Mulheres invadem estádios de futebol

Torcedoras catarinenses são retrato da diversificação no perfil das torcidas

Gabriela de Carvalho, musa do Figueirense, faz questão de torcer com estilo em cada jogo do seu time do coração
Gabriela de Carvalho, musa do Figueirense, faz questão de torcer com estilo em cada jogo do seu time do coração Foto: Andréia Farias

Os estádios catarinenses estão mais bonitos. O motivo não é nenhuma reforma, troca de cadeiras ou pintura, mas a presença feminina na torcida pelos times do Estado. Cada vez mais atuantes nos jogos, elas dão um toque de beleza e mudam, aos poucos, o cenário historicamente masculino.

Dividindo espaço com os sujeitos de camisas na cabeça e os senhores atentos aos radinhos de pilha, as torcedoras não dispensam a vaidade na hora de apoiar seus times. O ambiente esportivo não é motivo para caprichar menos na produção. Elas acompanham a bola rolando no gramado com rímel, batom e, às vezes, até blush colorindo o rosto, cabelo bem cuidado e baby look do clube do coração marcando o corpo – lugar de camisetão largo é no corpo dos homens.

Mercado feminino

A vaidade das torcedoras repercute também no mercado das confecções esportivas. A procura das mulheres por produtos licenciados dos clubes fortalece esse nicho e, consequentemente, a variedade de artigos disponíveis nas prateleiras.

– O mercado feminino é o que mais cresce no futebol. É um público mais exigente que o masculino – diz o gerente das lojas oficiais do Avaí, Bruno Koerich de Paula.

Até ano passado, lembra Bruno, as avaianas só encontravam um modelo de baby look nas lojas oficiais do clube. Este ano, já são duas opções, além de regata, calça leggy e bermuda. Na linha do Figueirense, as opções são as baby looks e camisetas com corte especial para elas. Ao todo, são cinco modelos.

Para atrair mais mulheres para o estádio Orlando Scarpelli, o Figueira aposta em uma modalidade de associação exclusiva para elas, com 33% de desconto nas mensalidades. Hoje o clube tem aproximadamente mil sócias e uma média que varia de 25% a 30% de ocupação feminina nos dias de jogos em casa. O Avaí, rival do alvinegro, ainda não tem um levantamento do tipo, mas não deve ficar para trás no quesito presença feminina. Quando assistiu o Leão contra o São Caetano, em novembro, o empresário Bruno Koerich encontrou uma Ressacada repleta de mulheres: quatro mulheres para cada 10 pessoas no jogo. Uma força especial nas arquibancadas e cadeiras que, independente do resultado, faz sempre bonito.

Me leva, pai, me leva!

Já tem gente se programando para acompanhar no Maracanã o jogo entre Avaí e Flamengo, agendado para a segunda quinzena de maio. O policial rodoviário federal Salésio de Melo, 42 anos, é um deles. E enquanto ele se preocupa em organizar uma excursão para o Rio, as filhas Samantha, 15 anos, e Jennifer, 10, tentam convencer o pai a levá-las junto. Foi a influência paterna que tornou as meninas torcedoras do time. É o pai, também, a companhia nos jogos na Ressacada.

– Hoje não sou eu quem convida para ir ao jogos, mas elas que pedem – conta Salésio.

Futebol em boa companhia

Foi a beleza, literalmente, que levou a estudante de Administração Gabriela de Carvalho, 18 anos, a frequentar o estádio do Figueirense. Torcedora desde criança, ela se tornou, no ano passado, a Musa do clube, ficando em 4º lugar no concurso Musa do Brasileirão, promovido pelo programa Caldeirão do Huck. Quando recebeu o título e entrou na disputa nacional, Gabi finalmente achou um bom motivo para convencer o pai, Sílvio, a assistir aos jogos do time de perto, e não somente pela TV, internet ou rádio.

A estreia no Orlando Scarpelli foi em uma partida contra o Cruzeiro, que assistiu com as irmãs e do noivo. Desde então, nos jogos que participou, nunca dispensou a camiseta baby look do time.

Elas torcem pra valer (Paloma Loewe)

Elas também torcem, gritam e choram pelo clube do coração. Na torcida Raça Jovem Metropolitano (RJM), há pelo menos 15 meninas que não perdem para os homens na hora de incentivar o time. E ainda dão um toque especial.

