Martha Medeiros: Polícia para quem precisa

“Dizem que ela existe/Pra ajudar/Dizem que ela existe/Pra proteger/Eu sei que ela pode/Te parar/Eu sei que ela pode/Te prender/Polícia! Para quem precisa…”

Já assiti a mais de um show dos Titãs e eles sempre provocam uma excitação na plateia ao tocar essa música. Plateia majoritariamente jovem que têm com a polícia uma relação pouco amistosa ou muita amistosa, dependendo da situação. Polícia é pró ou contra conforme o lado que estamos.

Para o rapaz que atropelou o filho da atriz Cissa Guimarães, a polícia foi uma mãe. Os agentes foram testemunhas quase oculares do acidente, já que chegaram ao local do atropelamento poucos minutos depois, antes mesmo das ambulâncias, mas desdenharam do acidentado e se concentraram no atropelador, aquele que dirigia um carro semidestruído e que poderia render uma gorda propina. Infelizmente, no lugar do motorista, muitos teriam feito o mesmo: “Quanto você quer para não ter me visto?” No lugar do policial, poucos teriam respondido: “Quero os fatos, apenas”. Policiais ganham uma merreca, trabalham em atividade perigosa, são estigmatizados e mal treinados. Não há muito interesse em ser honesto às duas da manhã.

Dias depois, um policial de Fortaleza, outro despreparado, atirou contra Bruce Cristian, que tinha nome de artista, mas não era artista, estava apenas na carona da moto do seu pai, que não viu o PM tentando interceptar seu caminho e acelerou em frente, o que bastou para que seu filho de 14 anos levasse um tiro na nuca, por trás.

“Dizem pra você/Obedecer/Dizem pra você/Responder/Dizem pra você/Cooperar/Dizem pra você/Respeitar/Polícia! Para quem precisa…”

Tudo é acidental. É o que consta dos relatórios, dos inquéritos, dos depoimentos: desculpe, foi acidental. Matar é um acidente. Corromper é um acidente. O Brasil é um acidente.

Difícil apontar inocentes e culpados num país que não consegue fazer seus cidadãos entenderem a importância da seriedade na conduta social, um país que não consegue moralizar o cotidiano, que possui uma lei para cada caso e não uma lei única e severa que se imponha sobre o “acidental”. Somos todos franco-atiradores querendo se safar. Policiais vestem um uniforme e portam armas com a chance de brincar de mocinho e bandido, sem se darem conta de que a bala não é de festim. E ainda têm a rara oportunidade de se sentirem superiores a filhinhos de papai: “Quero 10 mil, estaciona ali e te vira”. E os cadáveres ficam pelo caminho. Polícia, quem precisa?

Todos nós precisamos da polícia. De homens cuja missão é nos proteger. E os policiais precisam de nós também, que deveríamos fazer a nossa parte, agindo com civilidade e assumindo nossos erros. Porém, sem treinamento e salário decente nas corporações, sem educação e respeito às leis na sociedade, enfim, sem uma ética nacional que valha para todos, instala-se o faroeste.

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