Mais um mandato para o estilo de Michelle Obama

Mulher de Barack é conhecida por seu jeito simples e sua personalidade forte

Michelle Obama
Michelle Obama Foto: Reprodução

Podem apostar que quando Michelle Obama estiver ao lado do marido na cerimônia de posse, que acontece na próxima segunda-feira, e nas várias festas e bailes que se seguirão, não estará pensando em seus críticos nem nos assessores da Casa Branca que já temeram as consequências desastrosas da sua escolha de estilistas isso porque transformou essa suposta frivolidade em capital político próprio.

Sem dúvida, seus esforços para reduzir a obesidade infantil e incutir hábitos saudáveis no padrão de vida norte-americano são mais importantes do que as roupas que veste – e podem dar seu legado como certo se ela conseguir mudanças essenciais. Oradora notável, Michelle consegue atingir todo tipo de público, independentemente de raça, idade e renda.

Estilo Michelle: de roupas simples a peças de grife

Conheça um pouco da origem modesta da primeira-dama dos EUA

Dada essa habilidade, muita gente, decepcionada com o fato de que o figurino da primeira-dama atrai mais atenção do que seus valores e liderança, torce para que o segundo mandato lhe dê mais espaço para defender temas controversos como a reforma da educação e o equilíbrio entre trabalho e a vida em família.

Há quatro anos, ela negou aos conservadores que a tacharam de “negra revoltada” o direito de achincalhá-la quando assumiu (com um prazer imenso, diga-se) as tarefas esperadas de toda primeira-dama, como moda, entretenimento e jardinagem. E o fez em seus próprios termos e não como se fosse uma cópia recauchutada de Jackie Kennedy: suas escolhas na moda são vibrantes e ecléticas, suas festas, inclusivas, e sua horta se encaixa no mantra de dieta-exercícios.

A escritora Liza Mundy, que começou a trabalhar em um livro sobre Michelle Obama durante as primárias de 2008, conta que criou um alerta do Google para a futura primeira-dama.

– Eu recebia material sobre ela todos os dias, mas eram sempre críticas – conta. – O que me impressionou foi que, na posse, só se falava sobre o que ela estava usando. O tom da conversa ficou completamente diferente.

O tempo todo se vê como a moda favoreceu Michelle. Jackie Kennedy, com toda a sua pose (aos 31 anos), considerava o guarda-roupa da Casa Branca uniforme de trabalho. Ela referia-se aos tailleurs chiques e vestidos de noite como “roupas de Estado”. Na verdade, era criticada por suas roupas caras e o cabelo bufante. Meses antes da eleição, escreveu uma carta de 10 páginas à editora de moda Diana Vreeland pedindo ajuda “para resolver o problemão que era seu guarda-roupa”.

Observar a transformação de Michelle Obama de mãe e advogada de Chicago que preferia calças largas, cardigãs e saias-lápis no sonho de qualquer estilista é fascinante, em parte por que o fenômeno aconteceu praticamente sem pressão da imprensa. Como observa Valerie Steele, diretora e curadora-chefe do Museu do Instituto de Moda e Tecnologia de NY, as roupas de Michelle não se tornaram destaque político tanto quanto sua campanha por uma alimentação saudável.

 
Ao lado do marido, Michelle veste Alexander McQueen, em jantar com o governo chinês Just Jared/Reprodução

– Por mais estranho que pareça, a moda, que historicamente tende a ser tratada com extrema desconfiança, não lhe causou nenhum problema político – afirma Valerie.

De acordo com The Obamas, livro de Jodi Kantor, repórter do New York Times, quando Michelle Obama “viu como lhe caíam as roupas exclusivas e bem produzidas, não quis saber de outra coisa”.

Logo no início, a primeira-dama deixou bem claro a seus assessores, Kantor observa, que as escolhas de seu guarda-roupa não deveriam ser questionadas.

Hoje só se consegue comentários inócuos dos estilistas que insistem em não se identificar para proteger o relacionamento comercial que mantêm com ela.

– Michelle está mais confiante – oberva um deles.

– Ela tem estilo próprio – acrescenta outro.

Um estilista que não veste Michelle observou, não sem razão (e uma dose de veneno):

– Ela usa roupas justas demais.

