Livro faz homenagem às cantoras da era de ouro do rádio brasileiro

Vozes de Maysa, Angela Maria, Emilinha Borba e Marlene marcaram as décadas de 40 e 50

Sociólogo Ronaldo Conde Aguiar faz uma homenagem às cantoras que fizeram parte da era de ouro do rádio brasileiro
Sociólogo Ronaldo Conde Aguiar faz uma homenagem às cantoras que fizeram parte da era de ouro do rádio brasileiro Foto: Reprodução

Antes do surgimento da televisão, a grande estrela dos lares brasileiros era o rádio. Em torno dele, as famílias se reuniam para ouvir notícias, novelas e os programas que apresentavam prestigiados cantores. Os jovens dos anos 1940 e 1950 cresceram acompanhados de vozes de grandes cantoras, como Maysa, Angela Maria, Emilinha Borba, Marlene e tantas outras.

No livro As Divas da Rádio Nacional (editora Casa da Palavra, 272 páginas + CD, preço médio de R$ 58), o sociólogo Ronaldo Conde Aguiar faz uma homenagem às cantoras que fizeram parte da era de ouro do rádio brasileiro. Ele conta a história de 14 artistas, relembra os sucessos e não poupa os leitores das histórias mais surpreendentes, tristes ou chocantes.

O livro vem acompanhado de um CD com as canções marcantes de cada diva remasterizadas. A obra é o segundo título de um quarteto que o autor pretende escrever. O primeiro foi o Almanaque da Rádio Nacional e o terceiro, que já está quase pronto e tem lançamento previsto para 2011, falará dos cantores da Rádio Nacional.

Para Ronaldo, o livro é uma forma de homenagear as cantoras e lembrar um pouco da própria história recente do país.

? Tento entender onde nasceu tanto amor. Por que as pessoas idolatravam tanto essas cantoras?

Baseada na obra de Ronaldo Conde, trazemos um resumo da história de 10 divas escolhidas pelo autor.

:: Dolores Duran

“A gente briga/ Diz tanta coisa que não quer dizer/ Briga pensando que não vai sofrer/Que não faz mal se tudo terminar” Castigo (Dolores Duran)

Adiléia da Silva Rocha começou a trabalhar aos 12 anos em um programa da Rádio Tupi, o Teatro da Tia Chiquinha. O magro cachê que recebia ajudava no sustento da família. Antes de começar a trabalhar na rádio, aos 10 anos, ela já havia se apresentado no programa Calouros em Desfile, comandado por Ary Barroso.

Aos 16 anos, Adiléia se transformaria em Dolores Duran ? codinome inspirado nos bolerões que cantava nas boates de Copacabana. Autodidata, cantava em português, inglês, francês, espanhol e até em esperanto. Ao contrário do que muitos dizem, era uma mulher alegre e vivia a dar espalhafatosas gargalhadas. Morreu aos 29 anos, depois de uma noitada com bebida, fumo e diversão ? tinha problemas cardíacos provocados por uma febre reumática malcurada. Como Ronaldo Conde relata, ao chegar em casa, a cantora disse à empregada:

? Não me acorde, estou muito cansada. Vou dormir até morrer.

:: Maysa

“Vai lembrar que um dia existiu/ Um alguém que só carinho pediu/ E você fez questão de não dar/  Fez questão de negar” Ouça (Maysa)

Os olhos verdes e o sorriso foram algumas das marcas de Maysa. No entanto, a cantora também é lembrada pelos pileques que tomava e pelos escândalos que fazia. O copo de uísque sempre a acompanhava. Entre os anos de 1975 e 1976, a cantora admitiu ser alcoólatra e se internou várias vezes para se desintoxicar. Foram crises de abstinência muito sérias. Maysa chegou a passar meses presa e era amarrada à cama com frequência.

Ainda muito jovem, casou-se com André Matarazzo, que tinha o dobro da idade dela e era um dos homens mais ricos do Brasil. O filho do casal, Jayme Monjardim, acabou sendo criado pelos pais de Maysa e hoje é diretor de TV. Depois da separação, a cantora teve vários namoros com pessoas famosas, entre eles Paulo Tavares, o cantor Almir Ribeiro, Mário Teles e o mais ardente de todos, Ronaldo Bôscoli. Nos últimos anos, lutou contra a obesidade ingerindo moderadores de apetite, que se misturavam ao fumo e à bebida. Morreu aos 41 anos em um acidente de carro.

:: Zezé Gonzaga

“Ai Ioiô, eu nasci pra sofrer/ Fui oiá pra você/ Meus oinhos fecho/ E quando os oio eu abri/ Quis gritar quis fugir/ Mas você, eu não sei por quê/ Você me chamou” Linda Flor (Henrique Vogeler/Luis Peixoto/Marques Porto)

Ao contrário de muitas das divas da Rádio Nacional, Zezé Gonzaga era extremamente disciplinada. Nunca se atrasava e cumpria à risca os compromissos. Característica que a levou a substituir várias das cantoras que se atrasavam. Zezé tinha técnica e afinação impecáveis, o que a tornava uma das preferidas dos produtores musicais. Nascida em Minas Gerais, começou a cantar aos 13 anos. O pai restaurava instrumentos de forma artesanal e, às vezes, tocava piano acompanhado pela voz suave da filha.

