Marisa Monte fala do novo disco

Cantora traz a turnê "Verdade, Uma Ilusão" a Porto Alegre entre os dias 7 e 10 de junho

Foto: Tom Munro

Quando explodiu nas paradas de todo o Brasil em 1989 com seu disco de estreia, Marisa Monte foi recebida com entusiasmo pelo público e com admirada surpresa pela imprensa que, na falta de definição melhor, saudou a intérprete como eclética.

Dona de uma beleza singular, a cantora e compositora carioca conquistou o país com sua voz quente e levemente rouca, seu porte teatral em cena, seu repertório que citava de Luiz Gonzaga a Mutantes – passando por Billie Holiday, Tim Maia, Carmen Miranda e Titãs. Embalado pelo sucesso da canção Bem que se Quis e pela produção do jornalista, compositor e padrinho musical Nelson Motta, o álbum foi o mais vendido daquele ano, com 500 mil cópias.

Desde então, dezenas de novas vocalistas surgiram no cenário da MPB tendo MM como exemplo – e o rótulo “cantora eclética” virou clichê malbaratado. Marisa, no entanto, logo provou estar acima de modismos e imprimiu ao longo de quase 25 anos de carreira sua marca autoral – tanto cantando músicas de outros quanto defendendo composições suas e de parceiros. Filha de um integrante da diretoria da Escola de Samba Portela, teve aulas de piano e bateria na infância, participou do musical Rocky Horror Show na adolescência, estudou canto lírico na Itália – uma formação musical… ok, eclética, que se reflete no colorido trabalho de Marisa. Transitando com naturalidade entre gêneros como o samba, o pop, o jazz e o rock, a esguia intérprete já vendeu mais de 10 milhões de álbuns e ganhou vários prêmios nacionais e internacionais – incluindo nove Prêmio Multishow de Música Brasileira, sete Video Music Brasil, seis Prêmio TIM de Música, cinco APCA e três Grammy Latino.

Cinco anos depois do tour-de-force que foi colocar no mercado em 2006 dois CDs ao mesmo tempo – o pop Infinito Particular e a coleção de sambas Universo ao Meu Redor -, Marisa lançou em outubro passado O que Você Quer Saber de Verdade, disco produzido por ela e pelo instrumentista Dadi. Nas 14 faixas, a diva retomou os companheiros de composição Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, dividiu a autoria e os vocais de O que se Quer com o ex-Los Hermanos Rodrigo Amarante, tocou com músicos argentinos – a veterana orquestra tangueira Café de los Maestros, em Lencinho Querido, e o oscarizado Gustavo Santaolalla -, gravou com integrantes da banda Nação Zumbi.

O oitavo disco de estúdio de Marisa, lançado em 27 países além do Brasil, ganha agora os palcos: a turnê Verdade, Uma Ilusão – uma das canções no novo trabalho – estreia neste final de semana em Curitiba e chega a Porto Alegre entre os próximos dias 7 e 10. Na Capital, o espetáculo será apresentado no Teatro do Sesi, em sessões de quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 20h.

Uma das maiores estrelas da nossa música, Marisa Monte conversou com a revista Donna pelo telefone desde sua casa no Rio de Janeiro. Aos 44 anos, a mãe de Mano Wladimir, nove anos, e da pequena Helena (nascida em 2008) falou sobre o show, sua relação com o público, as cantoras que tem escutado, o que acha da MPB atual. Nas respostas, Marisa deixa claro que o que ela quer saber de verdade, na carreira e na vida, é algo tão ambicioso quanto simples: bem viver.

Donna – O que Você Quer Saber de Verdade é um título provocativo de uma artista que, aos 25 anos de carreira, quer confrontar as expectativas do público e da crítica?

Marisa Monte – Olha, o título não tem uma interrogação no final, não é uma pergunta. Ele é uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, em que a gente vive exposto a uma quantidade de informação absurda todos os dias, o que distrai muito do que realmente é fundamental no íntimo de cada um. Esse questionamento é tão individual que a gente precisa, às vezes, só de um pouco de silêncio, de atenção para escutar o que você quer saber de verdade, para conseguir focar nas necessidades da nossa alma. É uma resposta a essa avalanche de informações, às vezes completamente irrelevantes, que não fazem a menor diferença na vida de cada um de nós. A música-título fala sobre isso, sobre a libertação e escutar o coração, sobre o silêncio necessário para que isso aconteça. É um apelo ao silêncio, acho bonito abrir um disco fazendo esse apelo ao silêncio interior. A gente vive em um mundo com tanto ruído e tanta distração que talvez a chave da felicidade passe por aí.

