10 frases que um filho ouve dos pais quando conta que é gay

Marcelo Ribeiro tinha 17 anos e chegava do cursinho pré-vestibular para almoçar em casa, em Canoas, cidade onde mora. Ao entrar, viu a mãe aos prantos na cozinha.

– Tu é gay, Marcelo? – perguntou ela, aflita, logo que o filho passou pela porta.

Ele teve alguns segundos para pensar na resposta e preferiu dizer a verdade. Sim, era gay. A mãe havia encontrado um bilhete no qual ele contava a um amigo sobre um rapaz com quem havia ficado.

– Não te criei para isso! Isso não é normal Vou te levar em um psicólogo e vais ver que só uma fase! Vai passar! – afirmou, desesperada.

A cena que aconteceu na casa de Marcelo se repete em muitos lares. Recentemente, o caso de um pai que foi pedir ajuda aos usuários de um fórum online sobre como agir após descobrir que o filho era gay ganhou repercussão na internet.

Basta jogar na barra de procura do Google termos como “filho gay” para encontrar histórias curiosas com finais felizes e algumas até perturbadoras.

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Para a psicanalista e professora da USP Edith Modesto, houve uma mudança social muito grande nas últimas décadas. Essa mudança resultou em um tímido porém vitorioso avanço no que diz respeito à tolerância, principalmente, nos grandes centros urbanos. Antes, gays estavam restritos a certos espaços onde sentiam liberdade para amar e demonstrar amor junto de seus respectivos parceiros. Agora, é comum ver casais gays andando de mãos dadas, algo impensável há poucas décadas. Avanços singelos, mas recheados de significado.

Aos 77 anos, essa mocinha sênior, como é chamada pelos meninos que acompanha no Grupo de Apoio a Homossexuais que fundou em São Paulo, tem muito a nos ensinar. Em 1992, ela descobriu que o filho caçula era gay. Edith não sabia como lidar com a informação e resolveu recorrer à ajuda de outras mães que tivessem passado pela mesma situação, mas não as encontrou. Anos mais tarde, criou o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), com o intuito de ajudar outros pais e mães que, assim como ela, num primeiro momento, não souberam o que fazer.

Edith, que escreveu o livro “Mãe sempre sabe? Mitos e Verdades Sobre Pais e seus Filhos Homossexuais” (Editora Record, 2008), explica que apesar das mudanças trazidas pelas últimas gerações, uma coisa não mudou: a reação dos pais ao saberem que os filhos são gays.

– Hoje, é pouco provável que pais expulsem os filhos de casa como acontecia com frequência há 20 anos, mas as reações ainda são bastante parecidas – explica Edith.

É até fácil encontrar pais descolados, abertos e mais modernos. Mas abrir o jogo com eles – quadrados ou moderninhos – não é uma tarefa fácil. Depois de buscar entender a própria sexualidade, é hora de contar para os pais. Há quem diga que este é o primeiro passo para “sair do armário”, no entanto, a verdade é que ninguém precisa sair de um lugar onde nunca esteve. Se descobrir é não é estar escondido num armário. É, no máximo, estar escondido dentro de si próprio.

Baseado nisso, Donna elegeu, junto com a psicanalista Edith Moderno, 10 frases que os pais dizem aos filhos quando descobrem que eles são gays:

1. “É só uma fase! Vai passar”

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Se esta frase fosse um filme, seria o “Titanic” de tão clássica. De acordo com a psicanalista, os pais sempre passam por uma fase de negação no processo de aceitação. Compreensível, afinal, não deve ser fácil descobrir que o filho não vai ter aquela vida que os pais imaginavam. No entanto, quando um jovem resolve abrir o jogo é porque já está convicto ou, no máximo, confuso com relação à sua sexualidade. Dizer que é uma fase não ajuda os filhos, nem é bom para os próprios pais. Porque se for, pode ser uma fase para a vida toda. Negar não vai ajudar.

2. “Não te criei para isso!”

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Nenhum pai ou mãe cria um filho para ser gay. A psicanalista conta que a primeira fase pela qual os genitores passam é a do desespero, e aí vem todo tipo de reação. Por mais que a família desconfie da orientação sexual dos filhos, a tendência que é neguem consciente ou inconscientemente até que venha a confirmação.

