Mulher do Futuro: autoras da própria história

Elas querem marcar presença na produção de conteúdo cultural

Mulher do futuro promoverá uma transformação de valores estéticos, sociais e culturais
Mulher do futuro promoverá uma transformação de valores estéticos, sociais e culturais Foto: Ilustração

Da pintura clássica à música, passando pelo cinema, a mulher é objeto de representação. É o corpo feminino que aparece na tela do pintor, a voz da diva que interpreta composições masculinas e a atriz que dá vida a roteiros criados e dirigidos por homens. 

A geração atual de mulheres busca a ruptura deste modelo. Um exemplo: só no ano passado, após 80 anos de premiação, uma mulher, Kathryn Bigelow, ganhou o Oscar de Melhor Diretor. Na música, elas estão um pouco mais adiantadas. As cantoras Mariana Aydar, Maria Gadú e Mallu Magalhães são jovens talentos que se destacam como compositoras. À mulher do futuro caberá consolidar a presença na produção de conteúdo cultural.

? Um exemplo interessante é o movimento da pornografia feminina. Essa arte dita como de segunda categoria sempre obedeceu a lógica de provocar pulsão sexual masculina. Mas que tipo de pornografia realiza as fantasias femininas? ? questiona a antropóloga Miriam Pillar Grossi, coordenadora da pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Terreno na pornografia

Cineastas como a sueca Erika Lust, a alemã Petra Joy, a britânica Anna Span e a americana Tristan Taormino adequaram a pornografia às necessidades da mulher e fazem sucesso. Os enredos têm tramas mais complexas e homens são mais bonitos que truculentos.

A antropóloga Miriam Grossi também chama a atenção para o panorama das artes plásticas. Na história da arte ocidental, desde o Renascimento até o século 20, as artistas plásticas são minoria. Ainda hoje, nos museus, predominam obras masculinas.

? A subordinação de gênero resiste, mas há algumas iniciativas. O grupo feminista norte-americano Guerrilla Girls realiza performances para denunciar a invisibilidade das obras de arte femininas. Já invadiram museus com máscaras de gorilas ? diz ela.

Um outro exemplo é o Centre George Pompidou. O principal museu de arte contemporânea da França mantém um espaço fixo para a produção feminina. Apesar de segregado, não deixa de ser uma ocupação feminina.

Ao concluir o caminho rumo a um lugar atrás dos holofotes, a mulher do futuro promoverá uma transformação de valores estéticos, sociais e culturais. A filósofa Maria de Lourdes Borges, secretária de Cultura e Artes da UFSC (secretaria que tem status de pró-reitoria) observa que o olhar feminino sobre o amor, guerra e “as coisas da vida” é específico.

? Criaremos um espaço novo para novas formas de ver a vida, mas formas genuínas que não são incorporação, mas visões inovadoras ? completa ela, que acredita numa literatura feminina, outra área em que as mulheres precisam avançar, e prepara um livro só com contos femininos.

Hoje e amanhã

:: Cinema

Em 2010, Kathryn Bigelow (foto abaixo) levou o Oscar de Melhor Direção pelo documentário Guerra ao Terror. Em toda a história da premiação, apenas outras três mulheres foram indicadas na categoria: Lina Wertmuller (por Pasqualino Sete Belezas, 1976), Jane Campion (por O Piano, 1994) e Sofia Coppola (por Encontros e Desencontros, 2004).

:: Música

 Nos anos 2000, Céu (foto acima), Ana Cañas, Maria Gadú e Mallu Magalhães são algumas compositoras brasileiras. Antes, Vanessa da Mata, Ana Carolina e Cássia Eller também se destacaram com composições própria.

:: Literatura

A argentina Pola Olaixarac é apontada como uma promessa e deve ser a sensação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). No Brasil, Clarice Lispector, Cecília Meireles e Lygia Fagundes Telles são as principais referências.

:: Artes plásticas

Tarsila Amaral é o grande nome das artes plásticas brasileiras. Fernanda Magalhães, do Paraná, é uma das artistas em destaque na atualidade.

Tchau, tendências de moda

Bia Carminati, 25 anos, publicitária, e Julie Fernandes, 26, estilista, são as mulheres por trás do blog Donde Estás Corazón. Com humor crítico e criatividade, escrevem sobre moda, arte, design, música e cultura contemporânea. Diante de uma postura de preservação da individualidade, a dupla acredita na extinção das tendências de moda:

? As pessoas não querem mais ser rotuladas como parte de um grupo, de uma tribo. Querem ser únicas e, daqui a 30 anos, vão ter mais liberdade pra fazer suas escolhas.

Bia e Julie defendem que as brasileiras ainda precisam quebrar o paradigma do “as pessoas daqui estão querendo copiar o que vem de fora”, e que a moda brasileira não é autêntica porque não tem identidade.

Elas não conseguem imaginar como estarão daqui a 30 anos. Mas têm certeza de que os blogs já terão desaparecido ou evoluído para algo diferente:

? O que teremos é a volta da valorização dos profissionais, o crédito a quem sabe do que está falando. Tomara que estejamos neste grupo.

Assista ao vídeo com as garotas do Donde:

Produtora musical. “Ahã”?

Carolina Zingler é cantora, compositora e produtora musical. Este último item costuma causar estranhamento nos homens.

? Eles dizem: “Nossa, você conhece isso?” Há poucas mulheres nessa área. É um lugar que precisamos ocupar ? afirma.

Graduada em produção fonográfica, ela acaba de lançar seu primeiro álbum, Buterfly, com composições próprias. No campo autoral, acredita que as mulheres hoje são mais respeitadas e que essa posição deve se consolidar no futuro.

A cantora espera que, daqui a 30 anos, quando estiver chegando aos 60, continue compondo e cantando suas canções, não importa se em casa com a família ou para o grande público.

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