Mariana no limite

Atriz apresentou no fim de semana a peça "Os Altruístas" em Porto Alegre e conta como estabelece as fronteiras entre público e privado

Foto: Andréa Graiz

Mariana Ximenes esteve em cartaz neste final de semana em Porto Alegre, terra de seu namorado, o publicitário gaúcho Lucas Mello. E eis aí quase tudo o que você saberá da vida privada da protagonista da peça Os Altruístas, que soma mais de uma década de carreira no teatro, no cinema e na TV e pouco figura nas revistas de celebridades.

– Estou superfeliz de apresentar o espetáculo na cidade dele – conta a atriz paulista.

Lucas e Mariana se conheceram em São Paulo, onde ele mora, e estão juntos “há uns meses”. A imprecisão das datas sinaliza o limite entre o público e o privado imposto pela atriz que interpreta no palco uma paródia de seu próprio ofício e da fama que vem na carona: na adaptação do texto do autor americano Nicky Silver, dirigida por Guilherme Weber, Mariana vive Sydney, uma estrela de TV em situações limite, beirando o desequilíbrio. Foi o personagem escolhido para voltar ao teatro depois de nove anos de afastamento – como atriz, destaca, já que nunca deixou de ser uma espectadora assídua. Mariana também já tem previsão de seu retorno à TV depois da vilã Clara, de Passione. No segundo semestre, estará no remake de Guerra dos Sexos, sucesso global na faixa das 19h exibido em 1983, quando ela recém estava na primeira infância.

– Não cheguei a assistir, tinha dois anos na época. Todos falam que era maravilhoso.

Na entrevista a seguir, a atriz de 30 anos fala da paixão sobre a qual jamais foi discreta – atuar – e sobre como faz questão de exercer sua profissão deixando em primeiro plano os personagens, e não sua própria história.

Donna – O Guilherme Weber disse que não faria a peça Os Altruístas se não fosse com uma estrela de TV no papel da atriz de novela Sydney, pela chance de ter no palco alguém fazendo uma paródia de si mesmo ou do que as pessoas julgam ser uma atriz de novela. Como tem sido essa experiência para você?

Mariana Ximenes – Foi sensacional, a gente tem que tirar graça de si mesmo. Tem uma frase que o próprio Guilherme fala: “Rindo se castigam os costumes”. E é isso.

Donna – E como é o contraste entre o que as pessoas julgam ser a vida de uma estrela de TV em contraste com a sua experiência como atriz de novela?

Mariana – Basicamente, há muita idealização de que é uma vida tranquila, só glamour. Mas quem trabalha com televisão, teatro e cinema são pessoas que trabalham muito, que não têm rotina ou horários certos. É uma dedicação completa. A cada personagem novo tem que fazer uma pesquisa profunda dos comportamentos humanos. É uma doação completa do teu mental e do teu físico. E é muito trabalho braçal também: as horas de ensaio… Em uma novela, se você vai fazer 30 cenas, tem que trabalhar estas 30 cenas. Se vai fazer uma determinada cena, em que vai passar o dia chorando, não é fácil acessar sensações que, às vezes, você não quer. Em uma peça de teatro, você tem que estar inteira. Respeito muito o público, e todo dia é um dia novo, porque é um público diferente. A gente tem que fazer sempre como se fosse um único dia.

Donna – Você falou das cenas que às vezes obrigam o ator a acessar emoções que ele não gostaria. Houve algum personagem ou trabalho que exigiu mais de você?

Mariana – Todos os trabalhos sempre são trabalhosos (risos). E ainda bem que são, adoro trabalhar, não tenho medo de trabalho. Por exemplo, antes da estreia da peça em São Paulo, perdi a voz e foi superdifícil. Fui a médicos: eu tinha que ter voz. Então, aprendi ao longo da temporada a poupar voz, a me poupar. A Fernanda Montenegro diz que nós (atores) somos como atletas: temos que comer bem, dormir bem, fazer exercícios para ter fôlego porque os personagens precisam da gente inteiros.

Donna – E as exigências do público e desse universo das celebridades? Há um convite permanente aos atores para expor suas vidas, mas você tem mantido uma postura discreta ao longo de sua carreira.

Mariana – Vou conduzindo minha carreira de acordo com o que acredito. Gosto da minha privacidade, gosto de silêncio e adoro preservar a minha vida. Entendo que tem uma parte que não dá e entendo que tem outra parte que dá, e faço poder dar (risos). Você vai sentindo: vou fazer coisas que não me agridam, vou parar tudo e agora fazer teatro, não vou abrir minha casa para uma reportagem – minha casa é meu templo, é meu ninho – , não vou passar meu Réveillon em um lugar que vai ser exposto… Você vai optando. E também não dá para falar “isso está certo” ou “isso está errado”. Esse é o meu jeito. Não julgo quem tem outra postura, é simplesmente uma questão de individualidade, de ser como sou. Essa sou eu. E, ao mesmo tempo, não gosto de me fechar, preciso da imprensa também. Faço teatro, faço televisão também, porque gosto de me comunicar. Não há nada mais prazeroso do que sair da peça e receber o público.

Donna – Como foi esse aprendizado de impor limites?

Mariana – A cada trabalho, você vai adquirindo experiência, tendo contatos e observando pessoas e atitudes, formando e formatando seu jeito de ser. Mas é uma construção, um aprendizado: nem sempre você acerta. Mas daí tenho meu pai, minha mãe, meu irmão, minha terapeuta, meus amigos… E sempre tento parar e refletir: não agir de maneira impulsiva.

Donna – Você passou uma temporada em Londres no ano passado para estudar História da Arte. Como foi essa experiência no anonimato?

Mariana – Foi sensacional, pegar metrô, pegar ônibus, voltar a estudar. Foi fundamental para poder viver um pouquinho, experimentar novas coisas, sair um pouco do eixo Rio-São Paulo.

Donna – Pegar ônibus no Brasil já não seria tão tranquilo.

Mariana – É um pouquinho mais complicado. Mas sabe quando eu pego? No Carnaval, quando estou com máscara e peruca (risos). Eu me divirto!

Donna – Você já soma quase uma década e meia de carreira, com experiência no cinema, no teatro e na TV. Como você avalia sua trajetória até agora?

Mariana – A batalha nunca está ganha. Entramos em cena para lutar tudo de novo. Chego três horas antes, aqueço minha voz, meu corpo, temos um ritual de conexão com os outros atores, dançamos uma mesma música para poder entrar na mesma sintonia. Sofro a cada escolha de projeto, a cada estreia, a cada espetáculo. Claro que olho para minha trajetória e falo: “Poxa, sou uma pessoa privilegiada, porque já trabalhei com tantos ídolos… Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Marco Nanini, Aracy Balabanian, Ary Fontoura, Cleyde Yáconis, Paula Autran…”. Sou muito privilegiada por ter tido esse contato com todos eles e por ter tido a oportunidade de fazer personagens tão diferentes. Mas só tenho 30 anos, tenho ainda muito para aprender e construir. E como diz aquela frase da Cecília Meireles, “a vida só é possível se reinventada”.

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