Mafalda, uma personagem atemporal

Uma das personagens mais queridas dos quadrinhos gera polêmica sobre sua idade

Mafalda acaba de realizar o sonho de milhares de mulheres. Completou 50 anos e, por decreto, voltou a ter 48.

Mal começaram a se multiplicar as homenagens pelo meio século de vida da mais famosa personagem do quadrinista argentino Quino, criada para uma campanha publicitária jamais divulgada em 15 de março de 1962, o autor se manifestou adiando o aniversário em dois anos: o nascimento oficial da garota preocupada com os rumos do mundo seria em 29 de setembro de 1964, quando ela apareceu pela primeira vez em uma tira.

A confusão deixa margem à pergunta: entre todas as mulheres (de carne e osso ou papel), Mafalda comemoraria a chance de protelar os emblemáticos 50 anos? Sua amiga Susanita – aquela apaixonada por si mesma e que acreditava que a conjugação do verbo amar no presente perfeito era “filhos” – com certeza adoraria a possibilidade. E Felipe? O dentuço perdido em reflexões, provavelmente precisaria de uma superdose de Nervocalm diante da incerteza do dia do próprio nascimento. Mas Mafalda…

O mais fascinante sobre a garotinha que saiu de cena em 1973, mas segue cultuada por fãs fiéis ao redor do mundo, é seu olhar agudo sobre a realidade e as pessoas. Garimpando suas tiras, entre um comentário irônico sobre o embate entre o capitalismo e o comunismo naqueles agitados anos 1960, as aspirações da classe média e temas universais como a relação pais e filhos, ela aparece refletindo sobre o passar do tempo. Ao pensar no futuro, dali a 30 anos, quando a Terra teria 7 bilhões de habitantes e ela e seus amigos a idade de seus pais, ela conclui que estariam, além de apertados, velhos. Em outro momento, pergunta quantos anos alguém precisa ter para ser velho, ao que a mãe responde que o importante é ser jovem de espírito. Então, Mafalda arremata: “E quando o espírito começa a precisar de maquiagem?”.

Mas, a despeito da certeza infantil de que qualquer idade além dos 20 é velhice, Mafalda certamente estaria agora, seja aos 48, seja aos 50, mais preocupada com os desdobramentos da Primavera Árabe ou o novo bate-boca pelo domínio das Ilhas Malvinas do que com crises etárias. A garota que ainda na pré-escola se questionava sobre os rumos do movimento feminista e, olhando as roupas passadas, a louça lavada e o chão brilhando, perguntou certa vez à mãe o que ela gostaria de ser se vivesse, é anticonvencional demais para se preocupar com idade.

Aliás, mesmo cinquentona, Mafalda, pelas artes do traço, seguirá sendo a criança que ainda hoje, quando seus leitores se aproximam ou há muito passaram dos 50, é capaz de nos desconcertar. Afinal, como ela mesma disse, entre as pequenas e as grandes questões do mundo, “a humanidade não é nada mais que um sanduíche de carne entre o céu e a terra”.

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