Luis Fernando Verissimo: Metamorfoses

Coluna publicada em 30/11/08. Luis Fernando Verissimo está em férias e volta em 22/11

Foto: Zé Paulo Cardeal, TV Globo

Vladimir Nabokov era um lepidopterólogo, palavra que lembra uma borboleta passando. Como romancista e crítico, também gostava de captar espécimes de escrita e alfinetar seu sentido exato, como insetos num estojo, para admirá-los.

As duas paixões o levaram a tentar identificar em que tipo de inseto Kafka tinha, afinal, transformado Gregor Samsa, em A Metamorfose. Na história do Kafka, um dia Gregor Samsa acorda de um sono inquietante e se vê transformado num monstruoso… o que, exatamente?

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Convencionou-se que o desafortunado Gregor acordou transformado numa barata. Nabokov concluiu que o inseto era um grande besouro e estranhou que Kafka ignorasse que os besouros têm asas. Se o inseto do Kafka pudesse sair voando, a história teria outro sentido. Ou mais um sentido, além de todas as outras interpretações dadas à obscura alegoria. Nabokov dedica a sua conjetura sobre as asas (está na coleção de palestras sobre literatura que fez antes de ficar famoso com a publicação de Lolita) a todas as pessoas que têm asas, mas não sabem. Entre as muitas interpretações de A Metamorfose, a que Nabokov rejeita com mais desdém é a freudiana, segundo a qual a origem da história é a relação difícil de Kafka com seu pai, e seu sentimento de culpa. Freud era uma das principais antipatias de Nabokov. E elas não eram powucas.

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Metamorfoses atrás de interpretações, freudianas ou não, existem desde antes de Ovídio, na mitologia e na literatura. Num livro sobre o tema – chamado Fantastic Metamorphoses, Other Worlds, não sei se foi traduzido – Marina Warner descreve, por exemplo, a transformação sofrida pela palavra e o conceito de “zumbi” através dos anos. Segundo Warner, “zombie” apareceu em inglês pela primeira vez numa História do Brasil em três volumes escrita por Robert Southey e publicada na Inglaterra entre 1810 e 1819. Southey relata a revolta de escravos e índios contra os colonizadores, liderados por “Zombi”, que identificam com um Deus angolano e que acaba barbaramente sacrificado no fim da revolta. Depois da derrota do “Zombi” descrito por Southey, que inspirou protestos e poemas na Europa, ganhou corpo a versão oficial de que “Zumbi” era o nome do Diabo na língua dos africanos, o primeiro passo para transformar o mártir não em herói venerável mas em assombração.

De líder libertário de pessoas que preferiram morrer a ser escravos o nome foi lentamente se metamorfoseando até significar um corpo vazio, sem emoção ou discernimento, a carcaça do que fora um dia. O zumbi de agora é o zumbi de antes, vencido e eviscerado.

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Na sua palestra sobre A Metamorfose do Kafka, Nabokov não propõe nenhuma interpretação, pelo menos nenhuma com uma inegável marca pessoal. Nota certas reincidências no texto – como o número três (as três portas do quarto de Gregor, os três membros da família mais três empregados, os três hospedes com três barbas) – mas recomenda que não se dê muita importância à coincidência, que é mais técnica do que simbólica. A fantasia de Kafka tinha sua lógica, e o que pode ser mais lógico do que o velho trio, tese, antítese e síntese? Acima de tudo se deveria evitar qualquer mito proposto por seguidores do “feiticeiro de Viena”, que era como ele chamava o Freud.

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Para Nabokov, interpretações além da realidade do texto eram desnecessárias. Afinal, nós todos já tivemos a sensação de acordar estranhamente, como Gregor Samsa. “Acordar como um inseto não é muito diferente do que acordar como Napoleão ou George Washington”, diz Nabokov. E conta: “Conheci um homem que acordou como o Imperador do Brasil”.

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