Mania de limpeza pode aumentar incidência de alergias

Estima-se que entre 30% e 35% das crianças e dos adolescentes de Porto Alegre tenham rinite

Foto: Ricardo Chaves

Pode parecer ironia, mas a mania de limpeza que domina o mundo abriu espaço para o crescimento de um conhecido problema de saúde: as alergias. Nos últimos 30 anos, enquanto uma revolução sanitária alterava hábitos de higiene nos cinco continentes, a incidência de rinite, por exemplo, chegou a duplicar. Por quê?

Sem sujeira espalhada por todos os cantos, o sistema imunológico dos seres humanos não precisa mais trabalhar o tempo todo contra a invasão de vírus e bactérias. Para não ficar “desocupado”, resolveu mostrar serviço e atacar inimigos imaginários, ou seja, substâncias inócuas que não ameaçam o bom funcionamento do organismo. É o caso de alimentos como os frutos do mar. Essa defesa exacerbada e desnecessária é chamada de alergia.

Uma outra teoria muito aceita entre especialistas aponta para a excessiva oferta e o fácil acesso a todo tipo de substância no mercado. Para desenvolver a sensibilização alérgica, o paciente precisa entrar em contato com a substância.

– Com o padrão de vida atual, as pessoas ficam mais expostas a novas alimentações, remédios e várias substâncias. Esse comportamento é um dos fatores que podem estar contribuindo para o aumento da alergia no mundo – explica o alergista  Luiz Antonio Bernd, diretor da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia.

Na prática, a teoria pode ser retratada com um exemplo que está se tornando muito comum, mas se mantém pouco conhecido de pacientes e até mesmo de médicos. A partir de 1980, houve uma explosão no uso das luvas feitas de látex, utilizadas em ambientes hospitalares ou mesmo para limpeza doméstica. Com contato excessivo, ocorreu um crescimento significativo de reações alérgicas ao produto.

– Quem usava começou a ter reações, como urticária e vermelhidão na pele. Além disso, o látex adere ao talco da luva, que, quando é retirada, pode causar alergia pelas vias aéreas de alguém perto. A reação já foi percebida até mesmo em usuários de camisinhas – relata o chefe do Setor de Imunologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Luiz Jobim.

Segundo ele, a alergia pode atrapalhar o andamento de uma simples festa infantil. Como? O estouro de um balão espalha a substância e ataca a saúde de algum convidado próximo. Além da alergia ao látex, observou-se que os mesmos pacientes também reagem a algumas frutas, entre as principais o abacate, a banana e o kiwi.

As alergias mais comuns são as do aparelho respiratório. Além da “limpeza do mundo”, a urbanização pode ter contribuído para o aumento dos casos. Um pólen encontrado na cidade pode ser muito mais irritante para as vias áreas do que a mesma partícula em uma área rural. As principais vítimas são as crianças e os jovens. Em Porto Alegre, estima-se que entre 30% e 35% de crianças e adolescentes tenham rinite. O mesmo número vale para os asmáticos.

A pele também é uma vítima constante das alergias. E há casos graves. Pacientes alérgicos a princípios ativos de remédios importantes podem sofrer muito e até parar em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) caso recebam uma aplicação do medicamento. Na lista dos vilões mais comuns estão o ácido acetilsalicílico, antibióticos à base de sulfa e penicilina e anticonvulsionantes. Quem tem alergia ao ácido também deve evitar consumir anti-inflamatórios, à exceção da cortisona.

– Em alérgicos, a irritação na pele pode começar com uma coceira, que fica vermelha e até mesmo cria bolhas. Em casos graves, o paciente pode ficar com a pele como se estivesse escaldada, chegando à necrose, que é a morte dos tecidos – cita o dermatologista Sergio Celia, do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Alergias por alimentos também crescem. Estatísticas internacionais indicam que de 6% a 8% das crianças têm algum tipo de reação. A principal é em relação às proteínas do leite de vaca e à clara de ovo. Em adultos, é comum a sensibilização por frutos do mar, como camarão e lula.

No tratamento, os médicos podem lançar mão de medicamentos para controlar os sintomas durante uma reação alérgica. Outra possibilidade são remédios de uso contínuo, utilizado em casos mais prolongados, como a rinite e asma.

– É importante ressaltar que existem tratamentos seguros e eficazes para o controle das doenças alérgicas –diz o alergista Luiz Antônio Bernd.

Como saber se você é alérgico

:: Ninguém nasce com a doença. A alergia surge com a exposição a determinadas substâncias

:: Não se sabe ao certo o que leva ao problema. Acredita-se que seja resultado da integração de fatores genéticos com questões ambientais, como a exposição às substâncias

:: Alguns testes ajudam a desvendar se o paciente desenvolveu alguma alergia. Um deles é pelo contato com pequenas porções da substância, observando-se, em seguida, a reação

:: Exames de sangue também podem ser utilizados na investigação, como no caso de quem tem reações ao consumir camarão ou outros alimentos.

:: Para os alérgicos a remédios muito populares, é sempre importante anotar essa informação em um papel e deixá-la junto a documentos. Isso pode evitar aplicações erradas em caso de acidentes ou emergências.

Leia mais
Comente

Hot no Donna