Indisciplina nas escolas: qual o papel da família?

Internautas consideram fundamental a participação dos pais na educação

Eduarda (de laranja) e Luisa (de rosa) passam parte das férias na casa de Karen mãe de Luisa (de branco)
Eduarda (de laranja) e Luisa (de rosa) passam parte das férias na casa de Karen mãe de Luisa (de branco) Foto: Diego Vara

A falta de disciplina que dificulta o ensino nas escolas públicas e privadas não se limita às paredes da sala de aula.

Aavaliação de especialistas em educação de que a família exerce um papel fundamental no comportamento dos alunos foi confirmada por uma enquete proposta em uma reportagem na edição de domingo de Zero Hora sobre esse tema. A resposta preferida pelos leitores à pergunta “Por que o respeito acabou?”, referindo-se à relação dos estudantes com os professores, foi a falta de limites impostos ainda dentro de casa.

Durante o final de semana, centenas internautas se manifestaram no site de zerohora.com sobre o drama dos conflitos vivenciados no ambiente escolar – fenômeno que já foi sentido por oito em cada 10 professores da rede particular que revelaram já ter sofrido alguma forma de desconstituição de sua autoridade, e motiva 40% das licenças de saúde dos docentes da rede pública estadual.

Às 21h de domingo, 55,6% dos participantes da pesquisa interativa de ZH, que não tem critério científico mas encontra respaldo na opinião de especialistas em educação, avaliavam que o epicentro dos conflitos em sala de aula se encontra na verdade no ambiente doméstico. Para a psicopedagoga Fabiani Ortiz Portella, mestre em Educação e presidente da seção gaúcha da Associação Brasileira de Psicopedagogia, o pouco tempo que pais e mães passam com os filhos é um dos motivos para essa dificuldade em estabelecer limites.

– Trabalham o dia inteiro. Dizer “não” dá muito trabalho, é algo que exige muito – avalia a psicopedagoga.

Outra parcela de culpa de parte das famílias é a distância que mantém do colégio dos filhos. Segundo Fabiani, alguns pais somente procuram a escola no final do ano, quando o estudante já corre risco de repetência, ou quando são convocados para tratar de problemas disciplinares.

– Teve um menino que adulterou o boletim antes de mostrá-lo ao pai. Se o pai acompanhasse o filho mais de perto, saberia o que estava acontecendo na escola – observa.

O importante papel da família

O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos do Ensino Privado (Sinepe/RS), Osvino Toillier, acredita que os pais contemporâneos ainda não encontraram uma nova forma de se relacionar com os jovens e estabelecer parâmetros claros de comportamento – da mesma forma que os estabelecimentos escolares.

– Hoje, é muito mais raro a gente ouvir alguém dizer claramente o que pode e o que não pode fazer – diz.

Toillier também avalia que hoje a legislação que interfere na sala de aula foca muito mais em direitos do que deveres, o que gera uma sensação de impunidade para os indisciplinados. As normas legais superprotetoras ficaram em segundo lugar na enquete respondida pelos leitores de ZH, com 33,5% das respostas marcadas até as 21h de ontem.

Para a presidente do Cpers/Sindicato, Rejane Oliveira, as eventuais deficiências familiares refletidas nas escolas públicas são provocadas por fatores mais complexos e de cunho social:

– O grande problema que a sociedade vem enfrentando é de políticas públicas, de distribuição de renda e de condição de vida, que levam à desestruturação familiar – acredita.

Clique aqui e confira o panorama da violência nas escolas

“Me recuso a culpar as novas gerações”
Entrevista: Julio Groppa Aquino, ESPECIALISTA EM PSICOLOGIA ESCOLAR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)

Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, em São Paulo, Julio Groppa Aquino, 45 anos, desde o ano passado se incumbe de uma pesquisa monumental com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq): compilar e analisar toda a produção acadêmica brasileira sobre disciplina escolar surgida desde os anos 80. Com dois livros já publicados sobre o assunto, o especialista se considera uma voz dissonante em relação ao coro de educadores que vê nos alunos a origem dos conflitos em sala de aula.

Para Aquino, é preciso abandonar os “jargões educacionais” a fim de compreender mais corretamente os fenômenos que afetam as escolas brasileiras há pelo menos duas décadas – e critica duramente quem considera as novas gerações um entrave ao ensino.

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