Mãe e filho: Para saciar a “fome emocional”

Foto: Mauro Vieira

A psicoterapeuta familiar argentina Laura Gutman é especialista em atendimento de casais e de mães de crianças pequenas. Em seu último livro, La Revolución de las Madres, el Desafío de Nutrir a Nuestros Hijos (A Revolução das Mães, o Desafio de Nutrir Nossos Filhos, em tradução livre), ela fala sobre a realidade emocional das mulheres que se tornam mães e sobre o universo dos bebês.

– Nutrir emocionalmente o outro e, sobretudo, nutrir os filhos, significa nos despojarmos das necessidades e desejos próprios – diz Laura.

Para a especialista, o mundo no qual a mulher enfrenta a maternidade cada dia mais tarde – em favor de um crescimento profissional e uma atividade social intensa – não está combinando muito bem com as mulheres. É aí que surge a abundância da chamada “fome emocional”.

Segundo Laura, muitas mães passam o dia medindo “o que é que obterão”, mas quase nunca prestam atenção “ao que oferecem” aos filhos. Confira abaixo alguns conceitos da psicoterapeuta.

A nova maternidade

“A maternidade, atualmente, perdeu o valor social que dava à mulher e, no entanto, se avalia o espaço social que ela foi ganhando: atividade profissional, viagens, liberdade. A verdadeira revolução acontece no âmbito das emoções, do carinho, do afeto. Se as mães encontrassem o apoio necessário na criação dos filhos, a criança cresceria mais segura, mais em seu eixo e com maior capacidade para dar. Um mundo mais amável se constrói a partir de um lar. Mas, no entanto, a tarefa realizada nesse âmbito não está sendo valorizada.”

Pouco envolvimento

“A criação de um filho envolve muito trabalho. Com o nascimento de uma criança há uma energia feminina de entrega, que nos homens não ocorre de maneira natural, apenas em alguns casos. A família do tipo nuclear está desaparecendo, aquela na qual os avós, tios e primos também se ocupavam do cuidado e das necessidades da criança. Estamos sozinhos demais e é preciso combater essa circunstância.”

Comida e relações

“A alimentação é uma janela por onde podemos olhar para nosso interior. Todos temos uma relação complicada com a comida, daí surgem problemas como anorexia, bulimia e sobrepeso. São as doenças do futuro. O alimento representa a mãe e nossa relação com ela. Quem sofre de anorexia ganha a batalha, o controle sobre o alimento. No caso dos bulímicos, o alimento que é o mais forte.”

Como nutrir os filhos

“O melhor que uma criança pode receber é que seus pais se questionem a si mesmos. A pergunta é “o que tenho de fazer para poder dar mais ao meu filho?” Não se deve levar a maternidade como um estado ao qual estamos submetidos. O fato de perguntarmos a nós mesmos isso abre novas possibilidades, quanto mais nos perguntamos melhor identificaremos nossos medos.”

Necessidades da criança

“A criança precisa de pais com uma grande abertura emocional, que não estejam condicionados aos comentários externos e respondam às necessidades da criança. Um bebê pede o peito e alguém diz “não, não o toque”.

Prestamos muita atenção nas opiniões dos outros e não escutamos a criança, que talvez precise mamar de novo. Ninguém pede o que não precisa. Devemos permanecer abertos à criança e fechados aos demais. Isso é fazer a revolução, e provocar que a criança cresça sob o amparo do amor, assim se conseguem indivíduos generosos com os demais, adultos que não pensarão apenas em si mesmos.

Se a criança estiver satisfeita, ela é muito generosa em seus afetos e em criar bem-estar em seu entorno. As crianças amadas e amparadas são pacientes, compreensivas e respeitosas. Se uma criança reivindica atenção e afeto dos pais, e não os recebe, desviará a necessidade para outro lado, como consumir chocolate ou guloseimas de maneira compulsiva. A criança marca seus limites quando está satisfeita em seus afetos, em sua alimentação, em seu desejo de estar nos braços da mãe.”

Medos e frustrações

As pessoas devem ser honestas e discernir onde estão suas lacunas emocionais. Temos um “eu enganado” que nasce de tomar como próprias as opiniões de outros e que condicionam nosso mundo. Se um casal se separa e a mãe insistentemente diz: “Seu pai é um desgraçado”, a criança tomará essa opinião como própria, quando ela é de sua mãe. Uma coisa é a vivência e outra o discurso do “eu enganado”. Desarmar este último nasce da intenção pessoal de nos conhecermos mais.

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