Moacyr Scliar: A vida nos hotéis

O verão masculino está bem colorido: adote combinações ousadas, como na passarela da TNG no Donna Fashion Iguatemi (na foto, o ator Jonatas Faro)
O verão masculino está bem colorido: adote combinações ousadas, como na passarela da TNG no Donna Fashion Iguatemi (na foto, o ator Jonatas Faro) Foto: Jefferson Botega

Viajar não é apenas conhecer novos lugares, conhecer novas pessoas. Viajar significa mudar, ainda que transitoriamente, o estilo de vida. De repente, já não estamos mais em nossas casas, no cenário que nos é familiar. De repente estamos num lugar que, pretendendo ser como as nossas casas, ou até melhor que as nossas casas, acaba nos dando uma sensação de estranhamento. Estou falando, claro, no hotel.

A vida nos hotéis é uma vida provisória. Mas tem suas regras, sua cultura, como descobrimos tão logo nos apresentamos na portaria. Vamos preencher uma ficha, vamos ser informados de algumas coisas: o lugar e o horário do café da manhã, a disponibilidade ou não de internet e de fitness center (é, o nome é em inglês). É uma rotina que parece familiar, que se esforça por ser familiar e que, no entanto, envolve surpresas.

Da primeira vez que fomos à Europa, Judith e eu, fomos à estação ferroviária de Florença, onde havíamos chegado para passar uns dias, e, por força de um orçamento muito limitado, pedimos um hotel barato. Sem uma palavra, a moça passou-nos um endereço. Fomos até lá, e era realmente um hotel precário, com quartos pequenos e sem banheiro. Mas estávamos cansados e tudo o que queríamos era um lugar onde pudéssemos dormir um pouco antes de entrar no fantástico universo da arte florentina. Café da manhã não havia; saímos e, quando voltamos, no fim da tarde, constatamos que o quarto não tinha sido arrumado. Mais que isso, nos corredores transitavam pessoas estranhas, mulheres com grotesca maquiagem, homens de olhar lúbrico. Era, como vocês já devem ter concluído, uma casa de encontros. Mas ali ficamos, o inocente casal, para irritação dos pecadores, que viam em nós uma presença acusadora.

Nos hotéis mais modestos, sobretudo na Europa, o hóspede paga (ou pagava, ao menos naquela época) por tudo. Moedas são, ou eram, necessárias para fazer o elevador funcionar, para ligar a calefação e até para obter água no chuveiro. Por um tempo limitado: às vezes, ensaboados, tínhamos de correr em busca de uma moeda porque a água subitamente era cortada.

Os hotéis brasileiros são mais generosos. Fornecem café da manhã, por exemplo, e aí, conforme o número de estrelas, a variedade pode ser grande. Mas, na minha experiência, o grande diferencial é a omelete. Mais do que as estrelas clássicas, a omelete, junto com o tamanho da cama e os preços do frigobar, classifica os estabelecimentos.

Mas mesmo um hotel bom pode reservar surpresas desagradáveis. Não se pode, por exemplo, escolher os vizinhos. Se o cara tem insônia e resolver ver tevê até de madrugada com o volume no máximo, azar o nosso. Ah, sim, e existem também os ocupantes do piso superior. Entre estes, aquele que nos deixa mais intrigados (e mais nos incomoda) é o cara que mexe com os móveis. Num prédio de apartamentos a gente ainda entende; mas num hotel? Por que um morador provisório precisa consertar o lay-out do quarto? Mas tem gente que faz isso, e aí é cadeira sendo arrastada de um lado para outro, mesa sendo arrastada, cama sendo arrastada (e, quem sabe, um corpo sendo arrastado).

O sonho dos hotéis é fazer o visitante se sentir em casa. Mas isso ainda é uma possibilidade muito remota.

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