Mulheres abandonam antidepressivos devido à perda da libido

Paciente deve relatar ao médico distúrbios sexuais enfrentados durante o tratamento

Autor do livro "Casamento, missão quase impossível" diz que é necessário estar consciente do que significa casar
Autor do livro "Casamento, missão quase impossível" diz que é necessário estar consciente do que significa casar Foto: Divulgação, Agência O Globo

Ao tratar pacientes depressivos, os psiquiatras se vêem diante de um dilema. Nos casos leves a moderados, o principal antídoto – os antidepressivos – pode ter efeitos colaterais tão nocivos como a própria doença e levar o paciente a suspender a medicação por conta própria. Ao mesmo tempo em que corrigem as alterações neuroquímicas que dão origem aos sintomas, os remédios com freqüência também aumentam o apetite e derrubam a libido.

Uma pesquisa, encomendada pela Associação Latino-Americana de Psiquiatria ao Ibope, ouviu 300 mulheres, as principais vítimas da doença, em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, e constatou que 30% delas abandonam o tratamento por conta do ponteiro da balança. A perda do desejo sexual aparece logo atrás, com 17%.

– Esses efeitos são tão indesejáveis que o tratamento acaba sendo comprometido, e a depressão se torna difícil de tratar – afirma a psiquiatra e professora da Universidade de São Paulo Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex), que já atestou, em pesquisas, que mais de 75% dos tratados com antidepressivos reclamam da dificulda  de de excitação e de alcançar o orgasmo.

Apesar de figurar em segundo lugar no levantamento, a diminuição da libido pode ter um efeito ainda mais danoso do que os quilos extras, dizem os especialistas. O psiquiatra Fernando Lejderman, presidente da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, afirma que a diminuição da vontade de fazer sexo não afeta apenas a mulher em tratamento, mas pode influenciar na relação dela com o parceiro.

– Se a paciente não é informada do efeito dos antidepressivos sobre a libido, especialmente os que atuam sobre a serotonina (um neurotransmissor cujo baixos níveis estão associados à doença), ela pode vir a ter problemas no relacionamento com o marido ou namorado, que interpreta a falta de desejo como desinteresse ou fim do amor – diz Lejderman.

Embora sejam sentidos por grande parte das mulheres tratadas com antidepressivos, esses dois efeitos podem ser excluídos da lista de conseqüências indesejadas. Segundo o psiquiatra Marcelo Fleck, coordenador do Programa de Transtornos do Humor do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, às vezes pequenas mudanças na dosagem, substituição do tipo de antidepressivo ou combinação com outra medicação são suficientes para manter esses problemas distantes.

Fleck compara o tratamento da depressão ao de um artesão, em que cada peça deve ser milimetricamente ajustada para garantir não apenas o controle da doença, mas a qualidade de vida do paciente. O único empecilho em trocar o antidepressivo pode ser o preço. Segundo Fleck, o alto custo de algumas medicações também está entre as causas de desistência.

O tratamento dura, em média, de seis meses a um ano. Quem segue as prescrições à risca também afasta a possibilidade de ter novos episódios depressivos, que, por si só, sepultam a libido e podem aumentar o apetite, dependendo da forma de manifestação da doença. Carmita Abdo diz que a chance de uma mulher que interrompe o tratamento pela metade vir a sofrer de novo com a depressão é de 50%. Na segunda desistência, o risco cresce para 90%.

– Se a depressão se torna crônica, recuperar a libido se torna muito mais difícil – alerta.

Driblando os efeitos colaterais

Na tentativa de reverter a disfunção sexual em mulheres com depressão, os cientistas recorreram à fórmula que tanto ajudou os homens: o viagra. Para o público feminino, porém, a pílula azul teve um efeito frustrante. Gerou um aumento de fluxo sangüíneo nos órgãos sexuais, mas não excitou a maioria. Apenas uma pequena parcela foi beneficiada.

– O viagra não ajudou as mulheres que reclamavam de falta de desejo. Para indicar a droga, cada caso deve ser avaliado individualmente – diz a professora da USP Carmita Abdo.

A dificuldade de resolver a disfunção sexual das mulheres causada tanto pela depressão quanto pelo tratamento para controlá-la reside na complexidade da sexualidade feminina. Além da oscilação hormonal que influencia na disposição para o sexo, a mulher vincula as relações à afetividade, diz Carmita. Se a intimidade do casal não vai bem, é provável que o clima esfrie na cama.

De acordo com a especialista, novos estudos na Europa com remédios à base de testosterona sintética trazem esperanças de encontrar um viagra feminino. Mas, enquanto não chega ao mercado, a melhor solução é informar ao psiquiatra os distúrbios sexuais caso eles surjam durante o tratamento. Pesquisas mostram que apenas 15% dos pacientes tratados para depressão contam para os médicos sobre os problemas na cama. Quando inquiridos, o índice aumenta para 60%.

– Uma conversa franca com o médico ajuda a desvendar as outras razões afetivas que podem estar prejudicando a parte sexual – detalha o psiquiatra Flávio Shansis, coordenador do Programa de Pesquisa e Ensino em Transtornos do Humor do Hospital São Pedro.

Nos últimos anos, a comprovação dos benefícios da atividade física tem levado especialistas a prescrevê-los como tratamento. Um estudo australiano que avaliou mulheres entre 18 e 65 anos constatou que aquelas que praticavam três horas e meia de exercícios por semana tinham menos sintomas.

– O exercício aeróbico três vezes por semana controla o ganho de peso e melhora o bem-estar. Para alguns casos, o tratamento de manutenção é feito apenas com prescrição de exercícios físicos diz o psiquiatra Marcelo Fleck.

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