Gatas de chuteiras: conheça as meninas da Associação Desportiva Feminina

Foto: Adriana Franciosi

O que primeiro chama a atenção é a profusão de cores.Sobre o verde da grama sintética, os marmanjos de saída viram o pescoço para admirar o indiferente pelotão de rosa. Uma a uma, as babylooks delicadas são cobertas por coletes largos e fosforescentes. Resta o multicolor artificial, das unhas e faixas de cabelo, e o natural, das pernas. Os shortinhos raramente diferem do preto clássico, mas abaixo deles o branco da pele – “bronzeados” de inverno, em Porto Alegre – mescla com os roxos. Uns de frio. Outros, rescaldos dos jogos passados.

Fica de fora o cinza. Do céu, o que ajuda a manter o termômetro abaixo dos 10°C, e dos galpões e vias da parte mais feiosa da cidade, no limite da Avenida Ceará, próximo ao aeroporto. Tudo convida a uma tarde de sábado de filme e pipoca embaixo das cobertas, mas as gurias da Associação Desportiva Feminina (ADF) estão correndo atrás da bola.

A expressão é quase literal. Não é à toa que as personagens desta reportagem, quando questionadas sobre a posição em que jogam, citam duas: atacante ou zagueira. São basicamente as que existem. Livres das formalidades de laterais, volantes, ou meias-armadores, elas se movem como dois exércitos um tanto caóticos de defensoras contra atacantes, e com facilidade as primeiras se tornam as segundas. Vai do local para onde a bola corre, perseguida por todas.

Além de rosa (é claro), a bola é um pouco menos cheia. A estratégia diminui a velocidade do jogo e a dor das boladas. Dado um aparente instinto feminino de já chegar chutando, as boladas são frequentes. Os pedidos de desculpa mostram bem o espírito de camaradagem da coisa toda.

– É a grande diferença entre o futebol delas e o dos homens. Elas não competem, jogam para se divertir – declara, à beira do campo, Rodrigo Gasparetto.

Gaspa (sim, um homem) é um dos personagens-chave na origem da ADF. O grupo nasceu na metade de 2011 entre os coffeebreaks do curso Kick Off, sobre futebol e negócios, promovido pela Perestroika. Conversando com meninas do curso, surgiu uma reclamação em comum. Para gurias, a oportunidade de jogar bola termina com o Ensino Médio. Depois, são raras as chances do “futebol de firma”, aquele esporte praticado pelos homens com regularidade, mas sem compromisso.

Junto com a estudante de Direito Estela Rocha, Gaspa organizou um amistoso da mesma forma que os jogos acontecem até hoje: a quadra é reservada e o evento criado no Facebook. Se um número suficiente de meninas clicar em “comparecer”, o jogo é confirmado. Então é só aparecer no local marcado com dinheiro para a vaquinha da quadra.

– No primeiro jogo, apareceram oito meninas. Ainda foi preciso usar meninos como goleiros. No segundo, com 12, já conseguimos formar dois times. No terceiro, apareceram 30 gurias. Aí começamos a levar a coisa a sério – conta Estela.

É de autoria dela o nome Associação Desportiva Feminina. Estela, Gaspa e Caroline Conter, presente desde o iníco, formaram o primeiro trio de ferro na organização da ADF. Os três tinham outra característica em comum. Não tem a ver com futebol, mas não deixa de envolver alguns pontapés.

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Sai o namorado, entra a bola

– Bem ou mal, um pé na bunda te joga pra frente – filosofa uma das meninas.

Não é coincidência. Além do trio dos primeiros organizadores, boa parte das meninas começou a frequentar os jogos depois de vestir (a contragosto ou não) a camisa do time dos solteiros. Encerrados os relacionamentos, vem a necessidade de focar em outra coisa, de conhecer gente. Na ADF, elas encontram amigas no mesmo barco.