Aos 19 anos, mudou-se para a Cidade Maravilhosa. Em 1949, gravou o primeiro disco. Zezé trabalhou por 20 anos na Nacional e participou de vários grupos musicais e coros. No fim dos anos 1950, gravou discos infantis. Aos 45 anos, em 1975, estava desiludida com a música popular e aposentou-se por achar que não havia mais espaço para uma cantora como ela. Mudou-se para Curitiba e, juntamente com a filha adotiva, passou a cuidar de uma creche. Morreu em 2008, aos 86 anos.

:: Angela Maria

“Quem descerrar a cortina/ Da vida da bailarina/ Há de ver cheio de horror/ Que no fundo do seu peito/ Abriga um sonho desfeito/ Ou a desgraça de um amor” Vida de Bailarina (Américo Seixas e Chocolate)

Abelim Maria da Cunha foi contra todos os preceitos da família. O pai, Alberto Coutinho, era pastor e criava os 10 filhos na rédea curta. Abelim foi atendente de consultório dentário, trabalhou numa fábrica de tecidos e chegou a ser inspetora de lâmpadas. Na casa noturna Dancing Avenida, adotou o nome artístico de Angela Maria e foi descoberta por Gilberto Martins, diretor artístico da Rádio Mayrink. No entanto, havia uma condição para gravar um disco: precisava ter um repertório e não apenas cantar as músicas de Dalva de Oliveira.

Em 15 dias, ela conseguiu duas músicas inéditas e gravou o disco. Angela Maria tinha um sonho simples: casar e ter filhos. Mas não foi fácil, foram vários namoros, noivados e casamentos fracassados até que ela se casasse com um rapaz 30 anos mais novo, Daniel D’Angelo. Hoje, aos 82 anos, mora em são Paulo. Foram 27 discos 78 rpm e 10 LPs e CDs, o último, Angela Maria: Disco de Ouro, foi lançado em 2003.

:: Emilinha Borba

“Chiquita Bacana lá da Martinica/ Se veste com uma casca de banana nanica” Chiquita Bacana (Alberto Ribeiro e João de Barro)

Emilinha Borba foi o símbolo do conservadorismo dentro da Rádio Nacional. Cumpria seus compromissos, não tinha histórico de namoricos ou bebedeiras, vestia-se de forma discreta, nunca usava decotes ou mostrava as pernas e pintava-se de maneira sóbria. Além disso, fazia o papel de boa mãe e esposa exemplar, o que gerava uma grande identificação das mulheres que a escutavam.

Extremamente simpática, a cantora respondia cartas das ouvintes na Revista do Rádio. Também mantinha outra coluna na revista, a Diário de Emilinha, onde contava as atividades mais corriqueiras, desde apresentações até novidades do filho e do marido. Emilinha nasceu na Zona Norte do Rio e casou-se com Artur Sousa Costa Filho, com quem viveu por 23 anos e teve um filho. Gravou 117 discos 78 rpm e 89 LPs. Muitas das marchinhas de Carnaval que escutamos ainda hoje foram interpretadas por ela, como Chiquita Bacana, Tomara que Chova e Marcha do Remador.

:: Marlene

“Lata d’água na cabeça/ Lá vai Maria/ Maria lava a roupa lá no alto/ Lutando pelo pão de cada dia” Lata d’água (Luis Antonio e Jota Junior)

Para levar adiante a carreira de cantora, Marlene teve que driblar as proibições da mãe. Com nome de batismo de Vitória De Martino Bonnaiutti, não conheceu o pai, que morreu sete dias antes de seu nascimento. A matriarca, Antonieta, criou as filhas com disciplina e não permitia que elas ouvissem qualquer coisa que não fosse ópera ou hinos da igreja.

Certo dia, sem avisar, colegas foram à casa dela para tentar convencer Dona Antonieta a aceitar a carreira de cantora da filha. Furiosa, a mãe deu uns tapas em Marlene. A briga fez com que a cantora se mudasse para o Rio. Na Rádio Nacional surgiu a rivalidade com Emilinha Borba. Marlene chegou a ser agredida por uma fã de Emilinha quando voltava ao trabalho depois de um período afastada por causa de uma cirurgia. Com a agressão, teve que voltar ao hospital. Ela se casou com o ator Luís Delfino e teve um filho. Atualmente, tem 86 anos. Foram 24 discos, 78 rpm, seis LPs e CDs, 11 filmes e 12 peças de teatro.

