Histórias de mulheres que trocaram as grandes cidades pelas propriedades rurais das famílias

Elas fazem história à frente do agronegócio

Foto: Tadeu Vilani

Com seus diplomas universitários em mãos, elas poderiam ter seguido carreira nos grandes centros. Algumas até deram passos nas correrias das cidades. Mas por escolha própria e consciente, voltaram às origens. Retornaram às propriedades rurais dos pais e colocaram todo o conhecimento a serviço da modernização dos negócios da família. Como a Ana Terra de Erico Verissimo, essas mulheres estão no epicentro de uma nova realidade que surge, estão vivendo uma revolução. Desta vez sem armas, mas com um mundo novo invadindo, sem pedir licença, o ambiente dos campos do Rio Grande.

As personagens desta reportagem estão à frente da modernização da produção agrícola gaúcha, um passo fundamental para a consolidação da classe média rural. É o que afirma Sérgio Schneider, professor de Sociologia da Alimentação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e presidente da Sociedade Brasileira de Economia, Alimentação e Sociologia Rural.

? Elas passarem pelas universidades e voltarem para casa para agregar conhecimentos à atividade da família é uma tendência que começa a se consolidar – descreve o professor.

A primeira guerra enfrentada por estas mulheres é ganhar o respeito na lida rural, uma atividade historicamente masculina. A psicóloga Fabiana Lais Linck, 32 anos, que trocou o consultório pela cabine de uma automotriz nas lavouras de soja, resume o desafio.

? Chegava nas oficinas para consertar uma peça do maquinário e eles faziam de conta que eu não estava ali. Até que colocava a peça na mesa e falava para o mecânico, bem alto, o que tinha que ser feito. Não foi fácil.

A determinação de Fabiana é um traço forte nas outras quatro personagens encontradas pela reportagem de Donna nos rincões do Estado. Elas também relatam ter cuidado ao conversar sobre o negócio com a família. Bruna Quinto Marsiaj, 28 anos, que trocou o curso de Direito pelo de Agronomia e deixou de lado o sonho de viajar pelo mundo para ajudar o pai na administração da granja de arroz em Mostardas, é um exemplo de cautela. Logo que começou a trabalhar, encontrou um quarto com os armários cheios de notas fiscais de fornecedores, serviços prestados e outros papéis. Pacientemente, colocou tudo em ordem. E depois avaliou as informações contidas na documentação.

? Após essa avaliação comecei a conversar com a família sobre o perfil das nossas dificuldades e as vantagens que tínhamos na lavoura de arroz – recorda.

A produção de conhecimento sobre a situação é outro traço comum a estas mulheres, bem como a elegância e a discrição. Mesmo no lombo de um cavalo, dirigindo uma automotriz ou negociando com um fornecedor, elas mantêm o cabelo alinhado, as unhas feitas, o perfume, enfim, o traço inconfundível e intransferível de mulher.

? Às vezes quebra uma unha, mas faz parte do trabalho ? comenta a zootecnista Mikaela Bandeira de Lima, 29 anos, que toca a propriedade do pai em Quaraí, na Fronteira Oeste.

Além do conhecimento acadêmico, estas estancieiras têm outro grande aliado: a tecnologia da comunicação. Nos tempos descritos por Erico Verissimo, a vastidão dos pampas era terra de ninguém. Hoje, é escasso o canto do território gaúcho sem acesso às redes de comunicação. Elas não precisam de um adaga para defender a casa, como era nos tempos de Ana Terra.

Basta um celular.

Bruna Quinto Marsiaj: Convicções testadas no cabo da enxada


Com fama mundial pela sua qualidade, o arroz irrigado plantado no Rio Grande do Sul é uma lavoura de grande risco devido aos seus altíssimos custos. É, enfim, um mercado complicado. Em 2007, Bruna Quinto Marsiaj, 28 anos, desistiu de viajar pelo mundo, como era seu sonho até então. Resolveu ajudar o pai, Bruno, 52 anos, a administrar a lavoura de arroz, em Mostardas, no Litoral.

Foi durante uma visita ao pequeno município de colonização açoriana que ela tomou a decisão de ficar no Brasil. Conversou com o pai demoradamente e venceu sua resistência. Ele não queria se interpor entre a filha e seus sonhos. Ela, para convencê-lo, lembrou um diálogo que tiveram, por telefone, quando ela estava na Nova Zelândia. Na ocasião, a menina perguntou ao pai como saberia se uma decisão que tomasse era certa. Bruno respondeu que a certeza só viria quando o tal momento realmente chegasse.

