Lançamento “Frida Kahlo – Suas Fotos” reúne imagens inéditas da pintora mexicana

Embora negasse ser fotógrafa, Frida herdou do pai o talento e a mania dos autorretratos

Obra com fotos de Frida será traduzida para francês, inglês, alemão e português
Obra com fotos de Frida será traduzida para francês, inglês, alemão e português Foto: Banco de Dados

Um dos mais conhecidos quadros de Frida Kahlo, de 1939, mostra duas irmãs siamesas sentadas de mãos dadas e com os dois corações unidos pela mesma artéria. Para o escritor francês J.M. Le Clézio, trata-se do mais sincero autorretrato dos muitos feitos pela pintora. As Duas Fridas seriam tanto a artista sonhadora que vivia nas nuvens quanto a mulher sofrida que aos seis anos foi atingida por uma poliomielite e, aos 18, teve a coluna vertebral fraturada num acidente de ônibus.

Le Clézio se propôs a contar a turbulenta história de amor dessa mulher dividida com o também pintor Diego Rivera, mas, discreto, evita outros casos – com homens e mulheres – que esclarecem muito sobre a vida da pintora surrealista – rótulo, aliás, que detestava. Assim, o recém-lançado livro Frida Kahlo – Suas Fotos, avança no ponto em que Le Clézio recua, mostrando como a garota precoce construiu sua autoimagem fazendo intervenções em alguns de seus retratos, seja melhorando seu rosto ou eliminando os de pessoas que detestava, como a segunda mulher de Rivera, Lupe Marín.

Embora negasse ser fotógrafa, Frida herdou do pai o talento e a mania dos autorretratos, gênero cuja presença na história da arte revela uma tentativa de autoconhecimento, mais do que pura vaidade. E ela produziu inúmeros deles, além de fotos experimentais como as de seu pai, fotógrafo profissional. A mais impressionante faz alusão ao acidente sofrido em 17 de setembro de 1925, em que o corrimão de um ônibus transpassou-lhe o ventre e saiu por sua vagina: trata-se de uma boneca de pano jogada ao lado de um cavalinho de madeira. Outra mórbida alusão à tragédia é a foto de uma caveira de arame largada num jardim. Não são fotos assinadas, como as do pai, mas a diretora do Museu Frida Kahlo, Hilda Trujillo Soto, que fez a catalogação do arquivo, garante serem ambas obras da pintora.


Uma imagem que remeteria ao acidente sofrido pela pintora na adolescência

No acervo da Casa Azul onde morou Frida, foram encontradas, segundo a diretora, fotos de Stalin que a pintora usou para fazer seu último quadro, inacabado, Frida e Stalin (1954). Foi um dos seus poucos quadros “revolucionários” em que pintou, por miopia ideológica, o retrato do sanguinário ditador morto um ano antes. Frida era comunista, mas fez de sua pintura um exercício intimista de autorretratos e naturezas-mortas, ao contrário de Rivera, que dividia com ela a mesma ideologia e pintou retratos de líderes comunistas russos – um deles o de Lenin, imiscuído num painel encomendado (e destruído) pelo milionário americano Rockefeller. Rivera, contraditório, também admirava o bilionário Henry Ford.

Le Clézio diz que Frida, descendente de judeus, jamais entendeu a paixão do marido por Ford, antissemita assumido. No entanto, cumpriu à risca o papel que lhe reservaram nessa encenação em solo americano. Nela, “Diego fazia o papel de libertador e ela, o de princesa asteca”, segundo o Nobel francês. Foi lá o começo da derrocada amorosa do casal. Não sem razão, tanto Trotski quanto o líder do movimento surrealista André Breton entraram na via dos dois no momento em que essa união se desfazia, em 1936.

O engajamento político de Frida, reforçado por sua relação com a fotógrafa Tina Modotti, não impediu que ela separasse arte e política – ela mesma dizia que sua pintura não era revolucionária. Tampouco que considerasse seus amigos surrealistas idiotas. Le Clézio afirma que ela passou a detestar Breton e sua turma de “estúpidos intelectuais”. O mesmo sentimento ambivalente ela conservou com relação à mãe, quase ignorada no livro do Nobel, mas analisada no livro de fotos por Masayo Nonaka: os trajes regionais e o gosto por chamar a atenção vieram dela. Sem Matilde Calderón (1876 – 1932) o mundo jamais teria conhecido a Frida de trajes indígenas e coque.

FRIDA KAHLO SUAS FOTOS
Pablo Ortiz Monasterio (org.)
Fotografias e ensaios. Cosac Naify, 524 páginas, R$ 120.

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