Livro apresenta biografias de mulheres que fugiram às normas

Em "Histórias de Mulheres", Rosa Montero fala sobre representantes da classe feminina

Frida Kahlo é um exemplo de mulher contestadora
Frida Kahlo é um exemplo de mulher contestadora Foto: Banco de dados

Simone de Beauvoir quis que o mundo se lembrasse dela como a mulher que viveu um amor libertário com Sartre até o fim da vida do pensador existencialista. Confinada pela mãe em um manicômio, a transgressora Camille Claudel lutou para não cair no esquecimento em vida. Sem sair de casa, as irmãs Charlotte e Emily Brontë descobriram como ser mais do que solteironas a quem ninguém ouvia. E quem reuniu essas e outras 12 histórias em livro enfrentou a família para viver a seu modo.

Na obra Histórias de Mulheres (Agir, 223 páginas, R$ 29,90), a escritora e jornalista espanhola Rosa Montero, apresenta 15 biografias de quem se afastou da norma, compondo um mosaico de ousadias, insanidades e subversões femininas nos séculos 19 e 20. Não se trata de uma coletânea panfletária, muito menos de mais um apanhado de perfis de gente famosa. Aí está o olhar de uma autora capaz de surpreender até mesmo ao falar de nomes conhecidos como Agatha Christie e Simone de Beauvoir. Em cada personagem, Rosa descobre singularidades e conflitos.

Por que a mais conhecida escritora policial evitava sorrir abertamente nas fotografias? O que se sabe da autora de O Segundo Sexo e da celebrada transparência de seus muitos amores além da versão que ela mesma construiu? A partir de uma característica reveladora ou um detalhe instigante, Rosa colore seus retratos. Com prosa envolvente, a autora revisita biografias de figuras recorrentes, como a escultora Camille Claudel, marcada pela pecha de amante do gênio Rodin e esquecida até na hora da morte, sem ter uma sepultura; as escritoras Charlotte e Emily Brontë, autoras, respectivamente, de Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes, que criaram com os irmãos reinos imaginários para escapar do isolamento da casa onde viviam; e a pintora mexicana Frida Kahlo, que não perdeu a vaidade nem quando seu corpo se dilacerava. Ao lado dessas personagens consagradas – a escritora George Sand, a antropologa Margaret Mead também estão na lista –, Rosa apresenta nomes não tão conhecidos fora da Espanha, como Zenobia Camprubí, mulher do escritor Juán Ramón Jiménez, prêmio Nobel de 1956, que teria anulado a própria trajetória na relação opressiva com o marido.

Nascida em 1951, Rosa viveu parte das transformações que romperam tabus no século 20. Cresceu sob a ditadura de Franco, saiu da casa dos pais quando uma mulher fazer isso – sem ser para se casar – ainda causava espanto e brigou pela descriminalização do aborto.

Foi-se a era das supermodelos

Que brasileiras se afastam hoje das normas? Há convenções a enfrentar no século 21? O livro Histórias de Mulheres, de Rosa Montero, que elenca figuras que viveram à margem das regras de sua época, desafia o leitor a pensar quem de seu tempo, de seu país, poderia figurar nesta lista. Mais: pensar o sentido de uma nova lista como essa nos anos 2000.

Donna endereçou o desafio a duas pensadoras contemporâneas: a filósofa e poeta Viviane Mosé, que descomplicou a filosofia no quadro Ser ou Não Ser, do Fantástico, e a antropologa Mirian Goldenberg, autora de De Perto Ninguém é Normal. Mirian hesitou quando soube que deveria indicar uma brasileira viva.

– Você já sabe quem eu diria, né? – brincou ela, que, durante a entrevista por telefone, do Rio, recebeu a caixa com a reedição de um dos seus livros, Toda Mulher É Meio Leila Diniz.

– Depois dos anos 1960, não há mais o que contestar. Agora há o culto à beleza, ao consumo…

Quem questiona esse culto já faz algo de bom.

Viviane Mosé foi ainda mais incisiva. Depois de tantas quebras de tabu, seria a hora de repensar as contestações do passado:

– Fui criada para não me casar, para adiar a hora de ter filhos… E isso é muito opressor. Por que mulheres não podem casar, ter filhos, serem femininas? A mulher está se tornando autoritária de tanta liberdade que quer ter.

Para Viviane, o momento é de as mulheres buscarem uma trajetória própria e se juntarem aos homens para construir novos valores para toda a sociedade. Ao fim, cada pensadora trilhou um caminho: Mírian destacou duas mulheres e Viviane justificou por que não indica ninguém.

“Elas fizeram o que puderam em um mundo estreito”

Em entrevista desde a Espanha, a jornalista e escritora Rosa Montero fala por e-mail sobre Histórias de Mulheres e sobre sua própria história.

Nesta obra, Rosa optou por falar unicamente de mulheres já mortas. Isso porque queria apresentar ao leitor aventuras de vida já completas. Mas muito também por querer ressaltar o sexismo vivido pelas mulheres de outras épocas, numa comparação ao que existe hoje.

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