? Daí disse: pai, é este o momento. Eu quero ficar aqui ? lembra.

Bruno acabou concordando com a decisão da filha. Ao tentar integrar-se à rotina da lavoura, perguntou ao pai por onde começaria. Ele deu a ela uma enxada e apontou em direção ao mato de eucaliptos, onde diaristas trabalhavam na limpeza.

? Trabalhei um mês como diarista, no cabo da enxada. Não desisti e tive a certeza de que tinha feito a opção certa ? emociona-se.

Ela desistiu do curso de Direito e agora está cursando Agronomia na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). É hoje uma parceira do pai na administração da propriedade. Bruno é a parte operacional e a palavra final nos negócios. Ela cuida da administração, planejamento e controle da produção. A jovem montou uma espécie de escritório ambulante que a acompanha por onde vai. São agendas, pastas e gráficos que carrega durante a viagem de ônibus de Mostardas a Pelotas.

Como há sinal de celular na maioria dos lugares do trajeto, usa o tempo para resolver os problemas que aparecem diariamente. Em seu quarto, em Pelotas, em vez de fotos, há um roteiro com tarefas a cumprir. Para manter as boas notas, faz parte de grupos de estudos com os colegas de faculdade.

? Para se ter sucesso no desempenho de várias funções, o segredo é saber administrar o tempo.

Em meio a este turbilhão, há tempo para algo além de estudos e arroz? Para Bruna, há sim. Ela não descuida da pele e dos cabelos e faz questão de vestir-se com elegância. No falar, tem a firmeza de uma executiva. Mas com a doçura de uma menina que há pouco descobriu seu lugar no mundo. Nos fins de tarde, quando está na propriedade, costuma sentar-se à sombra de uma velha figueira para ler e apreciar o vento que sopra no entardecer nas planícies de Mostardas. No cenário poético, a leitura, claro, é sempre um livro técnico.

Mikaela Bandeira de Lima: Com o rebanho, sem perder a elegância


Berço das guerras que construíram a história, a Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul ficou conhecida como lugar de fortes, de homens, de gaúchos. Hoje, no entanto, o local não é somente deles. Mikaela Bandeira de Lima, 29 anos, é uma das mulheres da nova geração que chegou para desfazer os mitos.

Nascida em berço doble chapa, como são conhecidas em Quaraí as famílias formadas por pais brasileiros e uruguaios, Mikaela formou-se em Zootecnia na Universidade Federal de Santa Maria e trabalhou por oito anos com criadores de gado no Uruguai. Se preparava para fazer um mestrado.

Em 2008, no entanto, uma conversa com o pai, Carlos Orlando Bandeira, 52 anos, acabou mudando os planos. O patriarca comunicou que estava desistindo da criação de ovelhas devido à ação dos ladrões, conhecidos como abigeatários. No futuro, também era sua intenção diminuir o rebanho de gado de corte. Estava migrando para a plantação de frutas.

A prosa a fez lembrar dos tempos de infância. Na época, galopava ao lado do pai, no manejo do gado. Quando caía do cavalo não chorava. Afinal, os meninos da fronteira não choram na queda, e ela era tão valente quanto eles. Seu desejo era ser vista como uma pessoa forte. Na decisão do pai, Mikaela viu uma oportunidade de fazer a sua parte pela família.

? O conhecimento que adquiri na faculdade e trabalhando em outros lugares indicavam que deveria agregar um negócio novo ao rebanho – comenta.

Ela já operava um escritório de intermediação de compra e venda de gado para frigoríficos. Deu tão certo que hoje os lucros estão sendo investidos na pecuária de corte e na criação de ovinos.

Seja no escritório ou tocando um rebanho, Mikaela faz questão de estar sempre bem vestida. Segundo ela, o fato de ser pecuarista não significa perder a elegância. Aliás, lembra que logo no início da faculdade os colegas “pegavam no pé dela” porque usava salto alto durante as aulas práticas no campo.

? Mesmo usando salto alto, eu ganhei o respeito deles porque sabia a lida campeira. Nosso conhecimento e credibilidade é o que faz a diferença – prega.

Salto alto, hoje, já é questão superada. O que causa espanto a todos os colegas de trabalho e aos peões das estâncias é o fato de andar acompanhanda pela filhinha Manoela, de apenas oito meses. A menina fica no seu colo uma boa parte das 10 horas de trabalho diário.

? Ser mãe faz parte do negócio ? explica.

