Mãe de Andrucha Waddington lança biografia e fala de campos de concentração

Aos 77 anos, dona Irene lança "Adeus, Stalin" com suas memórias de infância

Dona Irene em seu consultório, instalado no apartamento onde mora, no Flamengo
Dona Irene em seu consultório, instalado no apartamento onde mora, no Flamengo Foto: Agência O Globo

? Dona Irene está esperando pelo senhor ? informa, solene, o porteiro do prédio da Avenida Rui Barbosa, quase Oswaldo Cruz, no Flamengo.

Para quem acabou de ler o impressionante relato sobre a infância e a adolescência de Irene Popow, ucraniana de 77 anos que sofreu horrores durante a Segunda Guerra Mundial, esse “dona” soa pomposo. Mas, como se trata de uma “senhora história”, também soa natural. É que em seu livro “Adeus, Stalin!”, que será lançado no dia 15 de março na Travessa do Shopping Leblon, dona Irene conta agruras terríveis de uma maneira direta, com pieguice zero, bem como zero de autopiedade.

O livro acompanha seis anos na vida da família Popow em sua peregrinação por campos de concentração numa Europa arrasada e caótica. O relato termina com a chegada dos Popow ao Rio, cidade pela qual dona Irene se apaixonou e onde criou os filhos ? dos quais o mais novo é o cineasta Andrucha Waddington, hoje com 40 anos.

A sala aconchegante, em forma de L, tem vista para a Praia do Flamengo. Da varanda, vê-se a Baía de Guanabara em todo o seu esplendor. Ao lado de uma cristaleira alta, fica o que dona Irene chama de “cantinho russo”: ícones em prata retratam santos dispostos em torno de uma pequena lamparina de vidro cor de âmbar na qual brilha uma vela eternamente acesa. Um lenço típico fica sob a lamparina: é para dar as boas vindas aos visitantes, costume antigo. Numa prateleira, um grande samovar dourado do século XIX chama a atenção de quem chega.

Dona Irene oferece água, suco e café. Chama o repórter de “Jeff”, o que angaria, de cara, sua irrestrita simpatia. Acomoda-se numa poltrona e se põe a falar:

? Quem já leu o livro se espanta com a minha memória. Na verdade, quem passou pelo que nós passamos não esquece. É muito diferente de quem nasce, cresce, vai à escola, sempre no mesmo lugar. Os dias são todos iguais, não deixam marcas. Agora, pergunte, daqui a 20 anos, sobre as lembranças das crianças que enfrentaram os desabamentos na região serrana. Duvido que elas não sejam capazes de lembrar detalhes do que viveram.

Os detalhes, por sinal, estão em todas as 228 páginas de “Adeus, Stalin!”. Da fuga da creche, aos 3 anos, em 1936, à volta à Rússia, em 1992, depois de mais de cinco décadas de Brasil. Das “refeições” feitas nos campos de concentração à sensação de se estar numa trincheira durante um bombardeio. Da disposição de cômodos e móveis nas casas em que morou em sua Stálino natal ao cargueiro “de quinta categoria” que trouxe os Popow ao Brasil, em 1949, passando pela visão do Vesúvio e das águas azul-cobalto do Mediterrâneo.

Uma das lembranças mais marcantes ? e assustadoras ? é a do momento em que, num vagão de trem abarrotado, a pequena Irene sentiu vontade de… fazer xixi. A família seguia para mais um campo de concentração e o trem havia parado. A menina foi colocada do lado de fora, coberto por uma espessa camada de neve, para se aliviar. Quando o trem começou a avançar para dentro da noite, ela foi pega de surpresa, literalmente com as calças na mão. O trem rodava, ganhava velocidade, e nada de Irene conseguir voltar, apesar das mãos estendidas para puxá-la para dentro: a neve fofa tolhia os movimentos. Acabou resgatada no último vagão, longe da família, quase catatônica.

Ela foi babá e faxineira no Rio

A neve tem presença marcante nas memórias de dona Irene. Houve o dia em que a casa da família ficou coberta pelo gelo. E houve o dia em que Irene e a mãe tentavam arrastar um trenó com a pequena Ludmila (irmã de dona Irene, quatro anos mais nova, a futura vereadora Ludmila Mayrink) doente em cima, com o carrinho atolando.

