Mais do que luxúria, as sex shops representam um mercado sério e promissor

Veja como é o comportamento de homens e mulheres nestas lojas especializadas

Discrição, bem como a naturalidade, é imprescindível no ramo
Discrição, bem como a naturalidade, é imprescindível no ramo Foto: Artur Moser

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Sucesso de público e nem tanto de crítica, a comédia nacional De Pernas pro Ar colocou em discussão a busca feminina por autoconhecimento e prazer. Embora esbarre em clichês, a protagonista Alice, vivida por Ingrid Guimarães, é a típica mulher casada viciada em trabalho que quase não tem tempo para outras atividades. Nessa correria, ela acaba negligenciando a família e a vida sexual, que só é redescoberta depois que decide tornar-se sócia de uma sex shop. Se livrar de certos pudores e encarar sua sexualidade são mesmo essenciais para os que pretendem prosperar no ramo. Mas se engana feio quem dissocia a atividade de um negócio sério e lucrativo.

É claro que aqueles que decidem investir no setor adotam um ambiente de trabalho e um vocabulário bastante diferentes de outras profissões.

? Antes de vir trabalhar aqui (numa sex shop), não costumava falar em orgasmo e vagina. Agora falo isso com a maior naturalidade ? conta, rindo, uma vendedora que não quis ser identificada.

O anonimato, explica, nem é uma questão de pudor, mas um cuidado para preservar as histórias dos clientes. Discrição, bem como a naturalidade, é imprescindível no ramo.

? Eu nunca pergunto nada e sempre estou disposta para tirar qualquer dúvida. Por isso, estudo, faço cursos… ? revela a vendedora, senhora casada, na faixa dos 50 anos.

Para ela, o trabalho é um exercício diário, já que se considera “de outra época”, quando não havia muito espaço para falar sobre sexo.

Ramo sedutor

Depois de fazer um curso de sensualidade há mais de uma década, a empresária Vlaucia Olmi, 44 anos, virou uma espécie de consultora das amigas para assuntos ligados à autoestima. Anos mais tarde, decidiu ministrar aulas para grupos a fim de transmitir o conhecimento adquirido. Nas classes de strip-tease, pompoarismo, técnicas de sedução, entre outros, percebeu que podia ampliar sua atuação e há cerca de dois anos montou a boutique erótica InDecency, sem abandonar os cursos.

A loja tem vitrine e porta aberta para a calçada da Rua Bento Gonçalves, no Centro de Caxias do Sul. Não é escura, escondida ou decorada em tons avermelhados. Já na entrada, os clientes se deparam com um visual de estabelecimento tradicional, que em nada remete à luxúria: araras e cabides servem como suporte para lingeries e camisolas, a maioria bem refinada. Na sala de trás estão os artigos eróticos. Fantasias, vibradores, próteses de todos os tamanhos e formatos ficam expostos para que o cliente possa observar e perguntar à vontade.

? Olhando para a pessoa que entra, nunca dá para imaginar o que ela quer. Tempos atrás um senhor de idade esteve aqui e eu imaginei que ele estava perdido, ia pedir informação. Mas ele queria uma prótese. Pediu para enrolar e colocou dentro da sacola ? recorda Vlaucia.

Clientes são variados

A clientela é diversificada: de idosos a garotas recém saídas da adolescência, cada um com suas preferências. Gays e prostitutas são minoria.

? As mulheres quase sempre sabem exatamente o que procuram. Os homens ainda têm uma certa resistência, às vezes dizem que o produto é para um amigo (risos). Eles acham que sabem tudo na cama, mas na verdade são elas que estão comandando! ? avalia a atenta observadora.

Existem cuidados básicos para não expor os clientes: o nome da sacola e da nota, bem como o que aparece na fatura do cartão de crédito, não denunciam a passagem pela loja.

? Muitas gurias dizem que os pais nem podem sonhar que elas fazem compras em sex shop. Coitadas dessas mães, se soubessem… ? suspira a vendedora.

A vergonha é um dos únicos obstáculos para os curiosos, já que os preços não chegam a ser absurdos. Dá para comprar gel excitante que aquece a área onde é aplicado por cerca de R$ 15. E existem potinhos para os mais variados interesses: esquentar, gelar, com sabor, lubrificante, prolongador de ereção… Os mais pedidos, segundo Vlaucia, são os que se referem ao sexo anal. Tabu à parte, a preferência é apontada como a nova tendência entre os casais.

Há clientes que levam um kit completo, com direito a noite em motel, fantasias e acessórios. Segundo a vendedora, muitas pessoas exageram na expectativa e se frustram, porque não conseguem usar tudo de uma vez só.

? Acho que as pessoas estão com medo de se relacionar de verdade. Está tudo muito fácil ? filosofa.

Às vezes, uma pitada de conservadorismo aparece no discurso de quem trabalha no ramo. Como boa ouvinte, a vendedora não questiona ninguém, mas tem suas próprias convicções. Mãe de um rapaz jovem e solteiro, percebe que a busca pelo prazer efêmero é uma constante e acredita que a busca pelo sexo performático pode ser uma forma de sublimar a solidão:

? Tem mulher que quer um homem. Vem aqui, compra um perfume afrodisíaco e consegue uma companhia. Mas não passa disso, ela acaba ficando carente.

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