Gordura pode ter efeito benéfico em cirurgias plásticas

Antes vistas de forma negativa, as células de gordura oferecem novas possibilidades terapêuticas

Hoje pode-se associar a retirada de gordura à reaplicação no paciente para obtenção de correções
Hoje pode-se associar a retirada de gordura à reaplicação no paciente para obtenção de correções Foto: Susi Padilha

Atualmente, grandes centros de investigação científica ao redor do mundo estão estudando uma grande promessa na medicina: o uso dos enxertos de gordura a partir das células gordurosas, que podem ser encontradas no tecido gorduroso, e das células mesenquimais, que também encontradas no tecido gorduroso e importantes na formação de novos fibroblastos, responsáveis pela regeneração de tecidos.

Os estudos ocorrem em diversas frentes visando a correções de anomalias e doenças nas mais variadas especialidades da Medicina. Podemos dizer que, guardadas as proporções, esses avanços em várias áreas médicas são tão importantes como a pesquisa das células-tronco.

Com relação à cirurgia plástica, o uso dos enxertos de gordura tem apresentado grandes avanços. Dessa forma, temos correções que, anteriormente, eram impossíveis de serem obtidas e, paralelamente, novas possibilidades de tratamentos, com resultados fantásticos.

Tradicionalmente, a gordura sempre foi associada à deselegância e, sob a ótica da saúde e do bem-estar, maléficas para o ser humano. Elas estão, historicamente, ligadas a problemas como obesidade ? e todos os seus riscos ? e a outros males, como o diabetes, doenças cardiovasculares e a arteriosclerose, entre outras complicações.

Hoje, no entanto, podemos associar a retirada de gordura à reaplicação no paciente e, consequentemente, obter correções de diversas enfermidades ? com a vantagem de gerar elegância, do ponto de vista estético.

Conjuntamente com as células adiposas temos as células mesenquimais, que acompanham o ser humano desde o nascimento e apresentam capacidade multipotente. Isso significa que elas podem adquirir várias funções, sendo transformadas, por exemplo, em células gordurosas, musculares, do tecido conjuntivo – células denominadas de fibroblastos e que produzem colágeno.

Acredita-se que, ao transferirmos células de gordura conjuntamente com as mesenquimais, ocorra a produção dos fatores de crescimento ? os mediadores bioquímicos ?, ocasionando um efeito benéfico na regeneração dos tecidos na região enxertada.

Com o conhecimento fisiológico das células adiposas, sua fragilidade e os mecanismos de nutrição celular, novas técnicas de manuseio das células adiposas foram desenvolvidas, com materiais específicos, como cânulas mais finas, retirada das células gordurosas sob baixa pressão, centrífugas e microcânulas para a injeção das células a serem enxertadas. Assim, houve maiores possibilidades de as células se manterem vivas na área enxertada.

Restauração do volume mamário

Por isso, na cirurgia plástica atual, um dos grandes avanços é o uso das células de gordura na condição de enxertos, tanto na cirurgia reparadora quanto na estética. É o que acontece nas reconstruções de mamas submetidas à mastectomia (retirada total ou parcial delas). Após a realização de algumas séries de lipoaspiração, a gordura removida é preparada por meio de centrifugação, resultando em um composto de células gordurosas e mesenquimais.

A partir disso, pode-se restaurar o volume mamário removido e, dessa forma, não é necessário o uso de implantes ou até mesmo da transposição de tecidos de outras partes do corpo para restaurar a mama removida. A mesma técnica pode ser utilizada como complementação de outras técnicas para reconstrução mamária, resultando em mamas com consistência mais natural e com maior mobilidade.

A utilização de enxertos de gordura pode ser indicada também para o aumento mamário. Essa técnica, porém, deve ser vista com mais cuidado, pelos riscos de alterar a estrutura do tecido e, consequentemente, as imagens no ultrassom de mama, na mamografia e na ressonância nuclear magnética da região.

O uso dos enxertos de gordura no tecido mamário normal ainda não é totalmente aceito pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e pela Sociedade Americana de Cirurgia Plástica (ASPS), sendo liberado apenas nas cirurgias de reconstrução mamária.

Correções de deformidades nas nádegas

Outro uso dos enxertos de gordura ocorre nas deformidades de volume corporais, primárias ou secundárias. Os enxertos podem corrigir as deficiências teciduais ocasionadas pela remoção exagerada de gordura ? o que levou a uma depressão local, ou deformidades corporais congênitas com assimetrias corporais.

Uma das principais indicações no uso dos enxertos de gordura é no aumento do bumbum. Trata-se da primeira escolha para aumentar os glúteos, desde que existam áreas de lipodistrofias (concentrações de gordura) para serem utilizadas como doadoras.

Os enxertos são colocados no meio do tecido muscular. Com isso, o resultado fica muito natural, sem risco de surgimento de áreas de celulite, e o aspecto final é um aumento semelhante ao de um aumento muscular. Isso acontece porque as células gordurosas, após a integração, não são mais absorvidas.

Fonte: Gerson Luiz Julio, cirurgião plástico e mestre em cirurgia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), da American Society of Plastic Surgeons (ASPS), da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) e da Federação Ibero Latino-Americana de Cirurgia Plástica (FILACP)

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