Martha Medeiros: dois aniversários e a vida para brindar

Escritora festeja 25 anos da publicação de sua primeira obra

Martha publica crônicas em Zero Hora desde 1994
Martha publica crônicas em Zero Hora desde 1994 Foto: Carlos Contreras

No segundo semestre do ano passado, Martha Medeiros festejou 25 anos da publicação de seu primeiro livro, Strip Tease, pela editora Brasiliense. Em 12 de agosto próximo, planeja reunir um petit comité em casa para celebrar os 50 anos. São duas datas emblemáticas na trajetória da escritora gaúcha que, em pouco mais de duas décadas, viu a vida enveredar por um caminho jamais imaginado.

Publicitária por formação, Martha começou escrevendo poemas por simples hobby. Dos poemas, passou a refletir a vida através de crônicas até que, em 1994, recebeu o convite de Zero Hora para publicá-las no caderno Donna. Os leitores adoraram o texto fluente, coloquial e sincero de Martha. E ela não parou mais. Tornou-se colunista de Zero Hora e do jornal O Globo. Publicou 20 títulos entre poemas, coletânea de crônicas e dois livros de ficção, Divã (2002) e Fora de Mim (2010), ambos pela Editora Objetiva.

Foi tão bem-sucedida a estreia de Martha na ficção que o romance Divã, além de ocupar a lista dos mais vendidos, com a marca de cem mil exemplares, foi publicado na França, Suíça, Itália, Espanha e em Portugal. Virou fenômeno teatral, em cartaz com casa cheia durante três anos, e ganhou adaptação para o cinema, alcançando a marca de mais de 2 milhões espectadores. Martha Medeiros é um patrimônio brasileiro e, mais do que tudo, um patrimônio feminino elogia a atriz Lília Cabral, que interpretou a personagem Mercedes no teatro e no cinema e, no mês que vem, prepara-se para estrear o seriado com mesmo nome na Globo.

Em sua edição especial de fim de ano, a revista Época apontou Martha Medeiros como um dos 100 brasileiros mais influentes de 2010. Só que Martha não incorpora toda essa pompa. É de uma simplicidade tão grande que diante dela esquecemos que estamos diante de uma criadora com tantos títulos e feitos. Mãe de duas filhas, Julia, 19, e Laura, 15, grande amiga do ex-marido, o publicitário gaúcho Telmo Ramos, dona de uma visão otimista diante da vida e sem grandes manias a não ser a necessidade de estar em casa para escrever, ela recebeu Donna em seu apartamento com vista para a piscina do clube União, no bairro Petrópolis.

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Escritora, cronista e poeta

O prazer que virou profissão
“Tenho uma satisfação enorme de investigar o que estou sentindo e essa característica só trouxe coisas boas para a minha vida e para o meu trabalho”

Donna – Seu primeiro livro, Strip Tease, foi publicado em outubro de 1985, há pouco mais de 25 anos. Desde então são 20 títulos. Você esperava chegar aonde chegou na carreira literária?
Martha Medeiros – Nem nos meus devaneios mais loucos. Tudo foi muito circunstancial. Eu era publicitária e escrevia poemas, assim como hoje as pessoas escrevem blogs. Não tinha nenhuma pretensão com a escrita, nunca imaginei que existia uma cronista dentro de mim.

Donna – E quando foi que você se reconheceu como escritora?
Martha – Eu sempre tive pudor com a palavra escritora. Escritora para mim é a Clarice Lispector. Esse reconhecimento veio muito lentamente. Eu acho que comecei a me sentir escritora ? e não tem nenhum romantismo no que vou te dizer ? quando a literatura começou a me sustentar. Eu parei e pensei: “Do que eu vivo? Eu vivo de escrever. Então, eu sou uma escritora”.

Donna – Você tirou a sorte grande na vida?
Martha – Tirei. Minha vida é muito legal. Acredito que existe uma estrela em torno de mim. Eu sou uma pessoa cética, mas estou amadurecendo e começando a acreditar que há uma conspiração cósmica que me ajuda muito. Eu vejo tanta gente talentosa, batalhando ? e as coisas simplesmente não acontecem para elas. Claro que aliadas à essa minha sorte grande existem escolhas acertadas e muito trabalho também. Mas com certeza há uma estrela que me auxilia.

Donna – Eu imaginava que o seu cantinho de criação fosse localizado em uma parte da casa bem mais escondida, mas você escreve aqui, perto da porta de entrada, do telefone, da televisão. O que você precisa na hora de escrever?
Martha – Eu preciso estar em casa. Não consigo trabalhar fora de casa. Em hotel, eu nunca escrevo. Tanto que viajo sem notebook. Longe de casa, não escrevo nenhuma linha, apenas anoto o que me interessa em cadernetas, que são várias. Tenho fetiche por cadernetas, cadernos, papelaria em geral. Outra coisa que preciso ter à minha volta é material de consulta, como livros e jornais.