– Claro que acontece o oposto também. De uma guria começar a namorar e se afastar. Mas aí a gente pega no pé – declara a zagueira Andrea Bianchi.

É comum, nos jogos, ver um magrão de mãos no bolso na arquibancada. Ou à beira da quadra, de olho no cronômetro, auxiliando a calcular as substituições. Às vezes, os namorados se metem a treinador ou goleiro, mas em geral apenas admiram o jogo. Mais pela empolgação das atletas do que pelo nível técnico.

Bendito fruto da ADF, não é fácil para o também solteiro Gaspa conviver semanalmente com o escrete de beldades desimpedidas.

– Procuro não misturar as coisas. Senão, elas param de confiar em mim. Quanto mais uma menina se envolve na ADF, menos eu olho – jura Gaspa.

Distração para os pares de coxas em campo não falta. São jogos para marcar e fotografar, súmulas para preencher, humores para conciliar, bandeiras, uniformes e até uma série de souvenires (como calendários e cartões postais) para confeccionar.

Em meio às tarefas, Gaspa também exercita um dos seus esportes preferidos: enticar as gurias.

Apelidos e pegação de pé

– Lauren, Lauren, Lauren!

Lauren olha.

– Faz o gol, Lauren – ironiza Gaspa à beira do campo, gesticulando um chute com o lado do pé, como manda o figurino.

Lauren Ferreira só dá risada. É perceptível que ele só pega no pé das mais habilidosas. Ela, por exemplo, leve, dribladora e sempre sorridente, foi homenageada com o apelido de Lauren Messi.

A brincadeira com o nome de jogadores surgiu do primeiro futebol de campo organizado pela ADF, com 11 jogadoras de cada lado. Um pouco pela personalidade, um pouco pelo estilo de jogo, todas ganharam apelido. Zagueirona que fala o tempo todo, Andrea virou Thiago Silva. Raquel Arbello, rabo de cavalo e futebol “insinuante”, virou Ronaldinho Gaúcho.

Cobrada à beira do campo por um chute meio displicente, Quetelin Rodrigues dá de ombros:

– Tu estava aqui pra ver o meu gol de cobertura? Então fica frio.

Acabou apelidada de Douglas, o camisa 10 que muito irritou gremistas, em 2011, por usar sua habilidade só quando tinha vontade. Quetelin não só curtiu como como responde por Queki10.

Atividades extra campo

A sorte das meninas é os apelidos corresponderem às personalidades em campo. Fosse fora dele, talvez faltassem nomes de jogadores baladeiros. É forte a atividade extracampo da ADF. Além das festas naturais a qualquer grupo de amigas solteiras, a associação promove sua própria comemoração, uma vez por mês, no Club 686.

Na noite, ganha uma janelinha o homem que adivinhar que as panturrilhas sobre os saltos são esculpidas ao longo da semana nas quadras de Porto Alegre.

Não é apenas festa que une o grupo fora de campo. Em menos de um ano, já foi feito desfile de moda, uma atividade beneficente de Páscoa, viagens e as mais diversas incursões em outros esportes e atividades, como o kitesurfe e o paintball. O que começou como um futebol por semana, hoje já promove três (entre futsal e futebol sete). Também há jogos semanais de handebol, vôlei e basquete, cada qual com uma organizadora responsável e frequentadoras regulares.

No Facebook, o grupo já ultrapassa 230 atletas e simpatizantes, e tem mais de 760 curtidas.

– Ninguém ganha dinheiro com a ADF, só perde. Mas perde com gosto. O que a gente ganha é em carinho e em amizade – resume Estela.

O jogo se encerra e as meninas deixam a quadra suadas e sorridentes. Nenhuma sabe dizer o placar. Um gaiato entra para o jogo seguinte batendo palmas. Elas pressentem a cantada. Algumas viram para olhar, outras nem se dão o trabalho.

– Muito bom, gurias. Estão de parabéns, hein?!

O sujeito não faz ideia, mas está coberto de razão.

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