Modelo transexual Carol Marra diz que trocaria glamour por vida pacata, marido e filhos

"A transexual é uma alma incompreendida. Esse corpo é uma prisão. Preciso me libertar".

Modelo de 25 anos ainda não se submeteu à cirurgia para troca de sexo
Modelo de 25 anos ainda não se submeteu à cirurgia para troca de sexo Foto: Márcio Rangel

O layout é de top model: 1m80cm, 58 quilos, cabelos volumosos que serpenteiam pelos ombros e seios moldados, cada um, com 240ml de silicone. Ana Carolina Marra tem frequentado as passarelas dos principais eventos de moda no país. Participou, este mês, da 33ª São Paulo Fashion Week. Ainda assim, o momento de se postar frente ao espelho não é dos mais agradáveis. Aos 25 anos, a modelo transexual ainda não se submeteu à cirurgia para troca de sexo. Não quer interromper o bom momento profissional.

– Tenho uma relação complicada com o meu corpo. Não gosto muito de me ver. Não gosto que o meu parceiro me veja. Uma parte não era para estar ali – conta Carol, por telefone, durante uma prova de roupas para o evento realizado na capital paulista.

Estranhamente, a mineira adora percorrer a passarela de biquíni, mesmo sabendo que grande parte da curiosidade do público estará focada abaixo da linha da sua cintura. A terapia hormonal a que se submete há cerca de um ano provocou a diminuição dos testículos e do pênis, o que facilita o disfarce sob as peças diminutas.

– A (consultora de moda) Glória Kalil falou que o meu bumbum é o mais durinho e o mais bonito de todos – vibra.

Formada em jornalismo, Carol sabe que já está em idade avançada para os padrões do universo fashion. Costuma dizer que trocaria, sem hesitar, o recém-descoberto cotidiano de glamour pelo pacote incluindo vida pacata, marido e filho.

– A transexual é uma alma incompreendida. Esse corpo é uma prisão. Preciso me libertar.

Confira os principais trechos da entrevista – concedida sob a condição de que não se mencionasse Lea T., filha transexual do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo, com quem Carol não gosta de ser comparada.

Donna – Como você tomou a decisão de se assumir publicamente como transexual?

Carol Marra – Eu nunca me entendi. Quando comecei a me entender, a descobrir quem de fato eu era, eu sabia que homem eu não era, que gay também eu não era, foi muito confuso e doloroso. Tinha muito medo da reação da minha família. Como meu pai e minha mãe veriam isso? Não queria ir para a rua me prostituir. Não por preconceito com quem faz isso, mas eu queria ter uma vida como mulher, com um marido. O medo da reação deles me levou, cada dia mais, a demorar a me expor. Até que não aguentei mais. Pensei: “Até quando vou viver a felicidade do meu pai e da minha mãe e não vou viver a minha? Até quando vou viver uma mentira para eles, para mim, para os homens?”. Sempre tive uma aparência feminina, sempre usei roupa unissex, nunca usei roupa de homem. O porta-malas do meu carro era meu camarim. Saía de casa e me trocava. Um dia, deixei uma carta para minha mãe, pedindo para ela me ajudar a encontrar a minha felicidade, da minha maneira, e não da maneira dela. Aí a gente sentou, conversou, procurou a ajuda de um psicólogo, que explicou que o meu caso era de transexualismo, que aquilo não era safadeza ou até mesmo uma criação errada por parte deles. Era uma condição, não era nem uma opção. A partir daí, assumi de fato a Carol que estava escondidinha lá dentro. Ela estava ali, em algum canto, eu não sabia exatamente onde.

Donna – Sendo reconhecida como uma mulher bonita e requisitada para vários trabalhos, o preconceito diminuiu?

Carol – Graças a Deus, as pessoas me respeitam muito. Todo mundo espera um deslize meu. Não visto roupa vulgar, não me porto de maneira vulgar. Nas baladas, os homens me paqueram achando que sou mulher. Agora há pouco, antes de você ligar, recebi um torpedo de um cara pedindo que eu não o procure mais. Quer dizer, o cara me viu como mulher, me beijou como mulher, ficou comigo como mulher… e aí, qual o problema?

Donna – Como ele descobriu?

Carol – Ah, ele olhou na internet, né?

Donna – Você não costuma falar que é transexual logo que conhece alguém. Como evoluem os seus relacionamentos?

Carol – É muito difícil chegar para um cara e contar. É tão difícil, acho tão constrangedor. Dou dicas: “Olha lá no Google, eu saí numa revista…”. É difícil.

Donna – Você procura contar antes do momento em que surge o clima para o sexo?

Carol – Antes. Deixar a surpresa para a hora H é pior. Posso ser até agredida.

Donna – Eles desistem quando você diz que é transexual?

Carol – A maioria desiste. Não por eles. Isso eu falo com 100% de certeza. Os dois últimos foram apaixonados por mim, mas eles levaram em consideração a opinião do amigo. O amigo pesa mais, a família pesa mais. Queria que tivessem um bom amigo, um amigo de verdade, que dissesse: “Poxa, cara, você não está feliz com ela? Não está dizendo que ela é a mulher da sua vida, que ela te faz bem? Então, dane-se o resto”. Mas não, o amigo diz para ele caçar uma mulher. Um homem que diz que me ama, que sou a mulher da vida dele, aí descobre e não quer levar adiante… não é homem para mim. Acho lamentável.