A lembrança da chegada ao Rio de Janeiro não está no livro. É narrada ao vivo, enquanto o sol se põe sobre a Baía de Guanabara.

? A gente não tinha noção da topografia do Rio. Quando o navio entrou aqui, corremos para o convés. O Recreio e a Barra eram uma faixa de areia. Depois, surgiu a Avenida Niemeyer e, em seguida, o Leblon e Ipanema. Vimos uma cidade linda, acolhedora, com prédios baixinhos de quatro andares. Quando o navio fez a curva no Arpoador e vimos Copacabana, com prédios de 12 andares, pensamos que era outra cidade! No navio, acreditamos que o Rio ficava colado a uma outra cidade ? diverte-se. ? Quando mamãe pisou na Ilha das Flores, disse, simplesmente: “Paraíso. Vou morrer aqui”. Dito e feito.

As narrativas se sucedem com um entusiasmo que faz o interlocutor acreditar que são contadas pela primeira vez.

? Ouvimos essas histórias desde que éramos crianças. Elas tinham que ser contadas ? opina Andrucha. ? Eu e meus irmãos botamos a maior pilha para ela escrevê-las, mas minha mãe tinha uma certa timidez. Acho que escrever deu uma alegria muito grande e mamãe desencantou. Ela te contou que escreve à mão e só depois passa para o computador? Acho que coordena melhor o raciocínio assim.

Não, não havia contado. Mas entrou para o rol de mais uma história saborosa de dona Irene. Saborosa como o livro, que encantou seus editores.

? O livro nos surpreendeu de imediato. Que história, a daquela menina, e que autora inesperada… Ela conseguiu recontar sua história sem ressentimento, com uma sinceridade comovente ? elogia Isa Pessôa, diretora da Editora Objetiva, que apostou no projeto. ? Os originais foram preparados impiedosamente, com um foco principal, que acredito tenha contribuído para dar consistência e aperfeiçoar a engenharia do texto sem perder o calor do relato.

Ao vivo, dona Irene tem o mesmo calor demonstrado nas páginas. E muito humor, especialmente quando fala das profissões que exerceu:

? Fui caixeira-viajante no campo de concentração. Depois, babá, professora de línguas, faxineira, tradutora, terapeuta, agente de turismo e, agora, escritora.

? Faxineira?

? Faxineira. Quando cheguei ao Rio, trabalhei como atendente num consultório médico. Ganhava mil cruzeiros por três dias por semana, meio expediente. Para dobrar a renda, trabalhava como babá para uma família tcheca que conhecemos no navio. Aos poucos, eles foram me pedindo para lavar uma louça, passar uma roupa, encerar um assoalho… Virei faxineira! ? diz, rindo, dona Irene.

A psicologia chegou tarde em sua vida ? mas veio com o mesmo vigor com que se entregou a todas as outras atividades:

? As crianças do primeiro e do segundo casamento estavam crescendo. Pensei: o que é mais importante na minha vida, cuidar de casa ou trabalhar? Como eu não tinha formação, concluí ginásio e segundo grau em poucos meses. Fiz vestibular para Psicologia na Santa Úrsula, pois era a única faculdade que me permitia estudar e cuidar de crianças. Passei em 11 lugar e me formei em 1978. Minha turma de faculdade vai ao lançamento do livro, aliás.

O telefone toca na cozinha. A empregada interrompe a entrevista:

? É dona Fernanda.

“Dona Fernanda”, no caso, é Fernanda Montenegro, mãe de Fernandinha Torres, a nora.

? Ah, querida, que pena que você não vai poder ir! Mas diz para todos comparecerem, para fazer número! Sim, eles estão lindos na foto… Nossos netos, Fernanda! Nossos netos.

Alegre, espontânea e expansiva, dona Irene deve contar com uma legião de amigos na noite de autógrafos. Pediu autorização para levar duas esculturas feitas por sua mãe, Valentina, nos anos 70. E vai usar o perfume Bela Moscou que lembra a infância. Planos para o futuro?

? Estou escrevendo o próximo. Deve chamar-se “Olá, Getúlio!” e vai tratar da nossa vida no Brasil. Vai falar de quando fui chamada ao Itamaraty e fiquei com medo de ser deportada, mas, na verdade, fui conversar com o Guimarães Rosa. Estou tranquila, se der para publicar, ótimo. Se não der, ótimo também. Não tenho o menor apego a nada.

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