Movimento Devagar propõe equilíbrio e bom uso do tempo livre

Para que o tempo livre seja bem utilizado é preciso se conhecer

Movimento é considerado "elitista"
Movimento é considerado "elitista" Foto: Daniel Marenco

A retomada de consciência individual na busca por uma vida mais feliz, com mais tempo para lazer, trabalho e estudo e melhor uso do tempo livre é a proposta do Movimento Devagar, analisado em pesquisa da Escola de Comunicações e Artes da USP. Surgido na Europa, nos anos 90 do século passado, o movimento possui um conceito comportamental e não temporal. De acordo com a autora do estudo, a publicitária Marilia Barrichello Naigeborin, trabalho e consumo podem gerar um ciclo vicioso.

? Quanto mais você consome, mais você precisa do trabalho. A relação fica extremamente mercantil ? diz. ? Hoje, por inúmeras razões o tempo livre acaba sendo o tempo do consumo, o que empobrece a vida. Não podemos nos esquecer do tempo para a cultura, a família, as coisas simples da vida que não custam dinheiro ? acrescenta a publicitária.

A dissertação foi defendida em 2011, depois de uma viagem de oito meses por diversos países, que deu a Marília a oportunidade de conhecer diferentes culturas e organizações sociais. O orientador da pesquisa foi o diretor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, professor Mauro Wilton de Souza.

O Movimento Devagar tem suas bases no Slow Food (“slow” significa “lento” e “food” significa “comida”), associação internacional sem fins lucrativos criada pelo jornalista Carlo Petrini, na Itália, em 1997. Sua criação é tida como uma reação crítica ao avanço do fast food, ao ritmo frenético dos dias atuais e do desaparecimento das tradições culinárias regionais. O Slow Food inspirou uma série de outros projetos. Em 2005, o jornalista canadense Honoré deu o nome de Movimento Devagar ao conjunto de esforços em demonstrar que tudo, ou quase tudo, quando feito devagar traz benefícios ao homem.

O tema contemporâneo se insere no plano das sociedades ávidas pelo consumo, consumo este que nem sempre reflete as necessidades de seus habitantes.

? Às vezes, você almeja uma vida simples, mas o dinamismo e a pressão do mercado acabam te exigindo outro estilo de vida ? diz Marilia.

Segundo ela, o mercado é tão dinâmico que tira das pessoas o tempo necessário para refletir sobre sua realidade. Dessa forma, elas seguem com suas rotinas, sem se darem conta de que não é aquilo que lhes satisfaz.

? Poucos conseguem se questionar: eu não mudo porque trabalho demais ou trabalho demais porque não mudo?

A filosofia do devagar tem em si uma tensão embutida.

? Como ser devagar em um contexto contemporâneo veloz? Obviamente não dá para abrir mão do mundo em que vivemos, por isso precisamos constantemente jogar com isso ? diz. Esse estado transitório, entre o veloz e o devagar, incomoda e é isso que faz a pessoa permanecer consciente daquilo que lhe faz bem e o que não faz.

Tempo
O tempo livre, hoje em dia, incomoda. Depois de um tempo, ele gera angústia. Quando a pessoa se depara com a falta da obrigatoriedade do que fazer, ela fica inquieta e não se sente satisfeita.

? Muitas vezes, estamos tão cansados para aproveitar o tempo livre que simplesmente o gastamos na frente da TV.

Para que o tempo livre seja bem utilizado é preciso se conhecer.

? As pessoas anseiam pelas férias, mas quando conseguem, não sabem o que fazer com ela. É preciso materializar o tempo livre, dar um sentido pra ele ? explica Marilia.

Essa materialização tem de acontecer segundo o conceito “ócio criativo”, do sociólogo Domenico de Masi, onde lazer, trabalho e estudo se juntam. Essas três áreas favorecem o equilíbrio do ser para que ele possa seguir dialogando entre o veloz e o devagar.

O escape do tempo livre acaba sendo o consumo, porque é uma zona segura. As marcas se aproximam do discurso da vida equilibrada e do mundo com desenvolvimento sustentável. Entretanto, elas apenas repassam esse discurso, mas não desejam verdadeiramente que ele se perpetue.

? São propagandas e inciativas bem executadas tecnicamente, mas que podem ser perigosas, pois não são isentas em seu debate. Eu acho que isso deve acontecer no meio acadêmico e nas esferas públicas, não na publicidade ? coloca Marilia.

Aplicação
Segundo a publicitária, ainda é muito difícil dizer se o Movimento Devagar dará certo no Brasil, por ser um país em desenvolvimento. Ela aponta que o movimento é considerado, por muitos, elitista.

? Dentro da realidade brasileira ele ainda é mesmo: é muito difícil praticá-lo já que o mercado não incentiva o consumo de produtos orgânicos e que as pessoas trabalhem apenas meio período, por exemplo ? afirma.

Marilia acredita que a ligação entre o tema devagar e o planeta vai ajudar na impulsão do Movimento Devagar.

? Para o planeta sobreviver será necessário desacelerar ? explica.

Com isso, o Devagar começa a inspirar as pessoas e esse é o segundo passo para que ele vigore no mundo.

E, por fim, partir para políticas públicas: carga horária de trabalho reduzida, licença de trabalho para os pais, produtos orgânicos com preços acessíveis, etc.

? A consequência disso será a reconciliação entre o homem e o tempo. Então estaremos finalmente reconectados ? completa.

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