Donna – Esse novo disco parece ter uma influência bem forte da canção romântica brasileira, passando por Roberto Carlos e Odair José, com um apelo bem popular…

Marisa – Mas você acha que esse meu novo disco é mais popular do que o resto do meu trabalho? Meu primeiro disco tinha Bem que se Quis, o segundo tinha Beija Eu… Eu imagino que, quando você escreve para o seu jornal, você busque um texto claro, objetivo, que toque as pessoas, principalmente porque você escreve para um jornal que fala para um grande público.Eu também não faço música para mim mesma, eu tenho a intenção de me comunicar com as pessoas, com quem ouve meus discos e vai aos shows, se não eu ficaria aqui em casa, com meu violão no colo. Isso é uma premissa de quem faz música profissionalmente. Eu não acho que esse trabalho de agora tenha isso mais do que o repertório de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (disco de 2000), os Tribalistas ou o meu primeiro disco, que tem Chocolate, por exemplo. Eu gosto de ser simples, de ser direta, e isso não é uma novidade para mim.

Donna – Vou tentar ser mais claro, então: esse disco traz melodias, letras e arranjos que disfarçam sua complexidade sob a simplicidade da música romântica popular e radiofônica, um jogo que o Arnaldo Antunes e o Marcelo Jeneci, seus parceiros, também têm feito nos trabalhos deles. O resultado são canções diretas mas também rebuscadas, algo que você realmente sempre busca com seu trabalho.

Marisa – Somos de uma geração que cresceu ouvindo música brasileira e a palavra cantada, claro que a gente dialoga com isso. Por outro lado, não acho que o assunto do meu último disco seja a questão amorosa. O assunto do disco é o bem viver, inclusive o bem viver a questão amorosa. Quando eu canto Ainda Bem, Amar Alguém, Seja Feliz ou Hoje Eu Não Saio, Não são propostas de bem viver. Minha questão hoje na vida, muito mais do que a questão amorosa – que, claro, faz parte da vida de todos nós -, é, aos 40 e poucos anos, desfrutar minha vida e valorizar ao máximo o meu tempo. Porque eu quero chegar lá na frente, olhar para trás e poder falar: “Aproveitei”. Minha preocupação hoje em dia é muito mais em valorizar meu tempo e desfrutar a vida da melhor maneira possível, e acho que isso está presente em todas as canções do disco. Quando elas falam de amor, falam de bem viver o amor.

Donna – Desde que você estourou com seu primeiro disco, seus trabalhos são sempre aguardados com expectativa pelo público e pela imprensa, que esperam que você aponte alguma novidade ou tendência. Você sente essa cobrança?

Marisa – Não tenho essa pretensão, nem tenho como absorver a pretensão alheia (risos). Claro que eu nunca vou conseguir satisfazer todo mundo, se eu conseguir me satisfazer, já estou muito feliz. E eu sou bastante exigente! Eu devo isso a mim, estar inteira. Cada passo que eu dou, cada disco, cada música que eu gravo é um relacionamento de vida, eu vou responder a minha vida inteira por isso tudo. Então eu levo muito a sério isso: não posso gravar uma música e daqui a pouco me arrepender. Mas tenho certeza que a única pessoa a qual tenho obrigação de estar satisfazendo é a mim mesma. Se eu estiver inteira e ainda conseguir comunicar isso às pessoas, aí é perfeito.

Donna – O que você tem escutado? Alguma cantora lhe chamou a atenção?

Marisa – Gostei do último disco da Mallu Magalhães, acho simpático, ouvi bastante. Gosto da Gaby Amarantes, acho que ela é exuberante, tem personalidade. Adoro várias cantoras que já não são tão novidade, como a Tereza Cristina. Ela é uma grande compositora e tem bom gosto na escolha do repertório. Nina Backer também faz um trabalho com inteligência e critério. A Maria Gadú faz um trabalho autoral e canta com segurança, sem esforço. Dessa geração, talvez ela seja quem melhor tenha feito essa comunicação com um público grande. De fora, gosto muito da Melody Gardot (cantora e compositora americana de jazz e blues) e da Regina Spektor (cantora, compositora e pianista americana nascida em Moscou).

