Michelle Obama: um novo padrão de comportamento

Duas biografias recém-lançadas revelam o perfil da primeira-dama que virou ícone do pós-feminismo

Michelle Obama será a capa de março da revista Vogue
Michelle Obama será a capa de março da revista Vogue Foto: Reprodução, Vogue

No escritório estavam Barack Obama, David Axelrod, principal consultor político da cidade de Chicago, e Michelle Obama. O ano era 2004. Vencer as primárias eleitorais significaria a chance de Obama concorrer ao Senado. Os três tinham uma questão a resolver: usar ou não o slogan Yes, we can. Obama achou o slogan simplista, mas a frase foi defendida por Axelrod, seu criador. Coube a Michelle o voto de desempate. Ela achou uma boa ideia, ele virou senador.

A trajetória da primeira-dama dos EUA e a influência sobre a carreira do marido estão em duas biografias lançadas mês passado no Brasil. Os livros Michelle: a Biografia e Michelle Obama: a Primeira-Dama da Esperança se ressentem da falta de uma entrevista com a biografada – seus assessores só permitiram declarações para revistas de variedades e moda durante a campanha –, mesmo assim, reforçam a tese da personificação de um novo símbolo do pós-feminismo.

A influência de Michelle Obama, 45 anos, mãe de Sasha, oito, e Malia, 11, a partir do que é revelado nos livros das jornalistas Liza Mundy e Elizabeth Lightfoot vai além da cor do vestido, do novo penteado ou da forma como ela conciliou carreira e família. Nada a ver com as digressões sexuais de Madonna (antes de episódios como Jesus Luz) ou com os desvarios consumistas de Carrie Bradshaw (de Sex and the City). O que chama atenção em Michelle é o equilíbrio nos papéis de mulher sexy, mãe e esposa dedicada.

Para Carmen Rial, antropologa, professora e pesquisadora do Instituto de Estudos de Gênero da UFSC, é preciso esclarecer o termo pós-feminismo, sob risco de apontarmos para valores de retrocesso em relação às conquistas feministas do século 20.

– Michelle tem dado provas de que sua vida se pauta pelas conquistas do movimento feminista. Se é verdade que deixou um emprego como advogada em que recebia US$ 300 mil por ano para se tornar a esposa do presidente (duas vezes mais do que ele ganhava na época), também tem aproveitado os espaços para continuar atuando politicamente, com longos discursos nos quais expressa opiniões feministas. E ela já disse que voltará a trabalhar tão logo saiam da Casa Branca – explica a antropologa, que respondeu às perguntas da Revista Donna DC direto da Berkeley University, nos EUA, onde está para um pós-doutorado em um grupo de pesquisa ligado ao Departamento de Estudos da Mulher.

E quanto ao “Yes, we can”? A frase da campanha para o Senado acabou sendo usada também na corrida presidencial e todos sabem como a história terminou. Mesmo que o golaço de Michelle não tenha passado de um golpe de sorte, quando delegou a ela a decisão sobre o slogan, Obama já sabia que a mulher funcionava como uma espécie de indicador sensível às ruas. Ele já tinha a certeza de que sim, ela pode.

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Uma referência Fashion

Michelle Obama tem sido apontada como referência também na moda. Nos Estados Unidos, há quem diga que ela já é uma das Fab Four na era moderna – espécie de “quarteto fantástico” da moda –, somando-se a Jacqueline Kennedy, Carla Bruni-Sarkozy e a princesa Diana. Seu gosto por cores fortes, com casacos, blusas sem manga e cintura alta inspirou o livro Michelle Style, lançado no início deste mês nos EUA. A obra assinada por Mandi Norwood reúne fotos e descrições de seus principais looks em eventos.

Além da altura (tem 1,80m) e das belas pernas, um dos trunfos apontados pelos críticos de moda incluem o estilo hi-lo (contraste de peças caras com outras mais baratas) e a opção por estilistas jovens e pouco conhecidos.

O tititi sobre o que Michelle Obama veste reforça a parecença com o movimento feminista. No início do século 20, o feminismo foi decisivo na mudança da moda da época a partir da entrada das mulheres no mercado de trabalho. Agora, com uma negra no posto de primeira-dama da nação mais poderosa do mundo, a comparação é possível?

– Sim, mas não a imagino gastando fortunas com sapatos e vestidos, que é como alguns têm se referido às pós-feministas – diz a antropóloga Carmen Rial.

Dois olhares sobre Michelle

Donna DC entrevistou Elizabeth Lightfoot e Liza Mundy, jornalistas norte-americanas e autoras das biografias de Michelle Obama. Elas responderam as perguntas por e-mail. Liz Lightfoot – casada e mãe de quatro filhos, escreve para o jornal The New York Times, para a agência de notícias Associated Press e para a revista Vanity Fair. Liza Mundy – casada e mãe de dois filhos, trabalha no The Washington Post, onde cobre política, cultura popular e questões ligadas à mulher.

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