Lugar de mulher é em delegacia

Cresce o número de policiais do sexo feminino em postos de comando

Elisa Ferreira de Souza, de São Francisco de Paula
Elisa Ferreira de Souza, de São Francisco de Paula Foto: Daniel Marenco

Em um dia de 2006, Nadine Tagliari Farias Anflor recebeu um homem no balcão de uma delegacia da Polícia Civil da Grande Porto Alegre. Concluído o atendimento, ele agradeceu a atenção e pediu: – Agora, por favor, quero falar com o delegado. – Eu sou a delegada – esclareceu Nadine, hoje com 33 anos.

Incrédulo, o cidadão revelou então que acreditava estar lidando com uma estagiária. A cena vivida pela policial revela que o Rio Grande do Sul ainda está se acostumando com uma novidade nas delegacias: a presença cada vez maior de mulheres no comando. Ontem, cerca de 50 das 89 titulares de delegacias gaúchas participaram em Porto Alegre do 1º Encontro de Delegadas de Polícia, com o objetivo de unir as profissionais da lei e trocar experiências sobre as particularidades de ser mulher e delegada.

– Quem lida com a violência se torna mais endurecido. Trouxemos um psiquiatra e uma médica para tratar disso. A gente tem de voltar para casa e ser capaz de outro sentimento – explicou a delegada Sílvia Coccaro de Souza, coordenadora do evento.

No Estado, as mulheres já são 18% do total de delegados. Em 1991, eram apenas 15 (12%). A tendência é a proporção aumentar. Na última turma formada pela Academia de Polícia, no ano passado, elas já eram maioria: 17 contra 16. Umas das mais antigas é Aurea Regina Hoeppel, 54 anos, desde 1992 no cargo. Ela afirma que hoje as dificuldades são bem menores.

– Antes a mulher era um pouco mais estigmatizada, no sentido de promoções e cargos. Mas ainda somos mais cobradas e visadas. É como mulher na direção. Qualquer coisa, estão dizendo: “Tinha de ser mulher”.

Com menos de um ano como delegada, Elisa Ferreira de Souza, 29 anos, titular da DP de São Francisco de Paula, acredita que o fato de ser mulher tem ajudado a deixar as pessoas mais confortáveis na hora dos depoimentos – especialmente outras mulheres. Em casos de violência doméstica, por exemplo, que envolvem falar de situações embaraçosas, Elisa recomendou ao plantonistas a encaminhar para ela as ocorrências envolvendo mulheres.

– Sinto que as pessoas se sentem mais confortáveis, porque a mulher é mais compreensiva. Batem na porta e vêm falar comigo – conta.

Nadine, titular da Delegacia da Mulher de Porto Alegre, acredita que uma vantagem da feminilização da função é as mulheres serem mais sensíveis e detalhistas. Em contrapartida, elas enfrentam algumas dificuldades. Nadine aponta uma maior suscetibilidade ao impacto emocional gerado pelo contato com a violência. E também revela que muitas colegas se queixam de que os homens não se aproximam para galanteios, por receio. Casada, ela não teve problema nesse particular, apesar de ter de estar 24 horas disponível e muitas vezes ter de sair de casa no meio da noite para alguma operação.

– É uma vida louca. Foi por isso que ainda não tive filho. Quero ter, mas até agora não deu. É muito difícil conciliar.

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