Mercado de beleza é imune à crise

Mulheres podem cortar tudo no orçamento, menos os tratamentos estéticos e visitas ao cabeleireiro

Cortes no orçamento para a beleza? De jeito nenhum
Cortes no orçamento para a beleza? De jeito nenhum Foto: Jefferson Botega

Entre fazer a unha toda a semana e se submeter a 10 sessões de ultrassom para redefinição da silhueta se esconde um universo sem fim. A voracidade com que cresce o mercado estético e cosmético, em plena expectativa de crise, já não surpreende mais. Ao saber que a economia sofreria uma retração em 2009, a médica Dora Ullmann, dona de uma clínica estética, não se assustou. Investiu, inclusive. Comprou um aparelho de laser de R$ 300 mil e outros dois, para emagrecimento, ao preço de R$ 160 mil cada um.

Hugo Moser, da rede de salões Hugo Beauty, inaugurou, em novembro do ano passado, mais uma casa, no BarraShopping Sul. E já colhe resultados. A indústria cosmética, muito menos, se intimidou. No início do ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), a projeção era de 5% de crescimento para o setor. Ao final do primeiro semestre do ano, o crescimento de vendas foi de 18%.

– O  setor teve a visão de continuar a investir mesmo diante da crise. Os lançamentos seguiram o mesmo ritmo dos anos anteriores, assim como a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos. Além disso, o setor vem investindo fortemente em marketing e publicidade. Esse tipo de empenho faz com que nossa indústria não só mantivesse, mas também evoluísse na sua relação de proximidade com o consumidor –explica João Carlos Basilio, presidente da Abihpec.

A boa notícia não é nova para quem circula em salões de beleza, clínicas ou academias. Quando até nos corredores de supermercados o movimento diminuiu, a disputa por horário para fazer mechas nos cabelos ou usar a esteira, se não está a mesma, aumentou. Uma das principais explicações para o fenômeno é a necessidade do resgate da auto-estima. Os cuidados com a aparência ajudam a suprir outras necessidades em tempo de restrições financeiras.

Parece contraditório investir no supérfluo em época de dificuldades, mas há duas explicações claras. Primeiro é o conceito de supérfluo. Investimento em beleza e bem-estar tem, acima de tudo, um caráter de longo prazo que se torna decisivo na hora de abrir mão ou fazer concessões. Jantar fora, comprar um vestido novo ou trocar o aparelho de som são prazeres imediatos. Ao contrário de deixar de usar um creme antirrugas ou adiar o tratamento para queda de cabelo, que vai cobrar a conta daqui a algum tempo. Segundo Gabryelle Sperotto, gerente-geral da Body One Club, o número de alunos cresceu 9% em relação a 2008, sendo que as mensalidades mantiveram-se nos mesmo valores.

O modo natural como as pessoas encaram a necessidade de fazerem-se bonitas também tem seu peso. Se cuidar da aparência virou consenso, quem não dá atenção ao visual acaba destoando, acentuando ainda mais a necessidade de correr contra o tempo.

– Mesmo que economicamente positivo, este processo pede cautela no entusiasmo. Algumas pessoas tentam sanar suas frustrações aplicando toxina botulínica na testa, e nem sempre resolve. Como qualquer objeto de consumo, dar atenção para a beleza exige limites, principalmente quando se trata de mercado infantil – alerta Dora Ullmann, que atende 50 pacientes por dia.

A outra explicação vem do movimento do mercado. O que os economistas chamam de Lipstick Effect (Efeito Batom) já virou praxe no universo financeiro. O conceito, válido tanto para aquisição de produtos como para desfrute de serviços, é baseado, sobretudo, nas formas de pagamento. Comprar cosméticos ou pagar o salão de cabeleireiro não estão submetidos a limitações de crédito. Além dos pagamentos à vista, o custo destes prazeres é mais acessível.

– Há um fator econômico-financeiro importante: a renda do trabalhador não foi comprometida, o que de forma geral, lhe preservou o poder de compra e este é um setor que não depende de crédito e sim de renda – afirma Basilio.

Hugo Moser, que já atravessou todos os planos financeiros, altas e baixas da economia brasileira, jamais reduziu ou freou o crescimento de seus salões.

– Acredito que este setor não só se sustenta, como também se beneficia das crises. Estar com as unhas bem-feitas e o cabelo bem cortado ajuda qualquer pessoa a enfrentar problemas com mais confiança – conclui.

Nem retração, nem celulite

Quem vê a advogada Tatiana Bender Carpena Menezes de Oliveira, 32 anos, pensa que ela é daquelas mulheres magras desde que nasceu. E é. Tem 1m79cm e pesa 59 kg e diz que aos dois anos já media 1m. Ainda assim, não dispensa uma rotina intensa de cuidados com o corpo. Faz aulas de Body Pump (aulas monitoradas de levantamento de peso), caminhadas e drenagem linfática uma vez por semana. Já se submeteu a 30 dolorosas sessões de carboxiterapia e planeja um tratamento de luz pulsada para eliminar as manchas do rosto. Há 10 anos colocou 190ml de silicone, há quatro retirou varizes, há três fez plástica no nariz e há dois fez lipoaspiração na região dos culotes. O cabelo de Tatiana é liso, mas faz escova de chocolate para garantir a ordem dos fios e tem clareamento de dentes agendado para a semana que vem.

