Lilia Cabral: uma veterana em ascensão

A atriz deixou de ser eficiente em papeis secundários para se tornar estrela de primeiro escalão

Lilia se considera uma atriz a serviço da profissão, e essa crença foi determinante para sua ascensão
Lilia se considera uma atriz a serviço da profissão, e essa crença foi determinante para sua ascensão Foto: joão miguel junior

O espetáculo Maria do Caritó, que faz curta temporada neste fim de semana, no Teatro do Bourbon Country, proporciona aos gaúchos a oportunidade de assistir a um texto vencedor dos Prêmios Arte Qualidade Brasil, Shell e APTR de Teatro. Só isso já seria justificativa suficiente para o programa de fim de semana. Mas tem mais: Maria do Caritó traz no papel- título a atriz Lilia Cabral, “a estrela máxima dentro da Rede Globo” para o diretor Jayme Monjardim. “A Ferrari da atuação”, segundo José Alvarenga Jr., que a dirigiu no filme e no seriado Divã. Nenhum dos dois incorre em qualquer exagero.
Aos 53 anos, Lilia Cabral vive o auge da trajetória profissional que já contabiliza 30 anos, 26 deles na Globo. Até 2007, era tida como uma atriz competente, mas não estelar. Uma profissional segura para papeis secundários, cômicos ou dramáticos, sem maior repercussão. Foi quando a personagem Marta, da novela Páginas da Vida, ganhou o horário nobre e, apesar de quase vilã, a empatia do telespectador. A mulher cruel que desprezava a neta com síndrome de Down e humilhava o marido rendeu a Lilia a indicação ao Prêmio Emmy Internacional de melhor atriz ? o Oscar da televisão. Três anos depois, em 2010, ela recebeu a mesma indicação, desta vez como Teresa, de Viver a Vida. A partir de então, passou a ocupar o topo da pirâmide das grandes estrelas brasileiras. Era só o começo.

Sua carreira estourou mesmo com Mercedes, a mulher de meia-idade que vivia às voltas com a alegria e os desafios de sua época, desabafando as glórias e os infortúnios no consultório do analista na peça Divã, baseada no livro homônimo da escritora gaúcha Martha Medeiros. Divã tornou-se uma marca poderosa nas mãos de Lilia. Estreou no teatro, ganhou adaptação para o cinema e chegou à televisão, sempre com enorme sucesso em todas as três plataformas. Foi a primeira série da Globo a ter locações no Exterior, com 12 dias de gravação em Nova York.

No palco, Divã foi assistido por 210 mil pessoas. Completou 240 apresentações em 11 cidades brasileiras e cumpriu temporada de 40 dias em Lisboa, Portugal. No cinema, vendeu 1,8 milhão de ingressos e faturou R$ 16,5 milhões. Na televisão, a temporada de oito episódios obteve índice de 16 pontos de audiência, considerado excelente para o horário, levando-se em conta que a série começava a ser exibida às 23h (uma eventual segunda temporada ainda não está confirmada). Todo esse êxito deve-se _ e muito _ à feliz união da atriz com a personagem, graças à capacidade de Lilia de transitar sem percalços entre o timing cômico e o drama sem dramalhão.

Donna: Estudando sua trajetória, parece lógico afirmar que sua carreira está dividida entre antes e depois de Mercedes. Essa afirmação é um exagero?
Lilia Cabral: Não é exagero nenhum. Minha carreira se divide, sim, entre antes e depois da Mercedes. Tive muitos altos e baixos profissionais, em teatro principalmente. Na televisão, sempre fui muito bem-sucedida, interpretei grandes papeis. Mas Divã veio consolidar um projeto de vida que sonhei durante muito tempo, tanto no teatro como na tevê. O sucesso da Mercedes coroou toda uma trajetória profissional e chegou exatamente em uma fase em que eu estava pronta para receber este trabalho. Talvez, se a Mercedes tivesse chegado para mim quando tinha 30 anos, eu não tivesse executado tão bem. Mercedes e Divã são, sem dúvida, um divisor de águas.

