Gênero de autoajuda para adolescentes ganha mais leitores no Brasil

Existem quase 3 milhões de leitores entre 14 e 17 anos no Brasil, e uma boa parte procura obras que ajudem a entender o mundo

Filão do mercado editorial, os livros de autoajuda para adolescentes miram um consumidor que se prepara para entrar na idade adulta e vive impasses típicos dessa fase da vida
Filão do mercado editorial, os livros de autoajuda para adolescentes miram um consumidor que se prepara para entrar na idade adulta e vive impasses típicos dessa fase da vida Foto: Adriana Franciosi

Certa vez, um professor levou um grupo de alunos para um passeio em um jardim em forma de labirinto. Cada um deveria procurar a saída. Alguns logo conseguiram. Outros, preocupados, escutavam as vozes dos amigos que haviam encontrado um atalho em meio aos arbustos e folhagens. A sensação era a de que permaneceriam ali por toda a eternidade, mas não demorou muito até que todos descobrissem a passagem. Atividade concluída, o professor reuniu os aprendizes e, de um ponto mais alto, mostrou como o caminho – surpresa geral – era simples.

Tomando essa história como metáfora da adolescência, a escritora e psicopedagoga Cybelle Weinberg escreveu Por que Estou Assim? (Sá).

– A sensação é igual. Uns saem numa boa, sem grandes dificuldades, e outros penam à beça – define a autora no livro publicado há três anos.

Nele, a especialista registrou as principais questões que tiram o sono de meninos e meninas. A publicação se junta a um número crescente de livros de autoajuda para adolescentes.

O gênero, presente no mercado editorial desde os anos 1960 – época pródiga em publicações sobre autoconhecimento e sexualidade -, volta agora seus olhos para um público mais jovem. A Ediouro, por exemplo, acaba de entrar nessa seara com o lançamento de O Segredo – versão teen, de Paul Harrington, diretor do filme O Segredo (baseado na obra homônima de Rhonda Byrne). Segundo a editora Márcia Batista, esse é um nicho a ser desbravado:

– Não sabemos como vai ser, até porque alguns livros conquistam um público maior do que imaginamos. Temos diversos títulos de autoajuda, mas para esse público específico este é o primeiro.

No Brasil, calcula-se que 2,9 milhões de meninos e meninas, entre 14 e 17 anos, leem livros fora do segmento didático. Os romances ainda são os favoritos dessa faixa etária, correspondendo a 41% das leituras realizadas, enquanto os livros de autoajuda correspondem a apenas 9%, segundo dados de 2008 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-livro.

Os supostos benefícios proporcionados por esse tipo de literatura não são ponto pacífico. Para a psicóloga Tomásia Ticconi, que há 20 anos trabalha com adolescentes, os livros de autoajuda propõem “fórmulas” que devem ser questionadas.

– Os adolescentes não querem modelos a serem seguidos, mas, sim, alguém com quem possam conversar e, por meio desse vínculo, encontrar a sua maneira de enfrentar o mundo. O importante é clarear os conflitos para que eles possam fazer suas próprias escolhas – pondera.

Mas será que os adolescentes estão lendo autoajuda? Conversamos com Gabriela, 13 anos, Júlia e André, 15 anos, e perguntamos a quem eles recorrem para pedir conselhos e tirar dúvidas. E se livros podem ser bússolas eficientes durante esse período de incertezas.

Um sinal de +

– Acho que a gente tem que pensar positivo e não deixar a autoestima cair.

Esse é o pensamento da estudante Gabriela Rezende, 13 anos. Atenta às mensagens que revistas, diários e romances publicados passam, ela segue à risca tudo aquilo que for “do bem”. Como aprendeu após assistir ao filme O Segredo, há cinco anos. Mas a adolescente confessa que não é nada fácil colocar em prática o otimismo que vê nos livros de autoajuda.

Na escola, as cobranças são diversas.

– Tem que tirar boa nota, ser magra, ter cabelo liso, estar sempre bonita, ser legal. E isso também pesa para os meninos – observa.

Pela cabeça da estudante já passa até a preocupação com a carreira que quer seguir.

– Penso em arquitetura – responde com segurança, ao contrário da maioria das colegas.

Também pudera. Numa fase em que há mais descobertas e dúvidas que definições, estar certo de que curso prestar no vestibular é um grande passo.

Por isso mesmo, Gabriela acredita que vale a pena recorrer aos livros, e também a conversas, para entender esse momento da vida. A leitura se tornou passatempo e ajuda para a adolescente. Na cabeceira do quarto, best sellers se misturam a romances, diários de meninas que, como ela, também lidam com as mesmas questões. Revistas femininas para adolescentes também tornaram-se fonte de autoajuda quando o assunto é baladas, meninos, escola e profissão. Com a mãe, costuma sair para comprar os livros.

