Mães com dificuldade de se separar do bebê após licença-maternidade precisam de cuidados

Motivos do apego devem ser compreendidos

Depois de ficar seis meses fora do local de trabalho, Rejane pediu mais um mês de férias para tentar adaptar o filho, Lucas, na creche
Depois de ficar seis meses fora do local de trabalho, Rejane pediu mais um mês de férias para tentar adaptar o filho, Lucas, na creche Foto: Diego Vara

Faltavam duas semanas para encerrar a licença-maternidade de seis meses. Rejane Vieira Schmitt arrumou a bolsa do filho, Lucas, e o vestiu com uma roupa bem confortável.

Na entrada da creche, olhos arregalados surgiram no rosto do bebê diante de um mundo desconhecido. A primeira visita era um teste. O menino deveria ficar algumas horas com as orientadoras para se adaptar ao local que o receberia quando a mamãe voltasse à rotina de trabalho. Rejane ficaria afastada, em um andar abaixo do berçário para evitar a saudade. Grande engano.

Na primeira tarde de adaptação, o bebê se finou de tanto chorar. E assim foram as semanas seguintes. Eles não conseguem se desgrudar.

– Tive de pedir férias. Ficarei mais um mês em casa, tentando fazer nossa separação – revela a policial militar.

Mais do que um manifesto do pequeno, as lágrimas estão sendo uma forma de teste de resistência para a mãe. Quando ele chora, Rejane se desmancha. E quando se afasta dele, se sente culpada.

– É um sentimento de culpa. Desde os cinco meses, estou modificando a alimentação dele já pensando na creche. Em casa, ele não estranha as tias e as avós, e eu pensava que seria tranquilo adaptá-lo. Mas vê-lo chorar dá uma pena – diz.

Além de ser um menino repleto de carinho e proteção, o bebê sempre representou uma conquista para o casal. Por muito tempo, Rejane pensou que não teria filhos de forma natural. Chegou a receber a notícia de que teria apenas 1% de chance de uma gravidez normal. Então, Lucas se transformou em um verdadeiro presente, difícil de ficar longe.

A dificuldade de separação que a policial militar enfrenta é frequente entre as mães e filhos, mas, antes de encontrar soluções milagrosas para esse distanciamento, é preciso entender o porquê de a mãe não conseguir ficar longe, diz a psicóloga clínica Cláudia Simone Silveira dos Santos, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Nesse processo, é preciso conhecer o momento em que a criança foi concebida, a história de ambos e como a mãe está tocando sua vida – afinal, é ela quem terá as rédeas da separação, e não o filho.

– Após o nascimento, começa a relação entre a mãe e a criança de forma intensa. As experiências e vivências da mãe são colocadas nessa relação, o que em caso de vivências negativas pode gerar ansiedade, excessivo envolvimento ou preocupação em relação à criança. Esse momento pode ser difícil, mas é preciso que a mãe tenha confiança e estabeleça um vínculo seguro – explica o pediatra Ricardo Halpern, especialista em desenvolvimento e comportamento e presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria.

O ideal para conseguir voltar à rotina de trabalho é fazer o chamado apego seguro, uma série de ações que exige tempo, paciência e muito amor. Assim, a mãe adquire confiança, sabe que pode contar com a ajuda da creche, dos parentes ou dos amigos para cuidar da criança.

Quando a separação é dura para mães e filhos, ou até mesmo não acontece, distúrbios de vínculo podem aparecer. Aí, a insegurança é passada para a criança, que poderá ficar ansiosa diante de situações de separação ou não conseguir se adaptar a ambientes longe da mãe. Se não tratada, a ansiedade pode ficar generalizada e se transformar em problemas de adaptação na escola e no convívio em geral.

Mãe não precisa ser perfeita

Durante nove meses, mãe e filho estão ligados intensamente. Nas 24 horas do dia, somente a mulher é capaz de sentir os movimentos da criança e de ter a sensação de que ela é, sim, sua grande protetora. É uma relação simbiótica, mas que, no futuro, deve ser modificada.

Com o nascimento do bebê, a vida dos dois muda bruscamente. Ele ainda necessita dela, mas cada um precisa iniciar um processo de independência. É aí que mora a dificuldade.

– Pode haver situações de ciúmes e até de rivalidade com o marido ou cuidadores. A mulher pode pensar que apenas ela é capaz de cuidar da criança e, aos poucos, pode correr o risco de ficar dependente do bebê, o que será ruim para ele também – alerta Cláudia Simone Silveira dos Santos, psicóloga clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

A licença-maternidade é o momento em que existe o fortalecimento do vínculo entre mãe e filho, permitindo o desenvolvimento emocional da criança e a confiança da mãe nas suas capacidades como tal. Ela pode, com tranquilidade, exercitar essa nova função com o tempo necessário, sem a pressão de ter que voltar ao trabalho. A cada dia que passa, a mulher vai adquirindo mais segurança e, consequentemente, transmitindo esse sentimento para o bebê, o que certamente permite a formação de um apego seguro.

A extensão da licença-maternidade, de quatro para seis meses, permite que a relação mãe -bebê possa se consolidar e oferecer uma maior garantia de que tudo estará bem e tranquilo no momento da mãe voltar ao trabalho. Para retomar a vida normal sem traumas, trabalhando, cuidando do filho e vivendo uma vida em família, a mulher não precisa buscar a perfeição para o cuidado do filho, mas deve ter a certeza que está fazendo o seu melhor e não pode estar incondicionalmente 24 horas por dia ao lado dele. Se o vinculo e o apego forem seguros, a criança vai saber tolerar a frustração de não ter a mãe só para ele, afirma o pediatra Ricardo Halpern, especialista em desenvolvimento e comportamento e presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria.

– O período da licença-maternidade é adequado para o aleitamento materno, para o afeto e para que a mãe consiga introduzir outras pessoas na relação com o bebê, sem que isso represente ameaças ou perda de carinho pelo filho. A separação deve ser gradual para que a criança possa tolerar falta da mãe e reconhecer que esta é a realidade – explica o pediatra.

Retorno exige motivação

Nem salário, nem status social ou promoção no emprego. Para voltar ao mercado de trabalho após a licença-maternidade, a mulher precisa estar feliz consigo e com a própria situação.

O bebê não pode ser a única fonte de gratificação da mulher, e tanto o trabalho quanto as relações com os amigos e com o companheiro devem ser motivadores da difícil separação, afirma a psicóloga Bárbara Haro dos Santos, psicóloga, psicopedagoga e terapeuta da família.

– Voltando a trabalhar, a mulher vai resgatar também a autoestima, aprenderá a se reorganizar e a retomar a rotina. Além disso, passará a priorizar o tempo que tem livre, oferecendo qualidade na sua relação com o filho – diz.

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