Donna: Com 53 anos, você vive uma ascensão vertiginosa em uma idade em que a maioria das atrizes está com a carreira estabilizada. A que se deve essa conquista? Lilia: Considero fundamental você saber escolher um bom papel. Muitas vezes, porém, você não tem essa chance. É a emissora, ou autor, que designam você para aquele determinado personagem. O que eu acredito muito é na disponibilidade do ator para a profissão. Não pode haver apenas o desejo por papeis principais. Vou te dar um exemplo: quando eu terminei de fazer a Marta, de Páginas da Vida, fui designada para interpretar a Catarina (a dona-de-casa submissa e tolerante às traições e à agressividade do marido, interpretado pelo ator Jackson Antunes, na novela A Favorita). A Catarina era bem menos importante do que a Marta, mas nem por isso eu deixei de aceitar aquele papel. Se você acha que sabe tudo, não vai a lugar nenhum. Agora, se você acredita que cada papel é uma oportunidade de se colocar a serviço da profissão e de aprender, então você cresce, sempre. Eu prefiro sempre achar que posso aprender do que me considerar a rainha da cocada preta.

Maria do Caritó é o exemplo mais recente da humildade que faz de Lilia Cabral uma grande estrela. Depois de três anos dedicados exclusivamente ao cinema e à televisão, ela estreou em 2010, no Teatro dos Quatro, no Rio, a montagem cujo texto que havia encomendado ao dramaturgo Newton Moreno. A personagem não tem nada de heroína de novela das nove. Corre o ano de 1964, e Maria do Caritó é uma solteirona virgem do interior do Nordeste que chega aos 50 anos e decide se casar, nem que para isso precise enfrentar a fúria do pai e de toda a cidade que acredita que ela é uma santa. Na cultura popular nordestina, Caritó é a pequena prateleira no alto da parede , ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem, fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pedaço de fumo, o cachimbo. Portanto, a moça que ficou no caritó é aquela que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada, intacta.

? É cômico para quem vê e trágico para quem vive ? brinca a atriz. ? A Maria do Caritó é uma personagem que sente uma frustração imensa por não ter se realizado como mulher. O que mais me encantou nesse texto é que ele fala sobre fé. A Maria do Caritó não deixa de acreditar. Ela é quase uma criança e, como toda criança, é otimista, perseverante, ingênua.

Donna: Qual paralelo você traçaria entre a Maria do Caritó e a Mercedes?
Lilia: Ah, não existe afinidade nenhuma entre as duas. A Mercedes nunca subverteu, não abaixava a cabeça para nada. Já a Maria do Caritó é dominada por todos.

Donna: Você convidou alguns cineastas para assistirem ao espetáculo. Enxerga em Maria do Caritó o mesmo potencial de Divã de ser adaptado para o cinema e, quem sabe, para a tevê?
Lilia: Acredito muito. Inclusive, já tem gente interessada. Quem assiste à peça percebe que ela tem vida fora do teatro. Tem aquela coisa meio mágica de Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, que daria lindamente no cinema. Mas no momento eu quero focar na peça, até porque não quero ser taxada de atriz que faz a peça, o filme e o programa de tevê, sabe? (risos).

Depois de Porto Alegre, Maria do Caritó viaja para Vitória e encerra a trajetória este ano. Retoma em 2012 com longa temporada em São Paulo. É que, no momento, os esforços de Lilia Cabral estão todos voltados para sua primeira protagonista na televisão, na novela Fina Estampa, de Aguinaldo Silva, prevista para estrear em setembro como sucessora de Insensato Coração. 

? Lilia é hoje uma das atrizes mais amadas, festejadas e respeitadas do Brasil. Havia muito tempo merecia uma protagonista absoluta ? elogia Aguinaldo.

Em Fina Estampa, ela será Griselda da Silva Pereira, uma viúva pobre que faz pequenos serviços domésticos, como consertos de fogão, chuveiro e encanamento, para manter os três filhos ? até ganhar na loteria.

? Ela é uma mulher muito popular na Barra da Tijuca. Chamam a Griselda de Pereirão, porque ela um legítimo quebra-galho, tipo um marido de aluguel, que conserta tudo, anda sempre com uma mala de ferramentas a tiracolo ? antecipa Lilia. ? Mais do que isso não posso falar.

Donna: Mas nessa breve descrição já dá para sentir o seu encantamento pela personagem.
Lilia: (Risos) Ah, sim! Muito. É o personagem mais difícil de toda a minha vida.

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