Martha Medeiros: A arte de escutar

Ninguém mais aceita ser coadjuvante, só queremos escutar nossa própria voz

Donna Simpson durante sua dose diária de 12 mil calorias
Donna Simpson durante sua dose diária de 12 mil calorias Foto: Barcroft

Semana passada esteve em cartaz no Theatro São Pedro uma peça que não trazia nenhum ator global e tampouco uma produção espetaculosa – trazia texto e ideia. A personagem principal da peça era a que menos falava. Era uma espécie de escutadora. Alguém a encontrava numa fila de banco e a escolhia para fazer confissões. Outra pessoa a encontrava num vagão de metrô e contava sua história de vida. Outra ainda a encontrava no vestiário da academia e fazia dela sua confidente sem nem ao menos saber seu nome. Simplesmente eles olhavam para ela e se sentiam confiantes para falar sobre si, para abrir o que de mais íntimo guardavam dentro. E falavam. Falavam. Falavam. Sem serem interrompidos.

Ela, a que escuta, é uma protagonista que nos revela a importância de ser coadjuvante.

Vem a calhar essa reflexão numa época em que todos sonham com o papel principal, onde todos sentem necessidade de externar sua opinião, publicar seus pensamentos, conquistar seguidores para suas gracinhas. Todos falam, hoje. Ninguém mais escuta.

Eu nunca sonhei em ser cronista, aconteceu. E acabei me tornando vaidosa do meu trabalho, feliz por ter um espaço para me manifestar e provocar reações, sejam concordantes ou discordantes. É uma maneira de existir além da redoma familiar, além do círculo de amigos. As palavras de uma folha de jornal ou da tela do computador ganham voz e viajam pelo Estado, pelo país e até pelo mundo, sem que ninguém interrompa a “fala” de quem escreve. Não foram poucas as vezes em que pensei: diacho, o que pode interessar o que eu penso para gente que nem me conhece? Por que não é Beltrano ou Sicrana que está aqui dividindo suas reflexões com os leitores, em vez de mim?

Sorte. Oportunidade. Mas é provável que Beltrano e Sicrana não sejam anônimos. Eles não escrevem aqui, mas certamente têm blog, Twitter, site próprio. Eles deram um jeito de se fazer ouvir. Quase todo mundo dá.

O lugar mais cobiçado do momento não é o sofá da sala, o jardim da casa ou a mesa da cozinha: é o palco. Qualquer palco onde alguém possa justificar sua existência, receber a sua deixa, ter seu momento de brilhar. E quem está sentado na plateia? Espie por trás da cortina: a plateia está praticamente vazia.

Quase não há mais diálogo, aquela modalidade em que um fala e o outro escuta até o fim, e aí é a vez de o outro falar e de o outro escutar, e essa troca de ideias construir uma conversa pausada e estabelecer um laço. E muito menos alguém hoje se contenta com a coadjuvância e apenas escuta, sem opinar, apenas escuta com generosidade e entrega, simplesmente escuta para que o outro se sinta respeitado em seu desabafo, escuta por afeto.

“Meu ouvido não é penico”, defendem-se os que não sabem praticar o silêncio tão necessário para fazer contato. Só queremos ouvir nossa própria voz.

Saí do Theatro São Pedro satisfeita com o que vi e com o que ouvi, e ligeiramente envergonhada.

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