Mulheres desafiam a norma de etiqueta que diz que cinquentonas não devem usar cabelo comprido

Cheias de estilo, elas apostam no cabelão sem medo de serem criticadas

Os cabelos de Maria Bethânia fascinam homens e mulheres
Os cabelos de Maria Bethânia fascinam homens e mulheres Foto: Dulce Helfer

Na pintura do Renascimento, os cabelos longos em mulheres mais velhas eram associados às bruxas. Mas os tempos mudaram, as bruxas desapareceram, e restaram nossas feiticeiras cinquentonas, sempre prontas para sair por aí desfilando com seus cabelões, como os da atriz Clarice Niskier.

A realidade mostra que, cada vez mais, as mulheres que passaram dos 50 anos estão apostando nas longas madeixas. Tanto que em recente edição o “New York Times” publicou um texto de Dominique Browning no qual a jornalista questionava: “Por que as mulheres de meia-idade não podem ter cabelos compridos?” Podem, sim. Pelo menos para Clarice Niskier e outras tantas mulheres que desafiam a opinião dos especialistas que decretaram o fim dos longos para as mulheres maduras.

? Dizem que eles envelhecem, não é isso? Eu me sinto muito bem, o que tem me envelhecido é o tempo mesmo.

Recentemente, a artista plástica Enrica Bernardelli assistiu a um recital de poesia de Maria Bethânia e ficou fascinada pelos cabelos da cantora. A partir daí, percebeu que o cabelão pode funcionar como licença poética e independe de época, moda e idade. Enrica admite, ainda, que suas madeixas já lhe serviram de esconderijo, mas hoje não a escondem mais.

? Quando me vi sem elas, percebi que não me fizeram falta. Talvez porque eu soubesse que voltariam a crescer. Mas ficar sem meus cabelos não foi uma escolha, foi uma convalescença ? explica.

São tais o simbolismo e o poder de sedução dos cabelos que em algumas comunidades religiosas as mulheres são obrigadas a cobrir a cabeça quando estão em público. Se uma mulher islâmica, por exemplo, deixar uma mecha exposta sobre o véu, pode ser açoitada pelos homens da igreja. No Vietnã nunca se jogam fora cabelos cortados ou arrancados pelo pente pois eles poderão servir para influir, magicamente, no destino do seu proprietário.

Priscilla Rozenbaum nunca associou o comprimento dos seus à idade. Sempre os usou longos, fizeram-na acreditar que isso facilita as atrizes a compor os personagens. No seu caso, acha que esse costume vem lá de trás.

? Como já fui hippie, talvez não tenha percebido o tempo passar, minha alma é hippie até hoje.

Para ela, as mulheres deveriam apostar no cabelão. As maduras e as imaturas.

? Se não, como poderão jogar suas tranças pelo balcão do jardim para os namorados subirem alegremente? ? brinca Priscilla, fazendo alusão ao conto de fadas “Rapunzel”, a menina mantida prisioneira numa torre, que deixou seus cabelos se transformarem numa trança gigantesca.

A cantora Brita Brazil, de 56 anos, conserva o seu na altura do busto, mas não partilha da crença de que os homens gostam mais das mulheres com longos:

? Para mim isso é folclore.

Mas há quem discorde. Como a arquiteta Joy Garrido. Ela acha que os homens preferem o cabelão.

? Mas não uso para dizer que ainda sou jovem, uso porque faz parte do meu ser.

Estilista da Wöllner, Cheila de Paula também não usa a cabeleira para disfarçar a idade. E não acredita que hoje as mulheres pós-50 apostem no longo como sinal de libertação, como outrora representaram os cortes curtinhos.

? Isso foi na década de 70, hoje as mulheres têm meios mais inteligentes para mostrar que não estão de acordo com alguma coisa. Uso porque gosto.

Rebeldia se transmite com atos e gestos, não com imagens que podem ser artificialmente construídas. A observação é da historiadora Mary Del Priore.

? Nos anos 30, por exemplo, rebeldia era cortar os cabelos “à la garçonne”. Tem até música de protesto dos homens contra o hábito que identificava a mulher moderna, liberada e insubmissa aos ditames da sociedade patriarcal: os sambas de Francisco Alves “Cangote raspado” ou “Se a moda pega”.

Quando muito, Mary acha que o cabelão pode fazer pensar na dificuldade que as mulheres têm de envelhecer.

? É bom lembrar que o contraste entre o símbolo da juventude ? os cabelos longos ? e a idade na carteira de identidade pode ser cruel. O ditado popular “de costas um liceu, de frente um museu” confirma a desconfiança contra mulheres maduras com cabelos muito longos ? brinca.

A fotógrafa Marcia Ramalho é outra que não pensa que mulheres que usam cabelão como o dela estão protestando contra alguma coisa.

? Na época de Woodstock podia ser, mas os tempos são outros. Agora não é mais rebeldia, apenas conformismo, euforia e depressão.

Ela não acredita que a sociedade torça o nariz para mulheres maduras que usam longos.

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