HPV, o vírus silencioso que atinge um quinto das mulheres

Transmitido pelo sexo, micro-organismo causa lesões que levam ao câncer de colo do útero

Portadores de HPV normalmente não apresentam sintomas, o que reforça a importância dos exames preventivos
Portadores de HPV normalmente não apresentam sintomas, o que reforça a importância dos exames preventivos Foto: Diego Vara, Banco de Dados, 27/11/2008

Silencioso, o vírus HPV infecta ou já infectou pelo menos 20% das mulheres em todo mundo. Muitas delas nem sabem disso. Na maioria dos casos, o organismo dá conta do recado e mantém o vírus inativo, mas quando o HPV resiste, corre-se o sério risco de se desenvolver um câncer. Isso porque o vilão dessa história provoca lesões no colo do útero. As células infectadas se reproduzem anômala e rapidamente, comprometendo algumas áreas. Dependendo da agressividade, as lesões são qualificadas como leves, moderadas ou graves. São as graves que costumam preceder o câncer. Não há idade para as lesões surgirem, basta que a mulher tenha vida sexual ativa.

Uma pesquisa realizada pela ginecologista Denise Monteiro, que desenvolveu tese de doutorado no Instituto Fernandes Figueira (IFF), ligado a Fiocruz, no Rio de Janeiro, atendeu 403 adolescentes que iniciavam a atividade sexual. No estudo, a médica mostra que, um ano após o início das atividades sexuais, quase uma em cada quatro delas já apresentava lesões. Ao fim de cinco anos de vida sexual, o índice salta para 40%. Mas há boas notícias.

– Houve uma importante regressão das lesões de alto grau, que regrediram em 50%, assim como das de baixo grau, que regrediram em até 90% – diz.

Um dos desafios para se combater o problema é que o paciente com HPV costuma não ter sintomas. A não ser em caso de lesões genitais, normalmente verrugas, provocadas por tipos virais considerados de baixo grau para câncer, e que só ocorrem em 1% dos portadores do vírus. Por isso, médicos insistem nos exames de prevenção.

– O papanicolaou é o que mostra maior eficiência e deve ser realizado em todas as pacientes. Pode ser feita também a inspeção visual, com corantes que destacam as áreas afetadas. Hoje, só tem câncer de colo de útero quem permite – afirma o ginecologista Paulo Naud, presidente do Instituto de Prevenção e Diagnóstico do Câncer de Colo do Útero (Incolo).

No Brasil, porém, a incidência continua alta. Segundo Naud, a cada grupo de 100 mil mulheres, há de 23 a 30 casos de câncer de colo de útero. Número bem acima de países europeus. Na Finlândia, por exemplo, ocorrem de dois a quatro casos a cada grupo de 100 mil.

– Graças ao esclarecimento da população, à frequência nos exames e à cobertura médica é que este número é tão baixo – diz o ginecologista.

A prevenção é essencial também durante a relação sexual, principal meio de transmissão. Mesmo sem lesões, o atrito provocado pelo ato abre pequenas passagens para o vírus. Por isso, uso de preservativo é indicado para evitar o contato direto entre os genitais. O problema é que a camisinha não cobre toda a área por onde pode ocorrer a transmissão, como a bolsa escrotal e a raiz do pênis.

Outra questão que aumenta o risco de contaminação é que muitos homens não sabem que estão com HPV. Isso porque há lesões que são praticamente invisíveis a olho nu.

– ideal seria realizar exames de rotina, mas no Brasil esse hábito é pouco frequente entre os homens. Até mesmo em quem tem mais de 50 anos, que deveria ir anualmente para prevenir o câncer de próstata – diz o ginecologista do hospital São Lucas da PUCRS Ricardo Daudt.

Apesar de também serem vítimas do HPV, os homens sofrem menos graças as características do tecido peniano. No pênis, o vírus não encontra um tecido que pode ser modificado facilmente. Sem essa alteração, caem as chances de surgirem doenças pré-cancerosas ou o próprio câncer. Por isso, o HPV torna-se menos agressivo, e a incidência de câncer, comparada com a da mulher, é bem menor.

