Grupo ajuda a reconhecer transtorno alimentar e dá apoio para uma vida mais saudável

Comedores compulsivos trocam experiências em grupos de apoio

Pessoas acima do peso recebem salários mais baixos do que seus colegas
Pessoas acima do peso recebem salários mais baixos do que seus colegas Foto: Divulgação

Ela tem 54 anos, é casada e mãe de dois filhos. Hoje dirige, trabalha, faz aula de dança e de violão, tem uma rotina alegre com a família. Mas nem sempre foi assim. Quando tinha 32 anos, achou que sua vida tinha acabado. Era deprimida, mas não sabia o porquê.

Com um familiar alcoólatra, não tinha ânimo para nada. Comia escondida, mentia, não queria sair nem ver as pessoas. Sentia-se infeliz com o corpo, fez dietas, tomou remédios, mas não se animava. Um dia, fez travessas enormes de doces e salgados. Comeu tudo rapidamente. Passou mal, mas logo depois voltou a comer.

Então, se deu conta que não conseguiria se ajudar. Foi nesta época que conheceu os Comedores Compulsivos Anônimos (CCA), um programa baseado nos Alcoólatras Anônimos e que ajuda pessoas que sofrem de compulsão alimentar.

O grupo surgiu em 1960 na Califórnia, nos Estados Unidos, e teve o primeiro grupo fundado no Brasil em 1984, no Rio de Janeiro.

Em Florianópolis, houve grupos anteriores que fecharam, mas um novo foi criado em julho. Para participar, não é preciso pagar mensalidade, preencher cadastros e sequer dizer o nome completo. Os frequentadores têm total direito ao anonimato. O importante é reconhecer o comportamento compulsivo, que não está ligado somente à obesidade. Magros também podem sofrer da doença sem saber.

O compulsivo acha que pode se controlar

Hoje, cinco pessoas frequentam regularmente: um homem e quatro mulheres. Para eles, o apoio é fundamental para não sofrerem as crises de compulsão. É o caso de um jovem de 32 anos, casado e que se considera gordinho desde sempre. Com 1m78cm e 105 quilos, quer mudar.

? Eu me perguntava por que aquilo acontecia justo comigo. Ninguém da minha família é assim. Eu comia escondido, culpava meus pais. Tentei de tudo, exercícios, dietas, remédios, até descobrir que era doente e tinha ajuda ? diz.

Para ele, o comedor compulsivo é orgulhoso, acha que pode se controlar. E ainda costuma deixar a mudança para o dia seguinte. Ele acredita, ainda, que o segredo do programa é a continuidade.

Um dia de cada vez. É como vive a mulher de 54 anos, citada no início da reportagem e que hoje tem uma rotina completamente diferente. Afirma que o grupo melhorou não só sua autoestima, mas a relação em casa:

? Não quero mais morrer em vida. Fiquei nove anos sem ir à praia, sem vestir uma saia, sem usar salto alto. Ao ficar mal, eu fazia mal à minha família ? diz.

Diferenças

Compulsivo
:: Tem ataques e come tudo o que gosta e está disponível
:: Sente culpa depois e pode até passar mal
:: Se não puder comer na hora da crise, ficará mais estressado
:: Come em grandes quantidades em pouco tempo. Por exemplo, duas caixas de chocolate em uma hora.

Quem come por prazer
:: Come bastante, mais em eventos ou festas
:: Em geral, não sente culpa depois
:: Se não puder comer, não se sente angustiado
:: Come em grandes quantidades, mas em um espaço de tempo maior. Por exemplo, uma caixa de chocolate ao dia.

Novo estilo de vida

A coordenadora do Comedores Compulsivos Anônimos (CCA) em Florianópolis tem 31 anos e o desejo de ajudar a outras pessoas e a si mesma.

Ela se deu conta de que era compulsiva há cerca de um ano e meio e recebeu ajuda para mudar. Assim como muitas mulheres, teve um filho jovem e começou a engordar na gravidez.

Em cinco anos, pesava 32 quilos a mais. Fez tratamento médico e tomou remédios, sem sucesso. Começou a sentir cada vez mais vontade de comer compulsivamente:

? Eu escondia a comida e fazia farras. Esperava, ansiosa, a hora de comer sozinha ? lembra.

Um dia, conheceu o programa por meio de uma reportagem e descobriu que eram feitas reuniões pela internet. Depois de um tempo, teve a ideia de criar um grupo presencial.

? Há mais concentração, você sente a emoção dos outros, olha nos olhos deles ? explica a coordenadora do CCA.