Donna – Há casos em que o homem topa ir adiante ao saber a verdade, mas sob a condição de manter tudo em sigilo?

Carol – Ah, vários. Tem fila de homem querendo sair comigo só por uma noite. Tem até proposta financeira, mas não tenho o menor talento para a prostituição. E não quero homem para uma noite, quero homem para uma vida. Não me sinto menor que outra pessoa pelo fato de ser transexual. Me sinto uma mulher como outra qualquer. Me sinto mais mulher do que muita mulher. Tem tanta mulher por aí que tem vagina e não é mulher… Homem, para estar comigo, tem que ter orgulho de mim e da minha história de batalha, de conquistas. Não tenho uma história feia para esconder. Já aceitei sair com caras meio escondida. Hoje não aceito mais. Não sou um marginal, não sou um E.T. para sair escondida. Tem que ter orgulho de mim.

Donna – E algum homem já topou assumi-la publicamente?

Carol – Não. Depois que sabem, não querem mais. Querem sair escondido. Tive um namorado no passado que sabia e acompanhou toda a minha transição. É uma pessoa famosa.

Donna – Famoso de que área? Televisão?

Carol – Do esporte. Mas não gosto de falar para não parecer maria-chuteira. É muito delicado, acabo me prejudicando muito profissionalmente. O preconceito surge de onde a gente menos espera, e o lado de que mais enfrento preconceito é o dos gays. A gente sabe que 90% dos personagens do mundo da moda são gays, e deles eu sinto o maior preconceito. Tento vencer essa batalha, tento trabalhar. Graças a Deus, tenho conseguido o meu espaço, mas é com muita batalha. Quero provar que sou uma profissional competente. Estou aqui trabalhando porque tenho capacitação profissional, e não pela minha condição sexual.

Donna – Como é o seu relacionamento com as outras modelos?

Carol – Elas são superamigas. Tenho várias amigas modelos, a gente sai juntas. Elas até brincam: “Ah, não vou sair com você. Você chama muito a atenção. Você pega dois caras e eu não pego nenhum”. A gente sai, se diverte, sempre saio com elas. Não frequento o meio gay, frequento o meio hétero.

Donna – Como está o relacionamento com os seus pais?

Carol – Tranquilo. Sei que para eles ainda é recente, doloroso, mas está tranquilo.

Donna – Quando começou a transformação do seu corpo?

Carol – Coloquei a prótese (nos seios) em dezembro passado. Antes usava sutiã com bojo. O resto do corpo é meu. Sempre tive quadril, minha taxa de hormônio feminino é muito grande. Faço terapia hormonal há um ano. Quando criança, saía com meus pais e ouvia: “Nossa, a sua filha está linda”. E eles diziam: “Não é filha, é filho”. Sempre tive aparência feminina. A terapia hormonal deixa a pele mais fina, a unha cresce, o cabelo cresce com mais rapidez. O corpo vai ganhando formas mais femininas, o mamilo fica mais bonito. Nunca tive muito pelo, graças a Deus.

Donna – É verdade que você já recusou convites para trabalhar em novela e posar nua?

Carol – É verdade. Neguei.

Donna – Se arrependeu?

Carol – Nem um pouco. Não pelo dinheiro, até porque não era um valor tão alto, mas acho que não tem a ver. Não quero me transformar num circo. Entendo, como jornalista, que o desfile em que estou atrai a mídia. Mas a minha genitália está coberta. Não tem diferenciação, na passarela, entre quem é trans e quem é mulher. Quero que as pessoas me vejam como Carol, modelo, competente, bonita. E não como Carol, a transex.

Donna – Como você se sente ao se olhar no espelho hoje?

Carol – Tem dia em que me sinto a mulher mais linda do mundo, sabe? Me sinto a rainha da história da Branca de Neve. Tem dia em que eu me olho e me acho tão feia que não quero sair do quarto.

Donna – O que você mais gosta no seu corpo?

Carol – Tenho muito orgulho da minha barriga e da cintura fina. Gosto muito da minha boca e do meu olhar. Gosto do conjunto. Sou uma mulher que chama a atenção.

Donna – Seus pais devem ter ficado surpresos com a sua transexualidade, mas eles já deveriam notar algo diferente.

Carol – Eles sabiam que eu não era homem, mas não achavam que eu seria transexual. Achavam que eu era gay. Me mandavam cortar o cabelo como homem, usar roupa de homem, mas eu não conseguia. Não conseguia usar uma underwear masculina. É uma coisa louca, parecia que eu estava com a roupa do avesso. Preciso muito da cirurgia para me sentir plena. Não sou feliz 100% com o meu corpo. Várias transexuais se mutilam, se matam, é difícil a gente se aceitar. As pessoas que estão de fora não entendem. É muito doloroso encontrar um homem que te ama, mas não ama o que você tem entre as pernas. Para um cara com quem convivi por um mês e meio, perguntei: “Você me ama ou ama o que eu tenho entre as pernas? Você nem me tocou. Você nem sabe se eu sou operada ou não. Você disse que me ama, fez planos para uma vida juntos, chorou, apresentou para a família e agora não quer mais saber de mim? Que amor é esse?”.

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