Mais vírus, mais perigo

Chance de transmissão do HIV sobe proporcionalmente à carga viral detectada nos fluídos corporais da pessoa infectada

Essa é a primeira vez que se consegue provar a existência de uma relação direta entre as concentrações genitais do HIV e o risco de transmissão
Essa é a primeira vez que se consegue provar a existência de uma relação direta entre as concentrações genitais do HIV e o risco de transmissão Foto: Flávio Neves

Uma pequena amostra de secreções genitais pode indicar o risco de transmissão do HIV, mesmo quando o exame de sangue não acusa a presença dos anticorpos que são ativados em contato com o vírus. No maior estudo sobre o tema, realizado com 2,5 mil pessoas de sete países africanos, pesquisadores descobriram que, quanto maior a carga viral detectada nos fluidos corporais, maior a probabilidade de uma pessoa infectada transmitir o HIV a outra. O estudo, publicado na revista especializada Science Translational Medicine, abre perspectivas para o desenvolvimento de métodos preventivos, como microbicidas e medicamentos antirretrovirais.

Apesar de a hipótese já ter sido levantada algumas vezes, essa é a primeira vez que cientistas conseguem provar a existência de uma relação direta entre as concentrações genitais do HIV e o risco de transmissão. Tanto a mucosa do colo do útero quando a do sêmen podem indicar a probabilidade de uma pessoa ser contaminada em contato com um parceiro soropositivo.

“As primeiras pesquisas sugerindo que a análise das amostras genitais poderia calcular o risco de transmissão datam do fim dos anos 1980. De lá para cá, contudo, esse é o primeiro estudo que prova que concentrações do HIV em amostras genitais realmente são capazes de prever se uma pessoa infectada passará o vírus para outra”, disse ao Correio o principal autor do estudo, Jared Baeten, professor da Universidade de Washington em Seattle, nos Estados Unidos. Segundo ele, compreender a relação entre a presença do vírus no aparelho genital e os riscos de o HIV ser transmitido para outras pessoas é fundamental para desvendar os mecanismos biológicos envolvidos na infecção durante a atividade sexual.

“Fizemos esse estudo com um grande grupo de pessoas. Trabalhamos com casais, nos quais um dos parceiros, a mulher ou o homem, tinha o HIV. Todos eles receberam instruções sobre prevenção, com um forte apelo educativo. Mesmo assim, o fato é que, em alguns casos, houve transmissão do HIV entre os parceiros”, conta Baeten. A pesquisa foi realizada em comunidades africanas localizadas em Botswana, no Quênia, em Ruanda, na África do Sul, na Tanzânia, em Uganda e na Zâmbia. Todos os participantes eram voluntários.

Durante dois anos, a equipe de Barten acompanhou os casais. Os cientistas analisaram amostras retiradas do colo do útero de 1.805 mulheres e fluidos seminais de 716 homens. Ao longo do estudo, 46 participantes do sexo feminino transmitiram o HIV ao parceiro e 32 portadores do vírus infectaram suas companheiras. “Então, associamos a concentração de HIV nas amostras genitais com o risco de transmissão e descobrimos que esse risco aumenta em razão da quantidade de vírus presente nas secreções. Quanto mais HIV nas amostras, maior foi o índice de contaminação”, explica Baeten.

O artigo sugere novas estratégias para diminuir os riscos de HIV positivos infectarem seus parceiros sexuais. “Futuros estudos sobre a redução do grau de transmissão do HIV e de outras doenças sexualmente transmissíveis poderão levar em conta substâncias que bloqueiem, no trato genital, a propagação do vírus”, exemplifica.

Tentativa de controle

Baeten estuda os fatores de risco biológico para a infecção pelo HIV como parte de sua pesquisa global sobre o controle da disseminação de doenças sexualmente transmissíveis na população. Atualmente, ele e sua equipe estão analisando estratégias para conter a epidemia de HIV entre os heterossexuais que vivem no continente africano. O cientista conta que desenvolve vários projetos, com o objetivo de encontrar os fatores que influenciam a transmissão do HIV entre sexos opostos.

“A pesquisa de Baeten revela claramente que a prevenção do vírus da imunodeficiência humana é um imperativo global, à medida que o número de pessoas vivendo com o HIV e a Aids continua crescendo. O novo trabalho também deixa clara a necessidade de maiores pesquisas que se traduzam em avanços para a saúde pública”, comenta Peter Anton, diretor do Centro de Pesquisa e Prevenção do HIV da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Ele conta que, a cada dia, mais de 7 mil casos são detectados em todo o mundo. “E esse é um número sem dúvida subestimado, já que muitas pessoas sexualmente ativas sequer sabem que estão infectadas e que podem dar origem a uma epidemia”, alerta.

O médico lembra que avanços no tratamento trouxeram benefícios imensuráveis aos portadores de HIV, como o aumento da expectativa de vida e a maior integração entre as pesquisas científicas e os cuidados médicos dispensados aos pacientes. “Os programas preventivos, porém, alcançaram um sucesso mais limitado. A educação e o uso de preservativos continuam sendo nosso melhor arsenal preventivo, mas trabalhos recentes sugerem novas formas de prevenção, como a circuncisão masculina, que diminuiu os riscos de a mulher transmitir o HIV ao homem”, observa. Outro exemplo inovador citado por Anton é o uso de um gel antirretroviral que, aplicado antes do ato sexual, reduziu em 39% as novas infecções de mulheres na África. O estudo foi apresentado no ano passado e chamou a atenção do meio científico como uma estratégia preventiva promissora. “Ao mesmo tempo em que experiências como essas mostraram-se bem-sucedidas, elas intensificaram as provas de que é preciso desenvolver novos mecanismos que evitem a transmissão do HIV.”

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