Maria Bethânia canta o amor e o encanto

Cantora fala da plenitude dos seus 63 anos

Foto: Dulce Helfer, BD 17/4/2009

Amor, festa, devoção. Com as três palavras, Maria Bethânia define o início de mais um ciclo de sua vida profissional. Já estão nas lojas os dois mais recentes discos da cantora: Tua, pela Biscoito Fino, e Encanteria, pelo selo Quitanda. Ambos elaborados apenas com canções inéditas. No primeiro, ela canta o amor. No segundo, evoca as crenças de uma Bahia mística e múltipla, que teceram sua própria fé:

– São discos que falam de mim e por mim.

Os dois álbuns serão a base para uma nova turnê. A rotina faz com que Bethânia chegue cedo em um estúdio, localizado nos pés do Corcovado. Tem vivido ali a maior parte do dia, repassando as 22 canções, recentemente gravadas, para preparar o novo show. No último mês, só ficou fora dali por uma semana, quando seguiu para Santo Amaro da Purificação, cidade natal localizada no Recôncavo Baiano. Foi comemorar os 102 anos de aniversário da mãe, dona Canô.

– Vivo para o meu trabalho, é a minha vida. Não interessa fazê-lo de qualquer jeito – comenta.

É assim em tudo na vida. A rigidez, segundo ela, vem sendo apurada com o tempo.

– Estou muito menos tolerante, insuportável (risos). Sou muito rigorosa comigo, principalmente quando lido com os outros – dispara.

Não é à toa que Wally Salomão, compositor e amigo, a chamava de Maria Britânica. Mas engana-se que o pulso firme impera a todo momento. A jocosidade do Recôncavo surge a cada momento, em tiradas espirituosas sobre tudo que comenta. Bethânia conta que a alegria é um mandamento familiar, com origem em dona Canô.

– Amor, festa e devoção são palavras de ordem para minha mãe. Vejo um subtexto por trás disso, que é fé, esperança e caridade. É assim que realizamos nossa vida – diz.

Os álbuns

Em Tua, o amor surge intenso, pleno enquanto sentimento. Algo bem diferente das canções passionais, que tanto pontuaram sua carreira.

– Não acho que estou cantando canções melosas, nem duras, nem frias. Estou cantando o amor, uma forma também de me proteger, até dele mesmo (risos) – comenta.

A mudança também é resultado da maturidade.

– A maneira de interpretar é que é outra. Aos 63 anos, vemos tudo diferente – completa.

Em Encanteria, alegre e dançante, está a força da fé múltipla, que se expressa na indumentária da própria Bethânia no dia a dia. De branco dos pés à cabeça, anel de São Jorge no anelar direito, a face de um caboclo no mindinho esquerdo, Oiá, Oxum, Oxóssi, Ogun e Xangô no pescoço, em fios de contas do candomblé.

– Sou católica de berço, filha de Nossa Senhora da Purificação. Mas na Bahia tudo está embolado, batido como a massa do acarajé. Não tem racha entre Portugal e África, colonizador e escravo – explica.

Bethânia ainda trabalha em outro projeto, voltado para a educação de crianças e adolescentes de escolas públicas. Será um disco com leituras de poemas e músicas à capela, onde interpreta escritores brasileiros e portugueses. A ideia é dar voz à poesia popular brasileira, muitas vezes renegada do mercado editorial e das escolas.

Ponto a ponto

Maturidade

Velhice para mim é privilégio. O tempo passa, os valores são outros, vão se acrescentando. O corpo não aguenta mais fazer o que eu fazia aos 18 anos. Faço outras coisas que correspondem a esse prazer. Gosto de gostar, de olhar, sentir, saborear. O tempo ajuda nisso.

Força

Minha mãe é a maior guerreira que eu conheço. Agora ela tem um jeito diferente de levar as coisas. Eu levo na ponta da espada. Ela nunca precisou pegar em espada. Brinca com as águas e com isso sai vitoriosa.

Candomblé

Sempre foi para mim uma coisa muito forte, séria. Não é um charme, como muitos veem hoje em dia. Todo mundo faz um pouco de santo, todo mundo usa uma continha… Comigo, tinha de ser. Meu pai e minha mãe entenderam isso, respeitam que os filhos tenham em si a religiosidade católica e a religiosidade africana.

Política

Para se defender o meio ambiente, tem de se tomar uma reação mais radical. Guerras acontecem na humanidade. A degradação está tão à vista que é preciso ter um pouco mais de juízo. Parar um ano já melhora. A Marina (Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e pré-candidata ao governo federal) fez um trabalho no ministério muito bem feito, foi reconhecida pelo mundo todo como um trabalho correto. Ela tem uma coisa interiorana, acreana, que é como se tivesse no topo de uma árvore e visse o Brasil.

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