquanto eu seguia em direção às tendas, havia um monte de fotógrafos querendo me fotografar _ por causa do que eu estava usando. Depois do desfile, nos bastidores, vi uma menina que estava com um visual incrível, então perguntei a ela se eu poderia fotografá-la”.

Em menos de três anos, Mustaparta, que nasceu na Noruega, transformou-se em uma personagem muito conhecida na blogosfera, cuja “marca” se baseia na sua própria maneira de se vestir, assim como em sua capacidade de refletir essa estética nas fotografias que tira de outras pessoas.

Graças ao seu prestígio como modelo, ela trabalhou frente às câmeras em campanhas publicitárias da Net-a-Porter, Coach, e Rag & Bone, ao mesmo tempo em que fazia fotos da moda das ruas para o site Vogue.com. No outono passado, a revista a elegeu como uma das 10 mulheres mais bem vestidas de 2011, apagando cada vez mais a fronteira entre ser fotógrafa de moda e ícone da moda.

McPherson, a fotógrafa frequentemente fotografada que assina o blog All the Pretty Birds, faz fotos de mulheres que costumam misturar e combinar as suas peças de grife. Elas se vestem tendo um propósito em mente, assim como McPherson.

– “Eu adoro me vestir bem”, disse ela por e-mail de Milão, cidade onde vive. “Eu tento ser prática com minhas roupas. Mas é realmente difícil. Quero dizer, quanto tempo dá para resistir a um encantador par de sapatos altos?”

McPherson e Mustaparta fazem companhia a Garance Doré, esposa de Schuman, que frequentemente aparece invejavelmente vestida no Sartorialist, enquanto o seu blog pessoal engloba histórias, ilustrações e fotos de suas amigas igualmente elegantes.

Os homens também se montam. Karl-Edwin Guerre, do blog Guerreisms, é um operador de câmera que se veste cuidadosamente, mas de modo geral, seus ternos estampados de três peças e chapéus-panamá vintage são incomuns entre os seus colegas.

– “Tendo a privilegiar o funcional e o que fica bem em mim”, disse Jason Jean, do Citizen Couture. “Tento não atrair atenção demais para mim quando fotografo.”

Aparentemente, é mais comum ver mulheres que incorporam as suas marcas de modo fotogênico.

– “Dado que as mulheres são predominantemente as mais fotografadas pelos fotógrafos do estilo de rua, consigo ver como muitas delas gostariam de expandir o que pensam a respeito da moda e do estilo pessoal através da fotografia”, disse Christene Barberich, editora do site de moda Refinery29. “Seu estilo pessoal fica muito evidente em ambos os lados da lente.”

Para as mulheres, talvez haja ainda uma diferença na maneira como elas posam para outras mulheres.

– “Existe algo de especial no olho da mulher”, disse McPherson. “Talvez seja uma compreensão inata de como outras mulheres gostam de ser notadas ou que mensagem gostariam de passar com o estilo que têm.”

Lake, que desfilou com Mustaparta na apresentação prévia da coleção de outono de Alberta Ferretti em Milão, é outra modelo que se tornou fotógrafa e hoje trabalha como modelo apenas durante parte do tempo. No primeiro dia da Semana de Moda, ela vestiu um casaco de pele de mangas compridas, calças de couro e botas de camurça vermelha até o tornozelo, levando sua Canon 5D Mark II em um ombro e uma bolsa Chanel pendurada no outro.

– “É como o primeiro dia de volta à escola”, disse ela, acenando para Mustaparta, que passava por ali. Olhando ao redor, à espera de possíveis fotografias, ela parecia ignorar um pequeno aglomerado de blogueiros que esperavam para tirar uma foto sua.

Lake, uma australiana de 1,80 m de altura, trabalhou no circuito das passarelas como modelo antes de obter uma graduação em Belas Artes com habilitação em Fotografia. Fez campanhas publicitárias e editoriais, mas é mais conhecida por seus retratos luminosos de mulheres jovens, feitos em Londres (onde ela vive agora), contrastando as ruas cinzentas com cores vivas e toques de impressões. No último mês de setembro, o hotel Tribeca Grand exibiu algumas dessas imagens.

Outra fotógrafa, Vanessa Jackman, destoa do grupo.

– “Eu odeio ficar em frente às câmeras”, disse Jackman, que nasceu na Austrália e atualmente mora em Londres. “Se eu pudesse ser invisível, seria.”

O trabalho de Jackman inclui imagens de personagens centrais da Semana de Moda, como Giovanna Battaglia, Taylor Tomasi Hill e até mesmo Mustaparta, bem como retratos de rostos relativamente desconhecidos. Mas todas possuem uma qualidade onírica, quase romântica.

Jackman assistiu à sua primeira Semana de Moda em 2009, fotografando para a Vogue britânica, mas nessa temporada ela está trabalhando estritamente por conta própria. “Financeiramente, é mais difícil trabalhar de forma independente”, disse ela, “mas é necessário equilibrar isso com a liberdade. Eu posso fotografar quem eu quero, quando quero e como eu quero”.

Ser contratado para fotografar gera lucros seguros (e não faltam publicações com elementos da “moda de rua”), mas as exigências que acompanham as encomendas podem ser avassaladoras. Fleming diz fazer cerca de 1.500 fotos por dia durante a Semana de Moda, e muitas vezes trabalha até cinco horas por noite processando e corrigindo a cor das imagens antes de encaminhá-las aos clientes.

Independentemente do sucesso e da exposição, essas mulheres são realistas quanto ao lucro líquido e a renda que obtêm. Embora Schuman afirme ganhar mais de 250 mil dólares por ano apenas com a venda de anúncios no seu site, esse ainda é um número inimaginável para a maioria dos fotógrafos do estilo de rua.

Até mesmo as meninas que lançam tendências têm que pagar as contas.

– “Certamente é preciso ter projetos paralelos para contar com uma estabilidade financeira”, disse McPherson, que trabalha como diretora do site Grazia.it.

Apesar do caráter infinito da Internet, o campo da fotografia de rua está se tornando cada vez concorrido, mas parece haver pouca rivalidade entre os concorrentes em potencial. É improvável que os editores de revistas de moda rivais mostrem uns aos outros a capa da próxima edição em busca de uma opinião, mas isso acontece no intervalo entre as rodadas de fotografia, fora dos desfiles.

Na última temporada, Fleming, Jackman e Lake racharam táxis de um desfile a outro várias vezes e ainda encontraram tempo para comer juntas em algumas ocasiões. Para Jackman, a concorrência existe, mas é totalmente pessoal e não tem a ver com o gênero.

– “Todas nós temos objetivos diferentes no que diz respeito a onde queremos levar nossa fotografia”, disse ela. “No meu caso, esse lugar fica dentro de mim mesma.”

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