Fabiana Lais Linck: Trabalho, psicanálise e soja

 

Espalhada pelo vento, a palha deixada pela soja colhida na lavoura parece não irritar os olhos de Fabiana Lais Linck, 31 anos, uma psicóloga que há sete trocou o divã do consultório pela cabine da colheitadeira. Aos conhecimentos sobre a mente humana, sobre a psicanálise e tantos outros que adquiriu na Unijuí, Fabiana acrescentou o manejo das complicadas planilhas que controlam os custos da lavoura, da distribuição de equipamentos agrícolas e do mercado de grãos.

A soma destas noções é usada para ajudar a família na administração e operação de três propriedades, em Chapada e Ipê, no Norte do Estado, e em Jaguarão, na região da Campanha.

A rotina de Fabiana é pesada. São mais de 12 horas diárias de trabalho. Nos meses das colheitas de soja, no verão, e de trigo, no inverno, é possível perceber, no cantinho das unhas bem tratadas, um breve resquício da graxa usada para lubrificar as máquinas agrícolas. É a marca mais representativa deixada pelo modo de trabalho da moça, que inclui ajudar na manutenção dos equipamentos com pane mecânica, problema comum durante a colheita devido ao uso intensivo.

A psicóloga-granjeira conta que o envolvimento tão pessoal e presente na lida é uma herança da mãe, Solange, que sempre ajudou o marido, Aloisio Roberto, no cotidiano das lavouras. Ao vê-la, aprendeu com ela.

Fabiana tem uma fileira de motivos para explicar o abandono da carreira de psicóloga. O principal deles é o amor pelo manuseio da terra e pela família.

? Embora tenha saído de casa para cursar a faculdade e depois ficado um tempo trabalhando no consultório, os meus sentimentos nunca saíram daqui e creio que foram os grandes responsáveis pela minha volta.

Ela usa os conhecimentos da faculdade e do curso de especialização em Recursos Humanos para aperfeiçoar o relacionamento com os funcionários e com a família. Por exemplo: ao referir-se ao patrimônio do negócio, não usa o termo “meu”, mas “nosso”. Também costuma ouvir com atenção as ponderações do capataz das lavouras, Angelo Ademar Amaral de Lima, 48 anos, que há 30 trabalha na propriedade. Dema, como é conhecido, é um homem de grande saber prático, daqueles que conhece, seja por olho ou por intuição, todo o serviço do campo.

O respeito de Dema pelo conhecimento técnico de Fabiana funcionou como uma espécie de passaporte para que ela fosse aceita entre os empregados das lavouras, quase todos homens. Mulher de fala macia, de feições bonitas e porte elegante, Fabiana engana facilmente. Por sua figura não deixa entrever a estrategista implacável que é na arte dos negócios.

Toda a dedicação que aplica no trabalho, no entanto, cobra seu preço na vida pessoal. Durante as safras, os encontros com o namorado ocorrem no breve tempo livre entre as operações de colheita. Nos outros meses, o casal só se encontra nos intervalos dos inúmeros cursos que faz sobre negócios e novas tecnologias.

? É o preço ? arremata.

Marcela Bonatto Acauan: Guardiã da alma gaúcha

 

Em 2002, Marcela Bonatto Acauan estudava na Escola do Ministério Público do Estado, em Porto Alegre, e trabalhava como advogada. Tudo ia bem, na correria da cidade grande, quando a vida resolveu mudar. A família, residente em Santana do Livramento, na Fronteira Oeste, viu-se diante de sua tragédia: o pai, João Jacques, havia morrido. Passado o susto inicial, a mãe, Gilda, sentou com Marcela e suas três irmãs e começou uma das conversas mais sérias e importantes que já haviam sido travadas entre as mulheres daquela casa:

? E agora, o que vamos fazer com as estâncias?

A conversa durou pouco. Os olhos voltaram-se para Marcela, que sem pensar muito, disse:

? Eu toco.

Hoje, aos 38 anos, em tom de brincadeira, ela diz que o Estado perdeu uma boa promotora de Justiça. Mas não se arrepende da escolha que fez. No lombo de um cavalo ou sentada em sala de reuniões, ela administra um tambo de leite, com tecnologia de última geração, e os rebanhos de gado de corte e de ovinos. E o que chama da “alma do gaúcho”, a criação de cavalos crioulos, uma das paixões do seu pai.

