Lady Gaga é uma camaleoa do showbiz

Assim pode ser definida a artista que desembarca em Porto Alegre para um verdadeiro espetáculo na próxima terça-feira no estacionamento da Fiergs

Foto: Timothy A. Clary

Com apenas 26 anos, Lady Gaga despontou no cenário pop em 2008 e, desde então, arrebatou fãs, prêmios, recordes e o título de sucessora de Madonna. Vencedora de cinco Grammy e 13 troféus da MTV norte-americana, a cantora foi a primeira pessoa a atingir 30 milhões de seguidores (ou monstrinhos, como ela costuma chamar os fãs) no Twitter e a primeira artista na história a superar a marca de 1 bilhão de visualizações de seus extravagantes videoclipes – que mais parecem curtas-metragens.

Gaga é a imagem da excentricidade. Já vestiu collant (sem calças), blusas com ombreiras pontiagudas, roupa feita de carne, vestido transparente composto por bolhas de plástico aglomeradas, chapéus tão grandes que ela precisava de ajuda para se equilibrar, vestido feito com bonecos de pelúcia dos Muppets e penteados que formavam um cone, um telefone ou eram armados com latinhas de refrigerante.

É difícil definir o visual da artista em um único look, afinal a nova-iorquina se tornou famosa justamente por surpreender ao vestir um traje mais inusitado do que o outro.

A fonte de toda inspiração tem um nome: Haus of Gaga. Formado por coreógrafo, fotógrafo, diretor musical, diretor artístico, estilista, cabeleireiro, marqueteiro, o time criativo da cantora é inspirado no coletivo de arte “A Fábrica”, de Andy Warhol, um dos maiores expoentes da pop art.

Entre os integrantes desta equipe estão dois nomes renomados do mundo fashion: o fotógrafo Terry Richardson e o diretor de moda Nicola Formichetti. O primeiro é aquele que adora tirar a roupa das personalidades para clicá-las em poses ousadas; o segundo renovou a marca do designer francês Thierry Mugler, chamando um modelo tatuado dos pés à cabeça como se fosse um esqueleto para estrelar os comerciais.

O resto do time é extremamente jovem, com média de idade abaixo de 25 anos. Uma das últimas “aquisições” do Haus of Gaga é a inglesa de 20 anos Helen Green. Seus desenhos de traços marcantes (veja na página seguinte) chamaram a atenção da cantora nas redes sociais, e Gaga rapidamente cooptou a talentosa fã para o time.

Não é somente nas artes visuais que a cantora se associa a novatos desconhecidos. Os produtores e DJs Zedd e Madeon, de 23 e 18 anos, respectivamente, criaram remixes que impressionaram a artista e devem participar do próximo álbum, ARTPOP, com previsão de lançamento no início do ano que vem.

O início da transformação

Natural de Nova York, Lady Gaga nasceu Stefani Joanne Germanotta em março de 1986. O talento para a música foi percebido bem cedo: aos quatro anos, começou a tocar piano; ao completar 13, compôs a primeira balada no instrumento. A veia criativa da artista teve reconhecimento após alguns percalços. Aos 17, foi admitida na renomada Escola de Artes Tisch, onde escreveu artigos sobre arte, religião e política. Em seguida, começou a cantar vestindo apenas calcinha e sutiã em bares alternativos da cidade-natal. E passou a consumir drogas.

A partir de 2006 e acompanhada do produtor musical Rob Fusari e da coreógrafa e diretora criativa Laurieann Gibson, submeteu-se a um processo criativo que culminaria na persona Lady Gaga, transformando as mechas morenas em um loiro quase branco.

Apesar do talento musical e vocal, foi sempre na estética que Gaga mais chamou atenção. No primeiro videoclipe, Just Dance, de 2008, popularizou as ombreiras pontiagudas, o desenho de raio no rosto e as pernas à mostra. Os collants, os óculos de sol gigantes e exóticos e o cajado de luz vieram no vídeo seguinte, de Poker Face.

Com a dimensão estratosférica que suas músicas ganharam, Gaga se obrigou a vestir uma roupa diferente a cada clique dos paparazzi de plantão – certa vez, ela chegou ao cúmulo de embarcar em Los Angeles com o cabelo curto e aterrissar em Londres com um megahair de mechas cor de rosa. Foram nesses momentos que passou a homenagear todos os seus ídolos, que iam desde os cantores John Lennon e Grace Jones até o estilista Alexander McQueen, passando pela personagem Minnie, da Disney.

O lançamento de uma nova edição do CD de estreia chamada The Fame Monster, em 2009, consagrou ainda mais a cantora e estreitou sua relação com a moda. A primeira vez que Bad Romance tocou foi em um desfile de McQueen, na semana de moda de Paris. É no clipe desta canção que a cantora usa o icônico sapato de salto alto de 25 centímetros criado pelo britânico (veja mais sobre suas roupas na página 14). Para McQueen, ela compôs e dedicou a música Fashion of His Love após ele cometer suicídio em fevereiro do ano seguinte.