Ela ensina o caminho para quem quer criar um grupo, que funciona de modo autossuficiente, sem ser filiado a organizações públicas e privadas. Pessoas de qualquer cidade podem organizar reuniões, basta entrar em contato por meio do site. Com a ajuda do grupo, ela emagreceu 15 quilos e adotou um novo estilo de vida. O CCA atua em questões emocionais, físicas e espirituais, e também diverge de outros grupos de reeducação alimentar:

? O alimento que causa a compulsão é visto como proibido. Nós não temos a balança e o constrangimento que ela causa. Nem cobranças financeiras. E há, ainda, a questão do anonimato.

Serviço
www.comedorescompulsivos.com.br

Os riscos e os benefícios para a saúde

Buscar ajuda em um grupo de apoio contribui para o tratamento. É o que acredita o médico Omar César Castro, especialista em nutrologia. Ele diz que os Comedores Compulsivos Anônimos funcionam como uma terapia, mas alerta que é preciso buscar ajuda de psicólogos e médicos.

? A compulsão alimentar é quando o indivíduo não consegue se controlar e come até se sentir cheio, depois sofre com o sentimento de culpa. Um especialista deve ajudá-lo.

Cada organismo reage diferente aos alimentos e, para o médico, eliminar do cardápio as comidas que causam a compulsão pode prejudicar a saúde. Eles devem ser compensados, com orientação médica. Entre os tratamentos, indica uso de medicação para reduzir a ansiedade, a reeducação alimentar, atividade física e acompanhamento psicológico.

O presidente na Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia da Regional SC, o médico Alexandre Hohl, explica que algumas pessoas podem ter o chamado transtorno de compulsão alimentar periódico (TCAP). Hoje, 30% dos obesos mórbidos no Brasil sofrem da doença.

? Os sintomas são pelo menos dois episódios de compulsão por semana, por seis meses. Nele, a pessoa, sozinha, come exageradamente em um curto espaço de tempo e não tem controle sobre isso. O alimento é ingerido mesmo sem fome. Além da culpa, os compulsivos podem sentir repulsa de si mesmos.

Hohl diz que a compulsão não está, necessariamente, relacionada à obesidade, mas os magros compulsivos tendem a engordar. Para o tratamento, o indicado são medicamentos que agem no sistema nervoso central e terapia. Em teoria, grupos como o CCA também podem ajudar pelo conhecimento de outras pessoas com a mesma doença, o que diminui a sensação de a pessoa sentir-se a única com problemas.

Transformar o anseio em algo construtivo

A psicanalista Soraya Valerim fala que o risco de participar somente do grupo é a pessoa acreditar que é reduzida a um rótulo. Outro perigo é aceitar conselhos e ideias prontas.

? Às vezes, o conselho vem com uma carga do “dever ser”, um ideal, o que pode aumentar a sensação de culpa por um comportamento.

Para a psicanalista, a compulsão se manifesta nas pessoas que não suportam ficar em falta.

A comida fornece uma satisfação para um vazio, mas depois é pior. A sensação de impotência aumenta, e a pessoa quer comer ainda mais, o que cria um círculo vicioso.

A proposta é como transformar esse anseio em algo construtivo. O desejável seria construir o próprio caminho e encontrar satisfação na relação com outras pessoas, no trabalho, em uma causa, em algo que não seja solitário.

Os mitos sobre o que engorda
:: Cerveja não engorda. Cada grama de álcool tem 7 calorias. O açúcar, por exemplo, tem 4 calorias por grama, e a gordura, 9 calorias.
:: É bom cortar totalmente a gordura da alimentação. O ideal é comer, no máximo, 20% de gordura ao dia, restringido a saturada.
:: Sem fazer exercícios, a pessoa não emagrece. É possível emagrecer só com a reeducação alimentar, mas é mais difícil. O exercício é bom não só pela perda calórica, mas pelo ganho de massa muscular.
:: Beber água durante as refeições engorda. Sopa tem água e pode ajudar a emagrecer. E o cafezinho de manhã, não é em uma refeição? Com moderação, não há problemas em beber água ou suco.
:: Refrigerante light à vontade não engorda. As substâncias presentes na bebida podem alterar o metabolismo.
:: Ficar sem comer ajuda a emagrecer. O jejum piora o metabolismo e aumenta a tendência a engordar. O ideal é fazer várias refeições saudáveis.
:: Comer uma refeição mais calórica engorda. Se a pessoa mantiver uma meta diária e souber distribuir as calorias ao longo do dia, poderá comer aquela macarronada sem culpa no almoço.

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