Luto compartilhado: como a Internet tornou-se um ambiente para a discussão da morte

O que há na web sobre velórios, testamentos virtuais e homenagens póstumas

Internautas usam redes sociais e comunidades virtuais para aliviar o sofrimento
Internautas usam redes sociais e comunidades virtuais para aliviar o sofrimento Foto: Stock Photos, Divulgação

As redes sociais não trouxeram apenas maior interatividade entre aqueles que estão distantes fisicamente. Perfis no Orkut, Facebook, Twitter e afins estão tão íntimos do dia a dia que se tornaram refúgios para o luto trazido pela distância da morte. E, com eles, as formas de lidar com essa dor também se transformaram. Após a morte, os perfis dessas pessoas, bem como os blogs, fotologs e outros instrumentos da web que visam a interação, tornam-se espécies de mausoléus nos quais aqueles que continuam vivos podem externar a saudade e, em alguns casos, protestar contra as injustiças das quais os falecidos foram vítimas.

Não existe uma estimativa sobre quantos perfis de pessoas mortas permanecem na rede. Muitos estão reunidos em comunidades. Várias delas estão no Orkut, que é a rede social com o maior número de brasileiros (26 milhões, de acordo com dados recentes do Ibope). Nessas comunidades e nos perfis dos que já que morreram, mensagens de apoio são postadas diariamente. A Velórios Virtuais, por exemplo, surgiu a partir de um serviço que algumas empresas funerárias oferecem: a transmissão de velórios via webcam para os parentes (e curiosos, é verdade) que não podem comparecer. As cenas são transmitidas pelo site da empresa, mas no Orkut os participantes avisam quando há um velório ocorrendo e podem comentar sobre o momento fúnebre. Outro exemplo é a Se eu morrer me enterre na PGM, numa referência a Profiles de Gente Morta (PGM), possivelmente a maior comunidade, com mais de 73 mil integrantes. O objetivo está estampado no nome: pesquisar perfis de usuários que já morreram.

Os chamados “rastros virtuais” deixados por esses perfis se tornam um banco de dados, pelo qual conhecidos e desconhecidos dos falecidos podem discutir sobre a morte dos que estão na comunidade e sobre as dificuldades de enfrentá-la. Para quem acha que só a morbidez pura e simples justifica o ingresso dos participantes, é bom salientar que existe outro lado importante nessa história.

– Minha filha foi morta pelo namorado em novembro de 2002, em Paraty (RJ). Seu corpo foi encontrado em abril de 2004 e ele sumiu no mundo. Depois de um tempo, uma pessoa da comunidade conseguiu encontrar o rapaz na Espanha, forneceu o endereço e o telefone. Eu passei para a polícia e ele foi preso lá – exemplifica a artista plástica Maria José Coppola, 48 anos.

Sua filha, Thays Coppola Rupp, sumiu na cidade fluminense e o principal suspeito foi encontrado por conta do esforço da mãe e com ajuda dos participantes de comunidades como a PGM.

Seja para fazer justiça, prestar homenagens ou satisfazer uma curiosidade mórbida, a rede estabeleceu uma conexão entre morte e vida que vai além da visita ao cemitério.

– A internet constitui uma importante ferramenta de informação sobre o processo da morte e do morrer, desde que não desperte apenas a curiosidade existente em todos nós. Se por um lado a morte pode ser banalizada em alguns sites, por outro pode constituir uma via de expressão da dor da perda de alguém querido – garante a psicóloga Célia Maria Ferreira da Silva Teixeira, que é doutora na área e coordenadora do Programa de Estudos e Prevenção ao Suicídio e Atendimento a Pacientes com Tentativa de Suicídio (Pats) da Universidade Federal de Goiás (UFGO).

Como lidar com o luto

O impacto da perda acompanha o homem na sua trajetória de vida. O luto é, então, a resposta característica a essas perdas e exige mudanças psicológicas.

– A primeira é reconhecer e aceitar a realidade da morte: ela ocorreu e a relação acabou; a segunda é experimentar e lidar com todas as emoções e problemas que decorrem da perda – explica a psicóloga Célia Ferreira.

Para trabalhar com essas emoções, há que se criar vínculos substitutos e a internet pode vir a ser um deles. Contudo, dependendo do perfil psicológico da pessoa, pode não ser apenas reconfortante.