Vacina ajuda no combate ao HPV

A chave no combate ao HPV é a prevenção. Para evitar a infecção, os especialistas apontam apenas dois caminhos. O primeiro é a vacina. O segundo é o uso da camisinha – este, porém, com grandes riscos. As lesões externas podem estar em áreas que o preservativo não cobre, como a bolsa escrotal e a raiz do pênis. Já a vacina neutraliza o vírus, impedindo que ele entre no organismo.

De acordo com o presidente do Instituto de Prevenção e Diagnóstico do Câncer de Colo do Útero (Incolo), Paulo Naud, a vacina é formada por partículas semelhantes ao vírus. Essas partículas criam anticorpos que impedem o HPV de se instalar nas células e iniciar o processo de agressão ao colo do útero. A vacina deve ser aplicada apenas como prevenção, antes da entrada do vírus no organismo e até mesmo antes do início da vida sexual.

– O problema é a desinformação que ainda se tem sobre a vacina. Muitos aplicam quando a paciente já está infectada. Aí, já não adianta mais nada – alerta Naud.
São dois os tipos de vacina. Uma delas é a quadrivalente, ou seja, previne contra os quatro subtipos de HPV: 16, 18, 6 e 11. A outra é mais específica para os subtipos 16 e 18, que representam 70% dos casos de câncer de colo de útero. A duração da imunidade ainda não foi determinada.

– Coordeno um grupo de pesquisa que acompanha há mais de sete anos mulheres que receberam a vacina, que vem demonstrando boa proteção. Em vários países, já colocaram a vacina à disposição da população – diz Naud.

Segundo o professor-adjunto da faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Manoel Afonso, há estudos comprovando que a imunidade dura, pelo menos, cinco anos.

– A eficácia foi comprovada entre mulheres dos nove aos 26 anos. Há estudos buscando a comprovação em mulheres com até 45 anos – ressalta Afonso.

De acordo com Afonso, os efeitos colaterais são raros e geralmente com reações locais, como dor no braço (local da infusão). Por enquanto, a vacina é encontrada somente na rede particular de saúde. Cabe lembrar que a dose não suspende a necessidade de exames papanicolaou periódicos com o ginecologista.

Tratamentos podem reverter lesões

Durante a consulta anual, a mulher deve sempre realizar o papanicolaou. De acordo com a alteração encontrada, o passo seguinte é fazer a coloscopia, um exame microscópico do colo do útero que permite visualizar com aumento de até 40 vezes. Outras técnicas também podem ser realizadas. É o caso da captura híbrida, que identifica se o HPV encontrado no organismo é de alto ou baixo risco. Porém, deve ser aplicada para certos tipos de pacientes, como explica Manoel Afonso, professor-adjunto da faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

– Estima-se que o HPV transite em 70% das pessoas durante suas vidas, tanto mulheres quanto homens. Por isso, o resultado da captura híbrida acaba tendo pouco valor. Esse exame teria indicação principalmente em pacientes com lesões indeterminadas ou naquelas em que já se efetuou a conização do colo uterino devido a lesão ser de alto grau. Nesse caso necessitamos de um acompanhamento especial e realizamos a captura híbrida – diz.

Se forem diagnosticadas lesões, elas são classificadas como sendo de baixo ou alto grau. Nas de baixo grau, cerca de 58% regridem no primeiro ano, dispensando qualquer ação cirúrgica, mas com a necessidade de se manter a observação clínica.

– A defesa contra organismos estranhos, como vírus e bactérias, é mediada pela imunidade inata e específica, fazendo com que a maioria das infecções virais desapareça e as lesões de baixo grau regridam espontaneamente – explica Afonso.

Caso não regridam, elas podem ser destruídas (normalmente com métodos cáusticos, por aplicação de ácido) ou retiradas. Já as lesões de alto grau exigem a retirada de uma parte do colo do útero, chamada conização. A conização pode ser efetuada por uma cirurgia chamada exerese da zona de transformação (EZT).

– Atualmente, é considerado o melhor tratamento para as lesões pré-malignas do colo uterino, pois é de baixo custo e pode ser feita sob anestesia local, sem internação –explica Denise Monteiro.

Segundo a pesquisadora, a EZT está substituindo outra técnica de tratamento: a cauterização de lesões pré-malignas. Neste caso, a vantagem da EZT é que tem um diagnóstico mais preciso, afastando a possibilidade de câncer oculto. Além disso, consegue tratar toda a lesão sem deixar pequenas áreas comprometidas que podem voltar a evoluir.

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