Marcela tem um tom de voz firme, mas todo o seu semblante se transforma quando fala dos cavalos. Parece estar recitando um poema ao contar as peripécias dos amigos a quem ela cuida e admira. Logo que começou a tocar os negócios da família, fez um curso de doma racional ? método que prepara o animal para o convívio e a submissão aos humanos sem o uso da violência.

E foi por meio do conhecimento sobre os equinos que conquistou a confiança dos peões das estâncias. Pessoas como o Gelsi Fagundes, 60 anos, conhecido por Mano Lima, devido a sua semelhança com cantor nativista e domador à moda antiga.

? Ensinei a guria a andar a cavalo ? diz o peão, cheio de orgulho.

A capacidade de agregar pessoas à sua volta é uma das marcas registradas de Marcela. No meio da conversa, ela lembra que, na Fronteira, ninguém daria valor à sua palavra pelo simples fato de ser dona da estância. Foi preciso entender da lida campeira e acrescentar coisas novas ao cotidiano das pessoas.

Assim ganhou legitimidade e confiança para falar com todo mundo de forma igual e tocar o negócio ao seu modo. Em cursos técnicos e feiras rurais ela aprende a maior parte das novidades que traz para implantar na estância da família. Sem um pulso firme e o respeito de toda a equipe, no entanto, todo o conhecimento seria inútil.

Rodeada pela impositiva beleza da vestidão do Pampa, Marcela também sabe cultivar sua própria vaidade. Veste-se de maneira discreta e elegante. Há quatro anos, casou-se com um amigo de infância ? o que, dizem, a fez ficar ainda mais bonita. No lombo dos cavalos, os dois trocam ideias, planejam o futuro, discutem os problemas da estância ou simplesmente passeiam pela imensião das planícies. E lembram que nenhum arrependimento cabe na vida que ela escolheu.

Raísa Bettú Lazzari: Sob as cores do outono

 

As cores trazidas pelo outono nas folhas dos parreirais na Serra Gaúcha dão um toque especial a uma das mais belas regiões do Brasil. Nos bastidores deste belo cenário acontece uma ranhida batalha, visível a poucos: a luta dos colonos do vinho para manter o seu modo de vida, ameaçado pela globalização da economia.

O caminho apontado pelos especialistas para a sobrevivência dos colonos é torná-los um elo da economia globalizada. E é justamente neste ponto que vive Raísa Bettú Lazzari, 24 anos, formada em Turismo, com especialização em vitinicultura e atualmente cursando a faculdade de Administração.

Ela não se encantou pelas luzes da cidade e há anos decidiu que todo o seu conhecimento técnico e vigor físico estariam à disposição da família, que vive na Linha São Jorge, no interior de Garibaldi. Hoje, a propriedade é um bem articulado negócio que opera com o cultivo de uvas, cítricos, agroindústria (fabricação de vinhos e seus derivados, compotas e massas) e o turismo rural.

Para a trincheira dessa batalha, Raísa foi recrutada pela mãe, dona Odete. Em 1997, quando a menina tinha oito anos, morreu o pai, seu Danilo. As outras três irmãs, Rosângela, Raquel e Roselaine, já eram adolescentes. A mãe assumiu o controle dos negócios e reorganizou a vida da família. Na adolescência, Raísa teve uma oportunidade que as irmãs não tiveram: seguir a carreira em outro lugar. Mas depois de estudar e se profissionalizar, tomou a decisão.

? Não tinha muito o que pensar. O melhor negócio era me integrar à luta da família – diz.

A luta não é apenas uma palavra de efeito. Significa uma jornada de 15 horas de trabalho diário, que se inicia na roça e se estende até as salas dos operadores do turismo. Nos fins de semana, ela participa da vida da comunidade, com trabalho de catequese de crianças na paróquia.

? Precisamos mostrar aos jovens que vale a pena ficar aqui e investir no modo de vida das nossas famílias – prega.

Apesar de toda essa carga de afazeres, Raísa tem no rosto as feições tranquilas. Fala de maneira pausada sobre assuntos que se iniciam no trato das videiras até os mercados de turismo. Vive um ritmo frenético de trabalho, mas consegue encontrar a paz na paisagem da terra onde nasceu e escolheu viver.

O preço que a sobrevivência do modo de vida dos colonos cobra é alto. Sobra a Raísa pouco tempo para a vida pessoal. O namorado, por exemplo, ela só encontra uma vez por mês. Cuidar da pele e dos cabelos? Uma vez por semana, não mais. Não há tempo. Mas Raísa é bonita assim mesmo, ao natural, do seu jeito.

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