A advogada, que trabalha o dia inteiro, organiza seus procedimentos estéticos entre o horário de almoço e o fim do dia. Também convenceu o marido a entrar na dança, e agora ela pratica pilates e faz natação. No círculo de amigas, estética é assunto recorrente. Indicam tratamentos e avaliam os resultados entre elas. Ela, inclusive, já ganhou o apelido de Tati Extreme Makeover, em referência ao programa de televisão que promove reformas estéticas e altera a silhueta de seus telespectadores.

– Sei que invisto bastante nisso mas, para mim, os cuidados pessoais são melhores do que qualquer terapia. Se o meu corpo está bem a minha cabeça também fica. Sem neuras – conclui.

Entre seus impulsos consumistas não se enquadram compras desmedidas de roupas. Tatiana se diz tranqüila frente a uma vitrina com novidades da estação, e que só compra quando gosta mesmo da peça e quando vale o investimento. E como está de casa nova há um mês, ficou muito tempo dedicando atenções e finanças a montagem do apartamento.

– Minha preocupação mesmo é ficar com o bumbum durinho (risos). Quando eu comecei a drenagem, a massagista disse que eu não tinha celulite, mas uma retração na pele. Para mim, aquilo era celulite, sim. Agora eu não tenho nada, nem retração, nem celulite – se diverte.

Mil clientes diariamente

O casal Hugo Moser e Gabriela Niederauer são responsáveis por uma marca que abriga cinco casas e 500 funcionários (150 empregados e 350 autônomos). O barulho de secadores que se ouve pelos salões da rede Hugo Beauty é uma das provas mais consistentes de que crise e beleza são substantivos incompatíveis.

A iniciativa, que tem 33 anos, tem crescimento financeiro entre 5 a 8 % a cada ano que passa, já tendo chegado a picos de 15%. Tudo por conta de cuidados para mão e pé, cortes, escovas, chapinhas, depilações, hidratações, limpezas de pele, alisamentos, mechas. Em média, são mil clientes que passam pelos salões diariamente, pagando entre R$ 15 para a manicure e R$ 2 mil, que é o preço mais alto para um tipo importado de alisamento.

O staff de funcionários não reclama da vida. Alguns cabeleireiros já compraram dois ou três apartamentos desde que começaram a trabalhar por lá. Outros tem suas contas administradas pela própria Gabriela, que deixa em dia os carnês de muitos de seus prestadores de serviços. Além disso, há o Centro de Educação Corporativa, que atualiza, forma e valoriza os profissionais não apenas tecnicamente, mas com palestras de abordagem psicológica e comportamental.

Hugo Moser, dono da marca e da cadeira mais disputada para cortar cabelos, tem clientela fiel:

– Minhas clientes cortam comigo há mais de 20 anos. Das 50 que eu atendo por dia, uma ou duas são novas. Mas a dinâmica de trabalho mudou. Antes era preciso seis meses de antecedência para marcar um corte. Agora, um mês antes é possível reservar uma hora.

– O que acontece aqui não é fenômeno nenhum. É uma questão de gestão. Alguns salões abrem e fecham todos os dias, mesmo sem crise. Oferecemos serviços de baixo custo, com alta qualidade e credibilidade – complementa Gabriela, que avalia todos os procedimentos que entram na carta de serviços, e descarta muitos deles.

Lista de espera tem 600 nomes

O vaivém frenético das clínicas de estética tem uma boa explicação, segundo a endocrinologista Dora Ullmann, diretora da Sociedade Brasileira de Medicina Estética. Ela, que está no mercado há 31 anos, diz que a responsabilidade pela corrida aos consultórios é da própria eficiência dos tratamentos.

– A indústria de beleza justifica, por si, seu sucesso ininterrupto. Hoje em dia, por conta da alta tecnologia, existe a certeza de que o procedimento vai dar certo, com resultados comprovados. Isto estimula o investimento e expande ainda mais o segmento – justifica.

A busca pela beleza é um direito adquirido das pessoas, como qualquer outro hábito de higiene, como freqüentar o dentista. A evolução da tecnologia materializou a possibilidade de viver sem (ou amenizar) rugas ou eliminar gordurinhas extras. Laser, botox e peeling são palavras de fácil identificação pela grande maioria das pessoas, e isto independe da classe social. Dora conta que o Centro de Estudos da SBME mantém um programa de alunos de pós-graduação que atendem pacientes voluntários. São 10 consultas por dia, e a lista de espera tem 600 nomes.

Ainda com toda a popularização, o cuidado estético é luxo para poucos. Os tratamentos de rosto e corpo variam, em geral, entre R$ 500 e R$ 3 mil o procedimento completo. E não passam pela crise.

– A minha clínica não conhece crise. Se precisam priorizar, as pacientes primeiro investem  no corpo e no visual para depois comprar roupas. Por isso o nosso movimento não diminui – conta Dora, explicando que a procura se divide pelo corpo no verão e o rosto no inverno, mas sempre na mesma intensidade. – A partir do feriado de 7 de setembro, as salas de tratamentos corporais não páram mais, e começa uma longa fila de espera.

As pacientes da clinica são prioritariamente mulheres, que trabalham e investem seus rendimentos no próprio corpo. Elas encaram os tratamentos como objetos de consumo, disputando atenção com tvs de plasma e aparelhos de MP3. Para Dora Ullmann, o perfil mais complicado de paciente é aquela que senta no consultório e diz que foi trocada por outra mulher.

– Elas querem fazer todos os tratamentos ao mesmo tempo, e a pressa, além de comprometer o resultado, não vai trazer o marido de volta.

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