Donna – E os trabalhos recentes da Vanessa da Mata e da Céu, que têm uma sonoridade parecida com a do seu disco, ecoando também influências como guarânia, bolero e tecnobrega.

Marisa – Ainda não ouvi o último disco da Céu (Caravana Sereia Bloom, de 2012), gostaria muito de escutar. O penúltimo dela (Vagarosa, de 2009) eu acho muito maneiro. Ela é simpática, acho ela muito bacana. O disco da Vanessa (Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias, de 2010) tem o Marcelo Jeneci, que é incrível, um grande compositor, que tem um bom gosto na composição, o que já é meio caminho andado.

Donna – Ao longo da sua carreira, os intervalos entre um disco e outro costumam ser bastante longos, de quatro a seis anos. Isso se deve ao fato de você ser muito criteriosa?

Marisa – Esse tempo é interno, subjetivo, não é um tempo medido em relógio. Em 2006, fiz dois discos. No total, 27 músicas inéditas. Foi um derrame enorme de repertório, que deu para o público absorver aos poucos por um tempo mais longo, um repertório que daria para fazer quase três discos.

Daí fiz uma turnê longa, que foi até 2008, quando filmamos também um documentário sobre o show, que virou ainda um disco ao vivo. Depois, me envolvi como produtora do documentário O Mistério do Samba (dirigido por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor) sobre o samba tradicional do Rio, que conta a minha relação com a Velha Guarda da Portela.

Quando o filme saiu, eu já estava grávida de oito meses, o que também é uma produção (risos). Tive o neném, fiquei me dedicando a esse momento e descansando desse período longo de trabalho do qual eu estava saindo.

Estou te contando tudo isso para dizer que, depois que saio do palco, apesar de eu ficar invisível para o público e aparentemente não estar fazendo nada, eu estou trabalhando. Depois desse tempo com a minha filha, passei a preparar o repertório desse disco novo, com calma, com o vento e o tempo a favor. Comecei a gravar no final de 2010 e terminei em maio de 2011.

Quando o disco foi lançado, veio acompanhado de uma série de conteúdos que a gente teve que produzir, como site novo, textos, entrevistas, vídeos. Esperei passar as férias escolares para começar a preparar a turnê em março. Quer dizer, eu trabalho sem parar (risos).

Donna – Queria saber sua opinião sobre o cenário da produção nacional. Você está gostando da música brasileira atual?

Marisa – Eu acho que a música brasileira segue inabalável. O que sustenta a música brasileira é o amor que as pessoas têm por ela aqui no nosso país. Aqui, a música vibra em todas as esquinas. Tem música brasileira para todos os tipos de pessoas, para todos os tipos de situações. O Brasil é um país enorme, com tantos estilos diferentes. A música pode estar acalmada em um canto, mas está vibrando em outro. É como o futebol, é uma afirmação cultural muito forte.

Donna – Como vai ser o show em Porto Alegre?

Marisa – Tem músicas do disco novo, outras de vários momentos diferentes da minha carreira e algumas exclusivas para o show. O nome da turnê é Verdade, uma Ilusão, que é uma canção que está no CD O que Você Quer Saber de Verdade e que propõe um contraponto à ideia da verdade como algo possível. O que Você Quer Saber de Verdade não é uma pergunta, é um objetivo, como se cada um de nós tivesse essa missão espiritual de buscar essa verdade individual. Mas essa verdade só existe no nosso íntimo.

Donna – Quais os músicos que tocam com você?

Marisa – A formação é a mesma da gravação da iTunes Store, no lançamento da loja digital brasileira, no ano passado. Eu tenho um power trio que vem da banda Nação Zumbi, formado por Dengue (baixista), Pupillo (baterista) e Lucio Maia (guitarrista), e que é um luxo para mim, sempre foi um sonho meu tocar com eles. Além deles, tem o Dadi, que já toca comigo há muitos anos e é meu parceiro, o Carlos Trilha, que faz toda a parte de programações e teclados, e um quarteto de cordas, que é uma formação que eu nunca tive ao vivo.

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