No álbum posterior, Born This Way, de 2011, ela trouxe, na faixa homônima, uma mensagem de autoajuda, dizendo para os fãs se aceitarem independentemente da opção sexual que têm. Os videoclipes continuaram a trazer avatares da artista, que reforçou a importância da transformação visual e sentimental que seu cabelo significa na canção Hair: “Cansei, não sou uma aberração / Só quero ser eu mesma, e quero que você saiba / Eu sou o meu cabelo”.

Além da música e da moda

Apesar do grande apreço pela moda e pela música, Lady Gaga não se restringe às passarelas e aos palcos. A artista fará sua estreia no cinema ao participar do novo filme de Robert Rodriguez. Em Machete Kills, que chega ao cinema no ano que vem, irá interpretar uma personagem que, curiosamente, se chama La Chameleón (A Camaleoa).

Como é de praxe entre as cantoras de sucesso mundial, Gaga desenvolveu um perfume próprio, que tem coloração negra e mistura odores de – pasmem! – sangue e sêmen. Após um comercial dirigido por Ridley Scott e Steven Klein, chegou ao mercado em setembro e logo quebrou recorde de vendas. Tornou-se a segunda fragrância a vender mais rápido na história da perfumaria, atrás apenas de Coco Chanel. Foram mais de 6 milhões de frascos em uma semana. O êxito fez a cantora, inclusive, cogitar um futuro lançamento de CD associado a um novo perfume, o que significaria uma jogada de marketing inteligente já que os discos têm tido dificuldades para ultrapassar a barreira de 1 milhão de cópias.

Outra associação bem-sucedida que Gaga colocou em prática ocorreu em 2010, quando se tornou diretora de criação e criadora de projetos especiais da marca Polaroid. Sempre amparada pela Haus of Gaga, ela lançou um dispositivo portátil para impressão instantânea de fotografias, uma câmera de visual retrô e um óculos com tela LCD que exibe as fotos capturadas pela câmera.

Orgulhosa do próprio corpo

Dona de uma magreza quase assustadora, Lady Gaga surpreendeu ao aparecer com quase 15 quilos a mais durante a turnê mais recente, Born This Way Ball, há dois meses. A artista endereçou a culpa ao restaurante italiano do pai e admitiu que ama pizza e massa.

? A Adele é maior do que eu. Por que ninguém fala sobre isso? Ela é tão maravilhosa e acredito que sua confiança é algo que eu devo atingir – comentou, em entrevista à revista Stylist, no início do mês.

Incomodada com a repercussão, lançou um manifesto na sua própria rede social, a LittleMonsters.com, e publicou fotos suas vestindo apenas lingerie. No texto, explica que sofreu de bulimia e anorexia desde os 15 anos e que, quando criança, costumava variar o peso com frequência. Chamado “Body Revolution 2013”, o manifesto encoraja os fãs a mostrarem seus defeitos e a se sentirem orgulhosos da própria imagem.

Próximos passos

Nos últimos meses, Lady Gaga deixou para trás o cabelo loiro – que, eventualmente, aparecia de cor amarela, verde ou rosa – e pintou os fios de castanho escuro, exatamente como aparece na foto de abertura dessa reportagem. O guarda-roupa também trouxe um visual menos escandaloso e mais glamouroso, com cintura alta, tons mais escuros e óculos de sol. Ainda não se sabe onde a imprevisível cantora quer chegar, mas analisando seu histórico, um palpite é fácil arriscar: envolverá moda, música para as massas, ativismo e muita polêmica.

Insanidade exuberante

Por Roberta Weber (consultora de moda)

Loira, ousada, irreverente, sexy.Esses atributos combinados a uma estrela pop não são novidade. Madonna foi a precursora. Nos anos 1980, surpreendeu e polemizou com seus figurinos e atitude. Mas o mundo ainda tinha muito mais para testemunhar: os sapatos icônicos Armadillo, ridiculamente altos, da última coleção do saudoso Alexander McQueen, uma lagosta incrustada de cristais ao estilo surrealista de Schiaparelli, vestidos feitos de bolha, ursos de pelúcia e até vestido feito de carne. Não há nada que Lady Gaga se recuse a usar. Sua criatividade e verdadeiro compromisso com o que há de mais interessante, louco e genial na moda não conhece limites.

É moda tachas? Ela usa, por tudo, até na bolsa Birkin (símbolo do luxo) customizada. As pérolas ganham destaque? Pois em Gaga aparecem dos pés à cabeça, até no rosto. A silhueta extragrande retorna? Gaga opta por um modelo Comme des Garçons teatralmente gigante. Tudo que aprendemos sobre a necessidade de adaptar a moda da passarela para vida real cai por terra. A cantora pega o conceitual para si e o torna ainda mais insano.

Junto com seu stylist Nicola Formichetti (hoje diretor criativo da Mugler), ela criou uma imagem que desafia, inspira e até ofende. Sem vaidade ou praticidade, totalmente a serviço do absurdo. Nos seus dias “casuais”, dá para identificar uma predileção pelo estilo anos 80, com influência roqueira repleto de tachas, meia-arrastão rasgada, couro e coturnos (com mega plataforma).

Do luxo ao lixo sem conhecer o meio do caminho, Lady Gaga vive a moda nos extremos. Em um mundo onde o politicamente correto impera e as meninas parecem uniformizadas com fórmulas para “looks do dia”, dá prazer assistir alguém sem medo de ousar (e errar). Vida longa à Gaga!

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