:: Dalva de Oliveira

“Errei sim/Manchei o teu nome/Mas foste tu mesmo o culpado/Deixavas-me em casa/ Me trocando pela orgia/Faltando sempre com a tua companhia” Errei sim (Ataulfo Alves)

É impossível separar a história de Dalva de Oliveira da de Herivelto Martins. A paixão pela música foi herdada do pai, Mário de Oliveira, mais conhecido como Mário Carioca, que morreu quando a filha tinha oito anos. O encontro com Herivelto foi no Teatro Pátria, em São Cristóvão, onde foi convidada para cantar e Herivelto fazia o papel de um palhaço. Em poucos dias, começou a se apresentar com Herivelto e Nilo Chagas, que já formavam uma dupla. O grupo se transformou no Trio de Ouro. Logo no começo do relacionamento, Dalva engravidou e teve Pery.

A cantora se desdobrava entre as apresentações, os cuidados com a casa e com o filho. Além disso, aguentava as noitadas de Herivelto, um boêmio inveterado. Apesar de tentarem se manter juntos por causa do Trio de Ouro, Dalva desistiu e começou carreira solo. A cantora voltou a se casar, desta vez com Tito Clemente. O casamento durou 14 anos. O alcoolismo de Dalva influenciou na separação. A cantora morreu em 1972, de cirrose hepática.

:: Elizete Cardoso

“Saudade torrente de paixão/ Emoção diferente/ Que aniquila a vida gente/ Uma dor que não sei de onde vem” Canção de Amor (Chocolate e Elano de Paula)

Elizete Cardoso começou a trabalhar cedo para ajudar a família. Foi balconista, cabeleireira e trabalhou numa fábrica de sabão. No aniversário de 16 anos, recebeu Pixinguinha e outros músicos, levados por seu tio Pedro, e encantou os convidados. Além de fazer sucesso ao microfone, Elizete era namoradeira. Entre os vários romances, o mais famoso foi com Leônidas da Silva, jogador da Seleção conhecido como Diamante Negro.

A cantora se apresentou por várias cidades brasileiras. Numa das viagens, conheceu o cavaquinista Ari Valdez, com quem se casou. Mesmo grávida, quis se separar e passou a trabalhar no Dancing Avenida. De dançarina, passou a cantora e, depois, foi convidada para ir a São Paulo, onde ficou por um ano. De volta ao Rio, conheceu Evaldo Rui, com quem começou a namorar. Em 1954, Evaldo se suicidou e ela teve que suportar insinuações de que teria sido por causa dela. Elizete morreu em 1990, vítima de um câncer no estômago.

:: Isaurinha Garcia

“Quando o carteiro chegou/E o meu nome gritou/Com uma carta na mão/Ante surpresa tão rude/ Não sei como pude chegar ao portão” Mensagem (Aldo Cabral e Cícero Nunes)

Conhecida por sua postura adiantada para o seu tempo, falava palavrões, bebia, fumava e amava apenas pelo prazer de se sentir desejada. A carreira começou ainda criança, quando cantava de mesa em mesa no bar do pai. As músicas que interpretava eram marcadas pelo forte sotaque italiano do Brás, onde nasceu.

Um dos episódios famosos da cantora foi a briga com a sua amiga Dalva de Oliveira. Sempre que ia ao Rio, ficava hospedada na casa de Dalva e Herivelto. Um dia, a irmã de Dalva a flagrou com Herivelto na cama. Isaurinha teve muitos namorados e se casou com Walter Wanderley. O ciúme da cantora e o alcoolismo do marido resultaram em brigas, agressões e até em uma tentativa de suicídio. Sete anos depois de se conhecerem, Walter trocou Isaurinha por Claudette Soares. A cantora morreu em 1993, de insuficiências cardíaca e renal.

:: Inezita Barroso

“Co’a marvada da pinga é que eu me atrapaio/Eu entro na venda e já dou meu taio/Pego no copo e dali num saio/Ali mesmo eu bebo ali mesmo eu caio/Só pra carregá é que eu dô trabaio, oi lá!” Moda da pinga (Raul Torres e Laureano)

Inezita Barroso é a única das divas do rádio que ainda está em atividade. Há 30 anos apresenta o programa Viola Minha Viola, na TV Cultura de São Paulo. Além de cantora, é uma estudiosa da música popular brasileira e dos mais diversos ritmos oriundos das manifestações culturais nacionais. Mais do que profunda conhecedora da música de raiz, Inezita é uma defensora ferrenha de toda a cultura brasileira. Inês Madalena Aranha de Lima começou a cantar e a estudar violão aos sete anos.

Aos 22, passou a encarar a música como uma profissão e se casou com o advogado Adolfo Cabral Barroso. Em 1950, cantou pela primeira vez na Rádio Bandeirante, levada pelo compositor Evaldo Rui. Nos anos 1960, gravou 40 discos 78 rpm e seis LPs. Além disso, participou de vários filmes e programas de televisão. A carreira de Inezita é marcada por altos e baixos. As oscilações dependem do interesse ? ou falta dele ? pela música de raiz.

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