Na onda sustentável, tricô e crochê são tendências que voltaram… para ficar

Técnicas manuais de costura ganharam um empurrão extra com a onda verde

A paciente arte de alinhavar fios de algodão com a ajuda de grandes agulhas se tornou um exemplo de elegância e de sustentabilidade
A paciente arte de alinhavar fios de algodão com a ajuda de grandes agulhas se tornou um exemplo de elegância e de sustentabilidade Foto: Jefferson Bottega

Ela pega as agulhas e as linhas, senta-se na velha cadeira de balanço da sala e começa a alinhavar mais uma peça colorida para quando a primeira brisa do inverno chegar. Parece até coisa da vovó, mas não é bem assim. Graças a mãos prendadas, a arte do crochê e do tricô se reinventa e encanta as novas gerações. Hoje o ponto a ponto está nas passarelas, na web, no cinema, na cultura urbana.

O inverno passado, por exemplo, foi todo “tricotado”. Veja o caso do brasileiro Lucas Nascimento. Em sua estreia no Fashion Rio, em janeiro passado, oestilista radicado em Londres mostrou talento em peças trabalhadas para as grifes 2nd Floor e Amapô. Mas a artesania não se limita à estação mais fria do ano. Na semana de moda de Milão, em setembro último, a Prada desfilou sua colorida aposta para o verão europeu 2011: tricô e mais tricô.

A receita se repete nas telonas e nas livrarias. No ano passado, causou sensação nos EUA o documentário/livro Handmade nation (Ed. Chronicle Books), produzido por Faythe Levine. Trata-se de um mapeamento abrangente de costureiros, bordadeiros, crocheteiros e tricoteiros atuantes no país. Para recolher dados, a diretora percorreu 30 mil quilômetros e visitou um total de 15 cidades, entrevistando, fotografando e filmando criadores que mesclam a tradição do trabalho manual com a estética moderna.
E não para por aí O movimento de arte urbana conhecido como Yarn Bombing (Bombardeio de Fios) vem colorindo ruas e monumentos nos quatro cantos do mundo. Espécie de grafite em tricô, a manifestação conta com o apoio de diferentes artistas, como Magda Sayeg, responsável pelo projeto Knitta Please ? algo como Tricô, por favor.

? Nossa ideia é tornar a rua mais aconchegante, dando um toque pessoal ? explica.

As técnicas manuais de costura, é preciso lembrar, ganharam um empurrão extra com a onda verde. Tricotar é considerado uma prática sustentável e politicamente correta, que valoriza os saberes tradicionais e o uso racional da matéria-prima. A unicidade das peças alinhavadas na mão, é claro, também se tornou um lucrativo chamariz. Assim, jovens habilidosas com as agulhas e os novelos não tardaram a reivindicar o status de designer de tricô.

Costurando a cidade

Imagine passear pelo centro da cidade e perceber que o busto de cimento que homenageia um sisudo general ganhou um colorido gorro para adorná-lhe a cabeça. Algo, no mínimo, muito esquisito, não? Mas essa é a proposta de uma nova intervenção artística vista pelas ruas e em monumentos dos Estados Unidos e da Europa. Chamada de Yarn Bombing (em português, Bombardeio de Fios), essa arte urbana ganhou seguidores pelo mundo.

Como se fossem grafite de linhas coloridas, a manifestação arranca sorrisos de quem se depara com a quebra da seriedade de construções de ferro e cimento, enfeitadas, agora, por peças de tricô. Na cidade de Austin, estado do Texas (EUA), a norte-americana Magda Sayeg é uma das criadoras do movimento Knitta Please (Tricô Por favor, numa livre tradução). Mudar a concepção de que no espaço urbano somos meros coadjuvantes é uma das intenções da autora da intervenção que pode ser conferida no site http://knittaporfavor.wordpress.com. A ideia teve origem em 2005 e já vestiu o concreto de cidades dos Estados Unidos, além de países como Holanda, Suécia, Austrália e China.

Uma breve aulinha
“No crochê, você trabalha com uma única agulha e, no tricô, você usa duas agulhas compridas ou agulhas circulares, mas sempre duas. A agulha do crochê tem um gancho na ponta para você puxar a linha. Nesse caso, a mão que fica livre é um suporte para aquela que segura a agulha. Por serem duas técnicas diferentes, os pontos também não são parecidos. No crochê, a corrente é a base para tudo. Depois, vem o meio ponto, ponto baixo, ponto baixíssimo, que é usado para finalização de carreiras. Ponto pipoca, ponto alto, ponto alto duplo, leques e por aí vai uma sequência. O crochê é uma combinação de pontos, mas você sempre vai ter a origem, que é a corrente para iniciar qualquer peça, e a finalização, que é o ponto baixíssimo. O final da carreira é a conclusão de uma parte da peça, porque o crochê é trabalhado em carreiras. Cada carreira finaliza com um ponto baixíssimo. Já no tricô, você sempre trabalha em carreiras de vai e volta. Particularmente, acho o crochê mais fácil para quem quer começar. Além de você trabalhar com uma agulha só ? a maioria das pessoas têm medo de manipular duas de uma só vez ? o crochê é mais barato, uma vez que tricotar leva mais tempo e dá mais trabalho. Ou seja, a peça final do tricô também fica mais cara. Enquanto você faz uma peça de crochê num dia, pode-se levar o triplo de tempo para fazer uma peça de tricô.”
(Elaine Tripiano, professora de crochê e de tricô e criadora do blog http://elainecroche.blogspot.com)

Veja também
:: No http://yarnbombing.com, o movimento de bombardeio de fios ganha repercussão mundial. Imagens e informações sobre grupos e pessoas que aderiram à intervenção urbana podem ser encontrados no site, além do livro Yarn Bombing ? The art of crochet and knit grafitti.

:: A blogueira brasileira do Knit Knit All Time (http://nitnit.wordpress.com) atualiza o site com novidades sobre o tricô e o crochê na moda e nas artes. Há dois anos, ela defende o tricô com unhas e dentes e acredita que o trabalho manual conquistar cada vez mais jovens.

:: Em outubro, a marca Kenzo promete esquentar os japoneses, europeus e norte-americanos no inverno do hemisfério norte. A grife resgatou uma peça dos anos 1970 e vai vender ? nas lojas e pela internet ? um kit para que o comprador possa tricotar a peça.

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