Ler para se conhecer

Aos nove anos, Júlia Zakarewicz se encantou pela leitura com a saga do bruxinho Harry Potter, de J.K. Rowling. Curiosa, até hoje lê diversos gêneros. Desde romances e contos a livros de filosofia e sobre espiritismo. Assim como Gabriela, Júlia também descobriu no livro de autoajuda O Segredo, de Rhonda Byrne, o primeiro guia para entender que, quando se quer algo, basta acreditar.

– Pensei em desistir de estudar para as provas de física, sempre tão difíceis. Não era o meu forte. Mas aí decidi persistir. As conquistas com suor dão muito mais alegria -garante.

No grupo de amigos da escola, não considera comum a leitura de autoajuda:

– Tem gente que lê e se baseia nas lições positivas desses livros, e outros que não estão nem aí, mas também não as conhecem.

Ao se recolher no quarto, Júlia mergulha na história. Como se naquelas páginas de auto-ajuda, ou mesmo de ficção, encontrasse um refúgio para problemas do cotidiano:

– Todo mundo cobra muito de você. É muita pressão, obrigação e ainda tem o vestibular. Tudo ao mesmo tempo.

Por isso, a leitura também a ajuda a entender um pouco mais sobre si e sobre o momento pelo qual está passando.

De cada uma, ela tira lições de vida. Talvez por isso mesmo escolha criteriosamente o que vai ler e se aquela leitura vai acrescentar algo àquele momento que está experimentando:

– Eles falam sobre relações, problemas de autoestima, relacionamentos, amizade entre irmãos. Acho que tudo o que eu leio tem um ponto bom, uma moral da história. E isso fica no meu inconsciente.

Buscas na internet

Meninos e meninas. No recreio, cada um vai para um canto. Em grupo, elas costumam tirar dúvidas. Pode ser sobre o garoto que não dá bola ou sobre a hora certa de perder a virgindade. Já os rapazes evitama qualquer custo falar sobre assuntos íntimos. As diferenças de gênero podem até particularizar desafios, mas, na maioria das vezes, tanto eles quanto elas compartilham inseguranças.

O calcanhar de Aquiles costuma ser a autoestima. Mas, para o estudante André Carvalho, 15 anos, a escolha da carreira é o que angustia: “Veterinário ou psicólogo?”. E confessa o que a maioria dos amigos também sente: muita preguiça para assistir às aulas.

Por também ter amigas, ele tira de letra, mesmo com certa timidez, qualquer papo sobre relacionamento:

– Normalmente, elas vêm me perguntar sobre o namorado delas. Daí, logo digo o que ele está pensando.

O papel de conselheiro não o impede de guardar seus próprios problemas. Livros de autoajuda? Já ouviu falar de alguns, mas prefere buscar na internet informações que possam ser úteis.

Isso ajuda a explicar por que as meninas são o principal público da autoajuda juvenil. Elas são acostumadas, desde pequenas, a ler e manter diários e a consumir revistas de comportamento – para elas, a web surge apenas como mais uma fonte, averigou a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Nesse sentido, os meninos são mais imediatistas e pragmáticos.

Seria, então, a internet uma nova ferramenta de autoajuda?

– Não sei se livros ou internet. Mas acho que os sites são os locais onde mais procuramos respostas – acredita André.

Na prática

Mais do que um livro de reflexões, o best-seller The 7 Habits of Highly Effective Teens (Os Sete Hábitos de Adolescentes Eficientes, tradução livre) é um guia passo a passo criado pelo americano Sean Covey. Dividido em cinco partes, o livro fala sobre os desafios da adolescência.

Em um dos capítulos, nove dicas para os adolescentes contornarem a insegurança:

1. Da próxima vez que você se olhar no espelho, fale algo positivo sobre você.

2. Mostre consideração sobre o ponto de vista de outra pessoa hoje.

3. Pense num paradigma que lhe atrapalha, como: “Eu não sou extrovertido”. Agora, faça algo hoje para contrariar esse paradigma.

4. Pense em alguém que você ame ou em algum amigo que vem se comportando de forma diferente nos últimos dias. Reflita sobre a razão para ele agir assim.

5. Quando você não tem nada para fazer, o que ocupa seus pensamentos? Lembre, o que for mais importante vai se tornar o centro da sua vida.

6. Comece hoje a tratar os outros da mesma forma como você gostaria de ser tratado. Não seja impaciente, nem fale mal de alguém a não ser que você queira o mesmo tratamento.

7. Em algum momento da semana, procure um lugar calmo em que você possa estar sozinho. Pense sobre o que realmente importa para você.

8. Escute cuidadosamente as letras das músicas que você ouça com frequência. Avalie se elas estão em harmonia com os seus princípios.

9. Quando você precisar fazer seu dever de casa ou trabalhar à noite, exercite o princípio do levar a sério o trabalho. Vá além e faça mais do que esperam de você.

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