Donna – Você tem brancos, do tipo de sentar na frente do computador e não conseguir escrever nenhuma linha?
Martha – Muito! Mas daí eu abandono, vou dar uma volta, vou ler um livro, depois volto e tento mais um pouco. Estou sempre rondando o computador.

Donna – Não fica angustiada?
Martha – Nem um pouco. Até porque eu sempre tenho, no mínimo, umas oito, nove crônicas inéditas guardadas. Não quero nem pensar de passar pela experiência de ter que entregar um texto e não estar com ele pronto. Essas crônicas servem para o caso de eu ter que fazer uma viagem ou até mesmo para um estado de branco contínuo que me pegue desprevenida.

Donna – Como é a sua rotina de trabalho?
Martha – Minha rotina não é muito sistemática. Eu trabalho todos os dias, de domingo a domingo. O turno da manhã eu reservo para meu condicionamento físico: faço musculação e caminhadas. Depois, tomo um banho, ligo o computador, respondo os emails da noite anterior e começo a trabalhar, seja revisando ou concluindo algum texto, ou começando alguma coisa nova. Eu gosto muito de ir ao cinema de tarde, porque, além de ser um imenso prazer, funciona como trabalho. Cinema é uma grande fonte de inspiração.

Donna – Escrever funciona como auto-análise?
Martha – Sim, sempre funcionou. É como se eu fizesse um raio-X de mim mesma. Eu me enxergo por dentro. Para tu teres uma ideia, eu tenho um arquivo pessoal ? que espero que nunca, nunca, nunca caia na mão de ninguém, pois não tem nenhum valor literário ? que é uma catarse, onde eu escrevo tudo o que estou sentindo. Quando não estou conseguindo pensar direito, vou para esse arquivo e despejo tudo. É uma faxina interna. Eu leio muito esse arquivo, coisas de anos atrás. É como um alter ego que me socorre, uma espécie de autoajuda mesmo.

Donna – Autoajuda em causa própria.
Martha – (Risos). Total! Escrever me ajuda muito a melhorar como pessoa. Tanto que, se eu não tivesse mais uma coluna onde publicar meus textos, eu continuaria escrevendo por uma questão pessoal e íntima mesmo.

Donna – A poeta Olga Savary diz que “o bom poeta é um pensador, um filósofo. Reflete e questiona tudo”. Assim é com você?
Martha – Também. Todo mundo que produz literatura está sempre filosofando um pouco, está buscando respostas ou levantando questões. É um constante caldeirão de ideias e reflexões.

Donna – Não cansa?
Martha – Cansa. Mas eu não consigo imaginar a vida sem questionamentos. Tenho uma satisfação enorme de investigar o que eu estou sentindo, por que estou sentindo, se esse sentimento vai ou não ser bom para mim, qual é a hora que eu tenho que parar e relaxar, qual é a hora que eu tenho que retomar os assuntos pendentes, amarrar os fios que ficaram soltos… Eu sempre fui assim, e essa característica só trouxe coisas boas para a minha vida e para o meu trabalho, pois eu coloco muito essas reflexões no papel. Tanto que muitos leitores acham que eu tenho alguma formação psicanalítica, o que não é verdade. Sou uma chutadora profissional, mas possuo um interesse genuíno sobre o assunto e leio sobre psicanálise com muito prazer. Gosto de exercitar a mente, de manter a mente sarada.

Donna – Qual é o grande prazer de ser escritora?
Martha – Trabalhar em casa e escrever, algo que eu gosto demais e que faria mesmo que não fosse minha profissão. Também tem um pouco de vaidade, porque é um trabalho que se torna público. Eu acabo interferindo na vida de algumas pessoas involuntariamente. E acho isso muito honroso.

Donna – Já considerou a possibilidade de escrever um livro de memórias ou mesmo uma autobiografia?
Martha – Eu já cogitei. Não agora, obviamente. Mas eu cogito, sim. Nem que seja para deixar para mim mesma. Acho que seria bom para lembrar de tudo o que vivi, de tudo o que pensei e também como herança para as minhas filhas. Penso como um projeto pessoal, familiar. Depois de concluído, se ficar interessante, seria de se pensar na publicação. Mas eu tenho minhas dúvidas sobre a viabilidade, porque minha vida é muito convencional, não há grandes feitos para contar. Minhas biografias já estão escritas nas coletâneas de crônicas e nos meus livros de ficção. Tudo o que escrevo tem um pouco de mim. Eu já estou devidamente revelada nos meus textos.

Leia a íntegra da entrevista na edição impressa de DonnaZH
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