Há dúvidas se vacina contra a Aids funcionaria em outros países

Foto: Mauro Vieira

O sinal verde para os testes da vacina contra a Aids com 16,3 mil pessoas foi dado em 2006.

Metade dos voluntários recebeu seis doses das duas vacinas em 2006, enquanto metade recebeu um placebo (substância inócua). A partir de então, passaram por testes regulares de HIV durante três anos. Dos que receberam placebo, 74 se infectaram, enquanto apenas 51 dos vacinados adquiriram o vírus. Embora a diferença seja pequena, ela é estatisticamente significativa.Tanto os cientistas quanto a OMS garantiram que esse resultado não poderia ocorrer apenas por casualidade.

Um dos problemas é que não há qualquer garantia de que essa vacina teria o mesmo impacto em outras regiões do mundo. O tipo de HIV encontrado na Ásia não é o mesmo da África.

Em relação ao Brasil, os cientistas admitem que não há provas de que a vacina possa funcionar. Mas confirmam que as esperanças sejam mais otimistas que no caso da África, já que o subtipo de aids encontrado no Brasil também é o B, usado na vacina.

1) Por que a notícia é importante?

O campo de pesquisa de vacinas contra o HIV vem sendo marcado por decepções. Em 2007, a Merck suspendeu testes de uma vacina que era vista como uma das mais promissoras até então, depois de concluir que não havia diferença nos níveis de infecção entre os vacinados e os que haviam recebido placebo. O último teste combinou duas vacinas que não haviam tido resultados em testes separados. Depois de três anos, a taxa de infecção de HIV foi um terço mais baixa entre os vacinados. Os resultados renovam a esperança de que é possível desenvolver uma vacina eficaz contra a aids.

2) Como a vacina protege?

O aspecto mais confuso do teste feito na Tailândia é que todos os infectados desenvolveram mais ou menos o mesmo nível de vírus em seu sangue, independentemente de ter recebido a vacina ou o placebo. Normalmente, uma vacina que dá apenas proteção parcial também diminui a carga viral. Por isso, o mais provável é que a vacina não produza anticorpos neutralizadores, como a maioria das vacinas. Tais anticorpos são proteínas em forma de Y, produzidas pelo corpo, que se acumulam sobre os vírus, impedindo que eles se grudem às células e sinalizando ao organismo para destruí-los. Segundo Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, o mais provável é que os anticorpos produzidos pelas vacinas se acoplem diretamente a células de defesas do organismo, fortalecendo a ação delas contra o HIV.

3) Qual será o próximo passo?

Ainda há muito trabalho a ser feito antes que uma vacina se torne disponível. É muito pouco provável que uma vacina seja licenciada com uma taxa de sucesso de apenas 30% – pesquisadores têm como meta uma taxa de sucesso de 70% a 80%. Eles terão de trabalhar em cima dos resultados e modificar a vacina ra obter uma resposta melhor.

“Levará anos para chegar ao mercado”
Entrevista: Cate Hankins, chefe do Departamento Científico da Unaids

O resultado dos testes da vacina contra a aids é a maior notícia no combate à doença desde o seu surgimento. Mas o medicamento ainda levará “anos” para chegar ao mercado. Essa é a avaliação de Cate Hankins, chefe do Departamento Científico da Unaids (agência da ONU), em entrevista à Agência Estado.

Pergunta – Qual a importância dessa descoberta?

Cate Hankins – Podemos dizer com toda confiança de que se trata da melhor notícia desde o início da crise, há 25 anos. É uma grande notícia.

Pergunta – Qual a garantia de que a vacina funcione no Brasil ou na América Latina?

Cate – Nenhuma. A vacina foi produzida para a população tailandesa. É verdade que uma das vacinas é feita a partir do subtipo B do HIV, que também é o predominante na América Latina e no Brasil. Isso é um aspecto que pode dar alguma esperança. Mas isso não significa que a fórmula funcionará na região.

Pergunta – O que deve ocorrer a partir de agora?

Cate – Temos de trabalhar muito ainda para aumentar a capacidade de imunização dessa vacina.

Pergunta – Quanto tempo isso levará?

Cate – Não temos qualquer ideia. Podemos precisar de anos ainda para que uma vacina possa chegar ao mercado.

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