– Manter-se vinculado às redes virtuais pode tornar crônicas algumas reações, com o risco de ser o caminho para a instalação de um luto problemático ou patológico – alerta.

Veja algumas condutas que podem facilitar o processo de luto:

:: Procurar se comunicar com pessoas em que pode confiar, compartilhando sentimentos decorrentes da perda, como saudade, tristeza, dor, vazio, desespero.

:: Evitar se isolar, pois a solidão em caso de luto aumenta a dor da separação do ente querido.

:: Não sentir vergonha de dizer a pessoas de seu círculo de amizades que está sofrendo muito por causa da perda.

:: Procurar a ajuda de amigos e, se necessário, de profissionais especializados no atendimento de pessoas enlutadas de forma a evitar a instalação de um luto complicado ou patológico, bem como o aparecimento de grande ansiedade, de doenças psicossomáticas, de depressão e até do desejo de morte.

Os velórios virtuais

Não há um meio correto ou menos doloroso de vivenciar o luto. Como parte da vida, ele deve ser entendido como necessário.

– Há métodos e intervenções que permitem a promoção do processo de luto: fazer visitas ao cemitério, escrever cartas, olhar antigas fotografias, conversar sobre a perda, buscar apoio de entidades religiosas, além do uso de rituais terapêuticos. Cada pessoa vive e processa suas perdas de forma diferente – afirma a psicóloga Célia Maria Ferreira da Silva Teixeira, da Universidade Federal de Goiás (UFGO).

A internet é mais uma dessas diferenças nesse momento tão singular.

Entrevista: Maria José Coppola

– O que a motivou a entrar na comunidade Profile de Gente Morta?
– Estou na comunidade desde que ela tinha 400 membros, por volta de 2004, antes de encontrarem o corpo de minha filha (Thays, na foto, com a Maria José). Comecei a divulgar que estava procurando o rapaz que matou minha filha. Lá, conheci um moço que fez uma comunidade para minha filha e começou a me ajudar a divulgar o caso dela. Ela foi morta pelo namorado em novembro de 2002, em Paraty (RJ). Seu corpo foi encontrado em abril de 2004 e ele sumiu no mundo. Depois de um tempo, uma pessoa da comunidade que participo conseguiu encontrar o rapaz na Espanha, forneceu o endereço e o telefone, e, por isso, ele foi preso.

– Já teve algum conhecido que foi “velado” numa comunidade? Como foi a sensação?
– Sim, uma moça chamada Nathalia, que era minha amiga e minha “filha” da comunidade PGM, que faleceu num acidente de ônibus. Um amigo em comum me avisou e quase tive um troço pela notícia, chorei muito. Não me importou de ela estar na comunidade, porque esse é o objetivo, a morte dela é que me importou. Outras pessoas que eu conheci tambem já foram postadas lá e se algo me acontecer não me importo de ser postada. O que realmente chateia são os julgamentos: era linda, tão jovem, era pobre, marginal, procurou a morte, não tinha Deus, por isso se matou Esses comentários não tem razão de ser.

– Como participante, acredita que as discussões podem ajudar aqueles que perderam alguém querido?
– Eu ajudo muito apenas quem pede ajuda, aprendi isso a duras penas. Já ajudei uma moça que pensava em se matar e hoje somos amigas. Também ajudei várias mães que procuram justiça, indicando endereços e como entrar em contato com autoridades, programas de TV, etc.

– A internet ajuda ou atrapalha no momento de lidar com a morte?
– Ajuda. Pais e mães se encontram e se ajudam, tenho muitos no meu perfil. Perdoar quem matou minha filha é outra coisa, ainda não cheguei a esse grau de superação. Já passei por muitas fases e hoje penso diferente de tempos atrás e acho isso muito importante. Abrir os olhos e não ficar olhando só seu umbigo. Lidar com a morte passa por muitas fases e enterrar um filho é quase impossível de se lidar. Perdi um irmão aos 18 anos, ele com 28, em um acidente com arma de fogo. Por conta disso, meu pai faleceu 45 dias depois, de tristeza. Perdi meu marido, minha mãe, minha filha, amigos, amigas e assim vou seguindo minha vida. Hoje, estou mais tranquila em relação à morte de minha filha. Minha família sempre foi espírita e consegui paz voltando a frequentar minha religião.

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