Metamorfose Ambulante

Parte do processo de amadurecimento, as mudanças de estilo rendem boas histórias

Entre a trilha sonora de um evento e os planos para abrir um restaurante, o Chef-DJ Mano Pereira se diz eclético
Entre a trilha sonora de um evento e os planos para abrir um restaurante, o Chef-DJ Mano Pereira se diz eclético Foto: Ricardo Chaves

Já dizia o mestre Raul Seixas: é melhor ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. De tempos em tempos, legiões seguem o que ensinou o Maluco Beleza e se transformam, se renovam, se reinventam por meio dos modismos. Assim que aparece um novo estilo, muita gente se apressa em enquadrar-se. Algum tempo depois, os estilos permanecem para alguns, podem ficar no imaginário de uma geração, mas para a maioria não passará de uma lembrança.

Uma pesquisa feita pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, mostra que quanto mais intensa é a adoção a determinado modismo, mais rapidamente ele tende a perder a relevância e desaparecer. Analisando os nomes dados às crianças nos últimos cem anos, a pesquisa sugere que o mecanismo para a adesão – e abandono – de um estilo de vida segue os mesmos padrões. O fato é que, em qualquer tempo, mudar é prerrogativa humana. Portanto, antes de ficar chocado com os adolescentes coloridos que desfilam pelos parques, lembre-se de que, há alguns anos, houve os hippies, os góticos e por aí vai.

Especialista em Psicologia de Grupo e professora do curso de Psicologia da PUC-RS, Jaqueline Manica afirma que agrupar-se dentro de um estilo é uma característica dos seres humanos, que são gregários e precisam relacionar-se em sociedade.

Segundo a psicóloga, dois sentimentos convivem no momento de formar um círculo de relações e seguir um estereótipo: a necessidade de diferenciar-se, especialmente da família, e o desejo de identificação.

? Buscamos grupos pela empatia. Formamos assim uma identificação por meio de rituais, vestimentas e padrões de comportamento. Fazendo parte desses grupos, nos diferenciamos dos demais ? comenta.

Como sempre têm um caráter transitório, os movimentos culturais também incluem o abandono em seu processo. Então, tudo bem se você foi grunge a ponto de fazer luto com o suicídio de Kurt Cobain e agora nem lembra como cantar Smells Like Teen Spirit. Para Jaqueline, o encontro da própria identidade se dá pela busca em diversos universos, em contato com muitas visões de mundo.

Consumir os produtos de cada cultura é um outro aspecto do vaivém de estilos. Empenhadas em gerar compradores, as indústrias de todos os gêneros, de cultura a roupas, oferecem de forma hábil os acessórios necessários para que as pessoas se agrupem. Sob esse ponto de vista, para cada novo estilo de vida que surge, as cifras aumentam nos cofres de quem vende.

? Podemos dizer que o estilo de vida tornou-se um objeto de consumo, pelo qual as pessoas pagam. A globalização fez com que as mudanças sejam cada vez mais rápidas e a necessidade de consumir cada vez mais intensa ? afirma a professora de Antropologia da ESPM Rosana Pinheiro Machado, que fez uma pesquisa de doutorado sobre o processo de construção de marcas.

Ainda na tentativa de compreender o processo de aderir e abandonar um estilo de vida, as duas especialistas concordam: tudo isso funciona quando se é jovem. Agora, neste ponto da leitura, você se dá conta de que toda a efervescência dos tempos de Nirvana (ou Beatles, Janis Joplin ou Fresno) ocorreu na adolescência e na juventude.

As rebeldias e contestações se aliam às necessidades de afirmação e identidade para formar o terreno psicológico ideal para que os estilos cheguem e preencham os vazios. Com a maturidade, tudo se torna mais ameno e menos movediço. Por tudo isso, fique à vontade com o seu passado ou com o estilo do seu filho, como estão os personagens desta reportagem. Afinal, sempre é possível desdizer tudo o que foi dito antes.

Do Moicano às Panelas

Elétrico, ele faz mil coisas ao mesmo tempo. À profissão de chef de cozinha que prepara menus exclusivos onde os comensais estiverem, Cristian Pereira, 40 anos, aliou o gosto pela música para também ser DJ. Entre a trilha sonora de um evento e os planos para abrir um restaurante, Mano Pereira, como é conhecido, se diz eclético. Acredita nos poderes do amor, da família e dos amigos. E, claro, é perdidamente apaixonado pelos dois filhos, com os quais convive em meio a uma vida cheia de compromissos tão diversos.

O discurso em favor da diversidade se encaixa perfeitamente ao estilo de vida adotado atualmente por Mano. No entanto, ele nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o jovem e os amigos arrasavam em concursos de break nas ruas da Capital. Já como rebelde sem causa, encontrou a identidade que buscava como adepto das roupas pretas, dos cabelos moicano e das bandas que entoavam os clássicos do punk nos anos 80.

? Os meus amigos entraram nessa de punk, começamos a ouvir as músicas, usar as roupas e, quando eu vi, já era punk também. Eu lia muito em casa, o que me fez ser ainda mais contestador. Estava formado um perfeito grupo de punks na Cidade Baixa, em Porto Alegre ? relembra Mano.

Incorporar as roupas e o gosto musical foi fácil. Mais difícil foi entrar de cabeça na ideologia que os punks pregavam, com os ideais de anarquismo e violência contra as repressões do sistema vigente. Embalados pelo som dos Sex Pistols, Ratos de Porão, Replicantes e Garotos Podres, Mano e os amigos contestavam e se rebelavam contra o que consideravam careta, mas sem os excessos tradicionais da geração punk.

Depois de três anos desfilando coturnos e calças rasgadas, o estilo do garoto começou a mudar novamente. O gosto musical passou a incluir novas melodias, como o jazz, e o figurino deixou de lado a monocromia do preto. Começava aí uma paixão retroativa pela geração beat, estilo este que durou uns poucos anos na pele de Cristian. Hoje, realizado por trabalhar com gastronomia e música, ele rememora com carinho as vivências que, segundo ele, o trouxeram até aqui.

? Quando lembro dos estilos que tive, das roupas que já vesti, penso que todas as experiências foram importantes para formar o que sou hoje. Tenho noção de como é bacana ser eclético porque já transitei em muitos mundos ? completa.

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