Guarda-roupa em liquidação

Na internet e em reuniões de mulheres, cresce a moda dos brechós para trocar e vender roupas que estão sem uso no armário

Ao lado da irmã, Mônica Passos criou o blog GarimpoRS para repassar roupas que enjoou ou não usa mais
Ao lado da irmã, Mônica Passos criou o blog GarimpoRS para repassar roupas que enjoou ou não usa mais Foto: Jefferson Botega

Encare seu guarda-roupa de frente, revire prateleiras e examine araras. O resultado pode surpreender: de tudo que está lá, quantas peças você nem sequer é capaz de lembrar quando usou pela última vez? Pois são justamente as roupas e os acessórios que foram parar no fundo da gaveta a moeda corrente da moda que se multiplica na internet e em reuniões de amigas Brasil afora: os brechós em que mulheres trocam e vendem vestidos, blusas, saias, sapatos, bolsas e o que mais estiver parado no armário.

A onda de brechós virtuais vem se avolumando nos últimos dois anos e agora chega a números impressionantes: o Busca Brechó, site nacional criado por duas blogueiras para sistematizar e facilitar a procura por peças nos mercados de pulgas virtuais, já soma 1,1 mil endereços eletrônicos cadastrados. Na comunidade do Facebook Bazar de Trocas, criada em 3 de março pela Revista Estilo, do Grupo Abril, o fenômeno se repete com mais de 21 mil internautas intercambiando diariamente itens do próprio guarda-roupa. Trata-se de um mercado informal, regulado pelas próprias usuárias, mas com direito a selos de qualidade expedidos por sites de busca especializados, recomendação de quem cumpre o combinado e listas negras para quem pisa na bola. Para tomar parte nas negociações, basta fotografar as peças que se quer passar adiante e anunciá-las na internet ou percorrer os brechós online, conferir o que mulheres do Brasil inteiro têm a oferecer e fazer sua encomenda.

– Acho que a moda veio para ficar – avalia a redatora-chefe da revista Estilo, Ana Cristina Gonçalves. – Houve uma mudança de comportamento: até um tempo atrás, trocar uma roupa ou comprar uma peça usada era algo que as pessoas nem gostavam de comentar. Agora, não mais.

Para os adeptos da reciclagem do armário, fora de moda é deixar uma roupa em perfeito estado mofando à espera de que um dia lhe pareça outra vez tão linda quanto no provador da loja ou de que você volte a ter as medidas de um ano atrás. A filosofia é simples: o que perdeu a graça ou deixou de servir para uma pode ser objeto de desejo de outra. Pensando assim, a publicitária Luty Mota, 37 anos, criou o blog Exercitando o Desapego, onde troca e vende tudo que está parado na prateleira. Desde então, praticamente não compra mais roupas em lojas, gasta menos e tem sempre peças novas no armário.

– O legal foi tirar o que estava atrapalhando no meu guarda-roupa, fazer um dinheirinho e descobrir que as minhas roupas são moeda de troca – conta Luty.

Na onda do desapego, a comerciante Pâmela Burin, 23 anos, até criou uma regra: se faz mais de um ano que não usa uma determinada peça, ela vai direto para o blog que criou, o Estillo Bazar Sul. Já a secretária Mônica Passos, 31, nem espera tanto: se a roupa não é um xodó, bastou usar três ou quatro vezes para ela voltar ao mercado no blog GarimpoRS. O resultado de tanto desprendimento é um hobby divertido, com direito a fazer novos amigos com interesses comuns, armários mais enxutos e uma rotatividade maior de roupas, turbinada pelas trocas e vendas constantes. O modelo que chegou pelo correio, fruto de uma venda ou uma troca, não serviu ou não agradou? Basta disponibilizá-lo no próprio blog para que encontre uma nova dona. E assim as roupas vão pulando de armário em armário e modificando a relação das mulheres com a moda e o consumo.

– Estão à venda no meu blog algumas roupas que praticamente não usei. Aí percebi que precisava colocar um freio e fiquei menos consumista – afirma Pâmela. – Agora, antes de comprar uma roupa em loja me pergunto: eu realmente preciso disso?

Na ordem do nada se perde, tudo se recicla, entram até as embalagens utilizadas pelas blogueiras para enviar as encomendas de suas clientes. Via de regra, são reaproveitadas de outras entregas ou mesmo de outros produtos.

– Até em caixa de cereal eu já enviei roupas – conta a psicóloga Débora Elias Bruno, 37 anos, que comercializa na internet roupas suas, no blog Túnel da Moda, e do filho, Henrique, de um ano e dois meses, no Perukos.

– Estou fazendo minha parte até para que meu filho saiba que não é preciso ficar acumulando tanta coisa.

>> Leia a reportagem completa na edição de Zero Hora deste domingo 

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