– Elas dão um brilho a mais às arquibancadas. É um charme – considera o presidente da RJM, Thadeu Figueiredo.

Para ele, a presença das mulheres quebra conceitos e prova que o estádio é um lugar de lazer. Mas elas não estão apenas ali. No Sesi, a ala feminina está espalhada pelo estádio. E elas sempre atraem olhares e mostram que nem só de gols é feito o espetáculo. A torcedora Talita May, 23 anos, é fanática pelo Metropolitano e presença confirmada nos estádios, mesmo quando os jogos não são em Blumenau. Para ela, não tem essa de só acompanhar as partidas quando o time está bem na tabela.

– Para mim, ir ao estádio não é modinha. Vou sempre – afirma.

Quem a vê nos jogos, percebe: Talita gosta de estar impecável. A estudante de administração confessa que, antes de sair de casa, dá um retoque especial no visual. A camisa do time geralmente está na mão. Como é muito larga, ela prefere vestir uma blusa mais justinha, sempre nas cores do Metrô (verde ou branco), titulares no guarda-roupa. Nos pés, a opção é um salto anabela, mais confortável.

Se todas as mulheres fizerem como a jogadora de vôlei Jeanne Deschamps, 18 anos, a presença feminina nos estádios tende mesmo a crescer. Na última partida entre Metropolitano x Chapecoense, ela foi ao Sesi conferir o jogo pela primeira vez.

– Com certeza vou voltar aos jogos.

Vários meios. Único fim (Rodrigo Schwartz)

Quem acompanha os jogos do JEC pode notar uma mudança significativa no ambiente das partidas. E não foi só a alteração de campo, do saudoso Ernestão para a Arena Joinville. Um considerável coro feminino hoje engrossa os gritos de gol na Arena. O timbre pode ser mais suave, mas o fanatismo é o mesmo. A estudante Tatiane Correa, de 22 anos, não se sente nada deslocada no estádio.

– Tem aumentado bastante o número de mulheres nos jogos – diz.

Tatiane acompanha todos os jogos e costumava participar dos treinos da equipe juvenil do JEC, quando criança.

Tatiane faz também um trabalho de catequização tricolor: transformou a amiga Adriane de Mattos, 21 anos, em torcedora do JEC.

– Nunca tinha vindo antes em um jogo. Eu não sabia o que estava perdendo – lamenta a menina.

Um verde mais delicado na arquibancada (Darci Debona)

Num jogo de futebol, normalmente alguns torcedores se destacam pelo uniforme inusitado ou pelo número de palavrões por minuto. Mas quem tiver um olhar mais detalhado pode verificar uma torcida mais discreta e que acaba deixando a arquibancada mais bela. São as mulheres que, ao contrário de muitos homens que pegam a primeira bermuda e camiseta que veem pela frente, tem uma produção toda especial para o jogo.

A gerente de uma empresa Velcinete Ribeiro, 23 anos, arruma o cabelo, faz maquiagem, escolhe uma roupa que combina e só então está pronta para ir para o estádio, terminando com a ansiedade do namorado Emerson Ribeiro.

– A gente precisa estar bem – diz Velcinete, que começou a torcer há dois anos por influência do namorado.

Ela gostou de assistir aos jogos e se considera pé quente.

– Nos jogos que vim o time não perdeu – regozija-se.

Como ainda não tem camiseta oficial, escolhe uma peça verde para vestir. Munida do radinho, não perde um lance.

– Gosto do Bruno Cazarine – afirma, mostrando que sabe quem se destaca no time.

Ela acompanha o jogo com atenção e tranquilidade. Mas não resistiu quando o placar contra o Avaí chegou a 5 a 1. Aí ela levantou da cadeira e começou a gritar:

– Oooolé.

Stephanie Wolff, 19 anos, vai ao estádio desde os 11 anos, por influência do pai, Bernardo.

Ela tem até carteirinha de sócia do Chapecoense. Mas o cuidado com a aparência fica claro na hora de fazer a foto para a reportagem, quando Stephanie pergunta se o cabelo está bom ou se não ficou a marca do boné, que resolveu tirar.

– Levo meia hora para me arrumar antes dos jogos – confessa.

O namorado, Juliano Tozzo, espera. Durante a partida, ela mostra nervosismo. Comemora os gols da Chapecoense e segue confiante de que o time tem condições de brigar pelo título. A torcida feminina do Verdão do Oeste mostra que futebol não é só coisa para marmanjo.

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