Martha Medeiros: Índio quer apito

Muitas coisas desmotivam o eleitor, não importa quem esteja no governo

Criança deve ser estimulada a escovar os dentes três vezes ao dia
Criança deve ser estimulada a escovar os dentes três vezes ao dia Foto: Stock Photos, Divulgação

Muitas coisas desmotivam o eleitor brasileiro, desde os subterfúgios para escapar de lei Ficha Limpa até a corrupção incessante, que nunca arrefece, não importa quem esteja no governo. Eu me desmotivo por isso tudo também, mas principalmente pelos critérios com que hoje se escolhem companheiros de chapa: vale quem trouxer benefícios até o dia da eleição, e não benefícios após ser eleito.

O caso do vice de José Serra não é único, mas é o mais recente. Lendo as matérias sobre a escolha de Indio da Costa como candidato a vice, não li uma única frase sobre seus atributos como cidadão e homem público.

“Pressionado, Serra aceita deputado do DEM como vice”. Esta manchete está longe de ser o anúncio de um parceiro escolhido por ser competente e capaz de substituir o presidente no caso de esse faltar.

“Diante do risco de desmonte da aliança que sustenta sua candidatura…”, Serra engole o fulano que mal conhece. O importante é agradar à cúpula e aos crápulas.

“O nome que valerá três minutos na propaganda na TV.” Esse é o principal argumento a favor da escolha de um político que, por enquanto, só o que se sabe é que foi namorado da filha de Salvatore Cacciola, o que não é mérito nem demérito, é informação irrelevante. O que importa são os três minutos a mais de espaço para convencer o eleitor de que o PSDB merece voltar ao governo. Talvez mereça. Talvez não. Como saber, se os interesses políticos passam tão longe dos interesses da população?

Não há mais nem o pudor de disfarçar. A portas fechadas, alinhavam-se os toma lá dá cá e a última coisa a que os candidatos se dedicam é formatar um programa de gestão que solucione de vez os problemas até hoje irremediáveis da nação brasileira. Não há espaço para inocência: sem o apoio de um partido e de outro, não se constrói uma candidatura com chances de vitória.

E, vencendo, será a hora de retribuir esse apoio, de distribuir cargos, de pagar a aposta feita. Uma dívida que não se esgota, que se retroalimenta, e disso vive a política, de conchavos e vaidades, de vitórias e derrotas contabilizadas nos corredores dos ministérios e nas votações em plenário, como se o QG do poder reunisse em si mesmo um país à parte, onde reside o único povo a quem se olha e protege: o povo chamado classe política.

O povo de fora não apita.

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