Donna - ir para home

Lições sobre a arte de montar um acampamento dentro de casa

Especialistas em arquitetura ajudam a construir uma estrutura de almofadas e cobertores perfeita

Parker, um ano, brinca no forte de travesseiros feito pelo seu pai, o arquiteto Andrew Van Leeuwen
Parker, um ano, brinca no forte de travesseiros feito pelo seu pai, o arquiteto Andrew Van Leeuwen Foto: Stuart Isett


Janet W. Foster, historiadora da arquitetura da Universidade Columbia, é bem versada nas nuances das casas de fazenda holandesas-americanas, uma inflexão do estilo do reino de Ana da Grã-Bretanha, matiz de uma casa de campo que lembra o revival gótico de Andrew Jackson Downing.

Ela própria também trabalhou um pouco com projetos arquitetônicos.

Por exemplo, o teto estendido por um cortina puxada por um cordão, projetado por Foster por volta de 1992. A característica arquitetônica marcante do teto era que ele se formava quando o cordão era amarrado para sustentar a cortina na ponta de um cobertor. Então, Foster dispunha o cobertor sobre o canto de paredes montadas com almofadas, erguendo o teto de um acampamento dentro de casa construído para seus dois filhos.

? Quando puxamos o cordão, a porta do cobertor sobe ? explicou ela. ? Quando ela fica levantada, nós brincamos de ‘dia’. Quando ela fica abaixada, nós brincamos de ‘noite’.

A voz de Foster, então, começou a ficar mais suave.

? Estou ficando emocionada ? disse ela. ? Nunca sabemos quando estamos montando o último dos nossos acampamentos dentro de casa.

Dado que os meus dois filhos são crianças pequenas, ainda não estou preocupado com o problema do último acampamento montado dentro de casa. Ainda estou tentando descobrir como fazer um mais ou menos decente, sendo que tenho grave déficit em habilidades de engenharia. Sou perito em desabamentos. Então, pedi ajuda a Foster e outros especialistas em arquitetura para que me ajudassem a construir uma estrutura de almofadas e cobertores perfeita.

Porém, a minha busca por conselhos práticos também desenterrou outra coisa. Eu derramei algumas lágrimas, senti um entusiasmo imprevisto e, por fim, encontrei algo inesperado. Nunca mais vou olhar para um acampamento de travesseiros da mesma forma.

O arquiteto e blogueiro Andrew van Leeuwen, de Seattle, deparou-se com a ressonância emocional desses acampamentos quando publicou um texto divertido sobre eles em seu blog há vários anos. As visitas ao site dispararam.

? Isso sobrecarregou o servidor e tivemos que apagar o texto ? disse ele, rindo.

É difícil evocar lembranças dos meus primeiros acampamentos feitos dentro de casa. Eu me lembro do que senti, no entanto: escondido em uma caverna feita de almofadas e lençóis com a minha irmã mais nova, nós conspirávamos para descobrir como criar janelas e portas em nosso espaço particular. Trazíamos frequentemente uma convidada – a nossa gata, Frisky – mas as marcas dos arranhões nos nossos antebraços atestavam seu interesse em ficar de fora.

Eu também conversei com muitos amigos e conhecidos sobre tais acampamentos. Eles me contaram que guardam os mesmos sentimentos de afeto por essa atividade quase universal da infância, muitas vezes compartilhada com os pais. Custo: zero. Regras: poucas. Conforto da caverna: alto. Limpeza: é, tem isso.

Mas qual a razão principal dessa vontade primordial de construir acampamentos dentro de casa? Simples, disseram os arquitetos. Nós todos gostamos de espaços nos quais nos encaixamos.

? As crianças pequenas não têm controle permanente sobre seu espaço ? disse Foster, diretor adjunto de planejamento urbano e preservação histórica da Universidade Columbia. ? Elas conseguem ter um pouco de espaço. Trata-se de ter o próprio espaço, assumir o controle dele. Fundamentalmente, isso é o que define a arquitetura.

Minhas próprias lembranças me levaram a propor a construção de um acampamento dentro de casa com meu filho Milo cerca de um ano atrás, quando ele estava se aproximando dos 3 anos. Ele queria um acampamento em forma de foguete. Tirei a almofada de nosso sofá de dois lugares e a apoiei por cima de uma cadeira, criando uma caverna de cerca de um metro e meio abaixo da almofada e do assento.

Nós nos amontoamos dentro do foguete, com minhas pernas balançando para o lado de fora. Fingi apertar alguns botões no painel do foguete de controle informatizado. Bip, bip, bip, eu disse.

? Bip, bip, bip ? ele repetiu. ? Estamos aqui. Vamos lá!

E lá foi ele, correndo para o outro quarto, até o planeta distante no qual havíamos pousado, comigo logo atrás.

A estrutura improvisada não estava mantendo seu interesse. Seria ele muito novo para brincar disso? Ou será que minhas habilidades eram insuficientes?

? A primeira coisa a fazer é testar os materiais da construção ? instruiu Michael Lepech, de 32 anos.

Ele é professor assistente de engenharia civil e ambiental da Universidade Stanford, especialista em concreto flexível, vencedor de concursos de castelo de areia e alguém que não constrói acampamentos de almofadas de qualquer jeito.

Ele os constrói com os sobrinhos, William, de 8, e Andrew, de 5 anos, primeiro coletando materiais pela casa, depois separando os leves dos pesados. Dessa forma, disse ele, eles conseguem aprender e seguir o princípio mais básico dos projetos de arquitetura: as coisas pesadas ficam na base; as mais leves, na parte superior.

