Moacyr Scliar: O casaco perdido

Camila Trindade é natural de Porto Alegre
Camila Trindade é natural de Porto Alegre Foto: Divulgação

A matinê de domingo à tarde era um programa ansiosamente esperado pela turma do Bom Fim. Filmes de aventura, desenhos animados, aquilo excitava nossa febril imaginação; acorríamos em massa aos dois cinemas do bairro, o Baltimore, na Oswaldo Aranha, em frente ao parque, e o Rio Branco, na Protásio Alves. Ao Baltimore, próximo à minha casa, eu ia sozinho; quando se tratava do mais distante Rio Branco, minha mãe me levava e me buscava.

Uma tarde o filme terminou e ela não apareceu. Tinha se atrasado; essas coisas que aconteciam com as sobrecarregadas mães de família. Fiquei andando pelas cercanias do Rio Branco, na Rua Miguel Tostes (que então se chamava, e, como vocês já verão, não sem simbólica ironia, Rua Esperança) quando ela finalmente surgiu, aflita como qualquer culpada mãe judia. Depois do alívio que sentiu ao me ver, uma estranheza: onde estava o meu casaco?

Eu tinha ido ao cinema usando um casaco novo, recém-comprado. E agora estava sem ele. Antes que eu pudesse responder, pegou-me pela mão e arrastou-me de volta para o Rio Branco, onde obviamente eu teria esquecido o tal casaco. O cinema estava quase fechando, mas ela conseguiu que o gerente nos deixasse entrar. Procuramos, procuramos, e nada. Não encontramos o casaco.

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Não poderíamos tê-lo encontrado. O casaco não estava ali. Eu o tinha largado em algum ponto da Rua Esperança. Isso mesmo: o casaco, que eu levava na mão, caíra e eu simplesmente não o juntara do chão (e àquela altura decerto um outro guri já o estava usando).

Isso não contei à minha mãe. Não podia contar: era algo absurdo, incompreensível – inclusive para mim próprio. Por que teria eu me desfeito de uma peça de roupa que, para nós, família pobre, custara caro, e que me faria falta?

Nunca descobri a resposta para essa pergunta. Talvez fosse aquilo uma manifestação de raiva, de protesto contra minha mãe: tu não vieste me buscar, então eu te castigo, jogando fora o casaco, como tu me jogaste fora, ao menos por uns minutos. Mas acho que não era isso. Acho que foi um gesto de libertação: eu me livrara do casaco, como alguém que se desembaraça de uma carga incômoda. Sem remorso. Ao contrário de Adão que, depois de pecar, correu em busca de uma vestimenta para seu corpo, eu não tive o menor pudor em, ao menos parcialmente, me despir. Havia ali o germe do protesto, da revolta juvenil. Nada de casaco, nada de imposições da moda, nada de coisas materiais, nada de convencionalismos. Como a cobra que, sem remorsos, livra-se do couro velho e abandona-o em qualquer lugar por onde rasteja, assim eu estava, naquele momento, assumindo uma identidade nova. O casaco representava o velho, o arcaico, o preconceituoso, o convencional. Sem casaco era eu outro. Sem casaco eu era um guri livre.

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Não para sempre. Ao longo da vida comprei muitos outros casacos. Até usados: uma vez, nos Estados Unidos, adquiri numa yard sale, aquelas minifeiras que os americanos fazem nos quintais de casa, um belo casaco de tweed. Que horrorizou a secretária da universidade onde eu dava aulas: mas o senhor não sabe que isso pode ser o casaco de um morto? A mim não importava. Fazia parte de minha complexa relação com os casacos, herança de mortos ou não.

Até hoje penso no casaco que larguei na rua Esperança. Gostaria de encontrá-lo, de saudá-lo, olá, casaco, que saudades. Gostaria de recuperar os sonhos que trazia no bolso. Que sonhos eram, não sei. E não tem a mínima importância. O importante é perder. Perdendo é que a gente acha.

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Agradeço as mensagens de Themis Lopes, Alberto Oliveira, Marino Boeira, Mara Paulina Arruda, Vilson Cadore, Miriam Obino, Eduardo Jablonski, Ligia Carretta e do poeta e agitador cultural Ademir Bacca. A respeito do texto que escrevi sobre sogras, Francisco Neto de Assis diz que a sogra perfeita existe: é a sogra da mulher da gente (bota complexo de Édipo nisso, Francisco). E o Mauro Duarte manda um nome que condiciona destino, o da delegada Sabrina Defende. Uma delegada que defende é realmente o máximo, Mauro.

o.

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