Como os políticos do passado, Michelle distribui o seu apoio e goza da reputação de ser uma mulher elegante que também encontra espaço em seu guarda-roupa para as peças mais acessíveis das marcas J. Crew e Target.

Tendo chegado à Casa Branca no auge da recessão, ela deu gás a estilistas independentes como Narciso Rodriguez, Prabal Gurung e Barbara Tfank, além de casas europeias como Alexander McQueen, que produziu o dramático vestido vermelho usado no jantar de Estado com os chineses.

Um estilista norte-americano que já fez peças para Michelle explicou que a primeira-dama ajudou seu negócio. Isso porque suas vendedoras podem dizer às clientes que não conhecem a grife que “a senhora Obama também usa essas roupas”.

Esse tipo de endosso vale milhões de dólares. Num estudo feito em 2010 por David Yermack, da Escola de Negócios Stern da Universidade de Nova York, descobriu-se que o valor médio do impacto econômico de uma aparição de Michelle Obama com o produto de uma empresa chega a US$ 14 milhões.


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Ainda mais surpreendente é o fato de o gasto de Michelle com roupas atrair pouca curiosidade – obviamente porque se entende que ela ajuda a economia do país. Mesmo assim, diepensa milhares de dólares em roupas e acessórios. Foi criticada por usar um modelo de tênis Lanvin de mais de US$ 500 para ir a um banco de alimentos, em 2009. Em uma época em que a economia não passa por suas melhores fases, é de se questionar por que os gastos da primeira-dama com moda não causam um furor maior.

Uma dica pode estar em sua decisão, no fim de 2008, de aceitar o convite para posar para a capa da revista Vogue. Como escreve Jodi Kantor, autor de The Obamas e repórter do New York Times, os assessores de Michelle ficaram divididos, sendo que alguns demonstraram preocupação com o fato de “uma mulher de substância” ser vista como fashionista. Ela rebateu:

– Há muitas jovens negras nesse país, e eu quero que elas vejam uma negra na capa da Vogue.

As críticas ao resultado final foram insignificantes.

Há um elemento contemporâneo que sempre foi dado como certo no entendimento de Michelle de seu papel de primeira-dama: o da cultura das celebridades e de estilo. Mas até que ponto ela tinha consciência disso em 2008, quando posou para a Vogue? É difícil saber. O que se sabe é que sua decisão de substituir a imagem de mãe e profissional competente pela de figura glamourosa foi brilhante, pois, no fim das contas, acabou por protegê-la.

Agora que a posse se aproxima novamente há de se pensar: o que mudou em seu estilo? Na verdade, pouca coisa. Ela simplificou o visual, deixando de lado os tricôs mais esquisitos e coques muito apertados. Ainda adora estampas, decotes drapeados, saias rodadas e, é claro, braços de fora. Seu melhor visual talvez seja o belo Naeem Khan que usou no jantar de Estado oferecido à Índia, embora o McQueen vermelho com que recebeu os chineses não fique muito atrás.

Apesar de todo o glamour, muita gente quer saber o que pensa Michelle Obama. Escrevendo para The Economist, em 2009, Adrian Wooldridge, que hoje é o editor da revista, lamenta que as notícias sobre ela “sejam quase todas sobre superficialidades” e que o governo não se aproveite mais de sua habilidade única de agir “como garota propaganda do trabalho árduo e das famílias estáveis”.

Recentemente, Wooldridge disse:

– Meu tom é menos crítico hoje do que quando escrevi aquele artigo porque entendo a dificuldade de combinar o papel político e o simbólico.

Apesar disso, ainda acha que a primeira-dama poderia ser uma voz importante em assuntos como igualdade de oportunidades para homens e mulheres e os desafios da jornada dupla, considerando-se os seus antecedentes.

– O mecanismo do sonho americano e o de “fazer por merecer” mudaram drasticamente nos últimos 20 anos – afirma ele. – Michelle é uma pessoa que viveu tudo isso, que veio de South Side, em Chicago, e acabou estudando em Princeton e Harvard. Teria que se manifestar. A impressão que tenho é a de que, quanto mais sofisticada ela se torna, mais se distancia de suas raízes.

Ele conclui dizendo que a primeira-dama não pode agir como uma bonequinha de porcelana.

– Uma primeira-dama meramente decorativa em pleno século 21 seria, no mínimo, estranho.

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