? Nós também conversamos sobre tensão e compressão ? disse ele, embora evite termos técnicos. ? Falamos sobre empurrar e puxar.

Sua grande inovação é o uso de cobertores para embrulhar duas almofadas grandes, para que elas criem um grande painel de parede que pode ficar na sua borda. Na verdade, Lepech cria vários painéis. Então, ele usa um outro cobertor ou lençol para anexar painéis adjacentes, ligando assim as paredes do acampamento.

Lepech impressionou os sobrinhos com uma tenda que chegou a ter dois metros e meio de altura, o suficiente para que colocassem uma cesta de basquete de brinquedo dentro. Ele acrescentou que se concentra mais na construção, menos na arquitetura, já que prefere deixar que os meninos tragam ideias.

? Eu nunca dou o pontapé inicial ? disse ele. ? A última coisa que quero fazer é empurrar as minhas coisas para eles.

Foi neste momento do relato que as dúvidas surgiram. Não sobre as minhas óbvias deficiências técnicas. Mas sobre as minhas motivações. A quem se destina esse exercício de construção de acampamentos dentro de casa, afinal? Nossos filhos? Ou nós?

Eu tive conselhos mais estruturais e um pouco de psicologia de poltrona com Bob Borson, de 44 anos, arquiteto de Dallas que constrói frequentemente acampamentos com sua filha de 7 anos, Kate.

Suas dicas: usar lençóis para fazer o teto, pois eles são mais leves do que os cobertores. Os sofás são uma ótima âncora. Aperte a ponta de um lençol entre o encosto do sofá e a parede, coloque paredes de almofadas em frente ao sofá, de modo que você possa criar instantaneamente um teto ao puxar o lençol sobre elas.

Como bônus, contou ele, a sua filha, sentada no chão em frente ao sofá, coloca bichos de pelúcia no assento. Quem não quer ter mais espaço nas prateleiras?

Além disso, os guarda-chuvas são excelentes, disse Borson, para construir acampamentos super-rápido. Basta jogar um lençol ou um cobertor por cima de um guarda-chuva bem grande – ou dois, se os tiver – e pronto.

Borson ama ficar junto da filha nos acampamentos dentro de casa.

? A gente conta segredos dentro deles ? disse ele. ? Eles são particulares. Servem para compartilhar algo.

Claro, a menina também adora ter um cantinho próprio.

Meu sobrinho Zachary, de 7 anos, é um construtor obstinado desses acampamentos e tem ideias de design específicas.

Um deles está montado em seu quarto há semanas, ou, como ele diz, “desde cada segundo da minha vida”.

? A maneira mais fácil de construir um é com uma escrivaninha ?  disse ele, em um tom que sugeria que ele estava querendo saber se o tio havia nascido em uma caverna. ? Sabe o buraco onde a cadeira entra? É só fazer uma entrada em frente ao buraco, pular dentro dele e pronto, a festa pode começar.

Por festa, ele quer dizer que se arrasta para dentro da tenda e fica lendo sozinho. E tem ideias muito contundentes a respeito do motivo pelo qual faz isso.

? Porque a Mel entra no meu quarto e pega os meus livros e bate no meu joelho com eles.

Mel é Melina, a irmãzinha de Zachary, que, segundo ele, o interrompe constantemente. Às vezes, contou ele, ele a convida para o acampamento, “mas não quando ela está com esse humor”. Os pais não são chamados, no entanto.

Ouvi isso em outros lugares.

Nada de pais dentro das tendas, disse Benjamin Lopez-Ikeda. Ele agora tem 17 anos e há muito tempo não constrói acampamentos dentro de casa. Mas até alguns anos atrás, ele e os primos os construíam regularmente. Era dentro deles que escondiam suas armas Nerf e comiam chocolate em segredo.

Eles também seguiam suas próprias inspirações arquitetônicas ao invés de pedir conselhos da tia, Margaret Ikeda, que, junto com o marido, dirige um escritório de design e arquitetura em Berkeley, Califórnia.

? Nós simplesmente fazíamos do nosso jeito, que era o jeito certo e sempre deu certo ? afirmou Benjamin, dizendo ainda a respeito dos adultos: ? Eu acho que nós não precisávamos deles.

? Tínhamos que ser convidados ? disse sua tia, Ikeda, que assistia aos acampamentos de uma certa distância, não muito impressionada com o exterior da estrutura. ? Parecia uma grande bagunça, como um acampamento dos sem-teto.

Mesmo assim, ela desenvolveu apreço por aquilo que eles representavam.

? Era a casa deles, uma casa dentro de uma casa ? disse ela. ? Ela tinha que se tornar algo deles.

Quando eu entrevistei os arquitetos, percebi neles toques de melancolia com relação a se conectarem com as crianças em um processo mutuamente criativo. Lembramo-nos do conforto do acampamento, da emoção de construir nosso próprio espaço, e queremos construí-lo com nossos filhos.

Mas talvez essa experiência não consista em ficar junto. Talvez tenha a ver com desapego. Claro, talvez eu tenha alguns meses, quem sabe anos, para colaborar. Vou mostrar coisas a eles. Eu vou dar o pontapé inicial. Mas então vou ter que deixá-los ter uma casa dentro de nossa casa, separados de nós.

As almofadas e os cobertores, os lençóis e o cordão, os guarda-chuvas, vão pertencer a eles. Assim como os segredos sussurrados lá dentro.

Será que vou saber quando tiver construído o meu último acampamento?

13391334

Em 2030, homens viverão tanto quanto as mulheres

Matéria anterior
13391500

Como espantar a alergia de dentro de casa

Próxima Matéria