3. “O que os outros vão pensar?”

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Há sempre aqueles pais que estão preocupados com o que vizinho vai pensar ou o que o colega de trabalho pode dizer. Mas isso é realmente mais importante do que a felicidade do filho? Edith explica que a vergonha é a primeira reação a aparecer e a última a ir embora no processo de aceitação. As mães geralmente entram para dentro do armário depois que o filho se assume – ou “sai dele”– e acabam se isolando.

4. “Sua avó vai morrer do coração quando souber disso”

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Nenhuma avó morre ao saber que o neto é gay. Se reação é muito feia, nada que uma água com açúcar não resolva em minutos. Assustar o filho também não vai ajudar. Essa frase geralmente vem acompanhada de “o que eu vou dizer para a família?”.

 

5. “Isso é culpa daqueles seus amigos”

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Em 1990, a Organização Mundial da Saúde excluiu a homossexualidade da lista de distúrbios mentais. Apesar de tardia, a medida surtiu algum efeito, afinal, com isso pode-se afirmar que ser gay não é ser ou estar doente. E, mesmo que fosse, não seria contagioso. Ninguém é gay por influência dos amigos. Segundo a psicanalista, os pais precisam confiar na educação que deram aos filhos. Nenhum pai busca criar um filho influenciável a ponto de pôr a própria sexualidade em voga por causa dos amigos.

 

6. “Mas você já tentou com uma menina?”

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Até dá para entender a dúvida, mas a verdade é que cada indivíduo tem as próprias experiências. Enquanto alguns têm relacionamentos diversos antes de entender a própria orientação, outros não precisam experimentar em busca da confirmação. Edith conta que certa vez foi abordada por um pai que disse que não era possível o filho ser gay se nunca havia dormido com uma mulher. A psicanalista então perguntou ao pai como era possível ele ter certeza de que era heterossexual, se nunca havia dormido com um homem? O pai silenciou.

7. “Devia ter dado um skate e não patins”

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Ou então “devia ter te levado para escolinha de futebol!”. Pais e mães costumam se culpar pelas escolhas dos filhos, principalmente elas, que se sentem pressionadas para criar a prole da maneira mais adequada possível. Logo, quando os filhos parecem fazer algo errado, elas se culpam. “Foi alguma coisa que eu fiz?” é uma das perguntas que a psicanalista ouve no consultório ou nos encontros de pais no GPH.

8. “Eu não tenho preconceito, tenho medo do que você vai passar”

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Há uma fase na aceitação dos pais que é a da vergonha, que às vezes vem junto do medo. Para Edith, as mães acabam deslocando o próprio preconceito para os outros. “E se meu filho apanhar na rua?”, pensam elas. A partir daí, o filho não pode ir a lugar nenhum. Mas, para Edith, esconder o filho não é proteger.

9. “Mas você tem certeza?”

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A adolescência é um período efervescente, repleto de pequenas grandes descobertas. É nesta fase em que geralmente se conhece o primeiro amor, que damos o primeiro beijo, que vamos em nossa primeira festa. E também é na adolescência que surgem as dúvidas naturais do período. Mas, para alguns, as dúvidas vão um pouco além: “será que eu sou gay?”. É natural que os pais questionem a certeza dos filhos sobre a orientação sexual, assim como os próprios filhos questionaram. Para Edith, os filhos, muitas vezes, acabam exigindo que os pais aceitem em 15 dias o que eles próprios levaram anos para aceitar. É preciso paciência de ambos lados.

10. “Vou te amar e te apoiar independente da sua escolha”

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Nem toda reação é negativa. Existem pais que envoltos no próprio preconceito e sofrimento, acabam esquecendo do sofrimento dos filhos, assim como os filhos acabam não percebendo o sofrimento dos pais. Aceitar é um processo que pode ser difícil tanto para os filhos, como para todas as partes. Os filhos têm direito de serem independentes e exercer a própria sexualidade, assim como as mães e pais não são super-heróis e precisam de tempo. Mas no fim, a verdade é que muito mais do que aceitar – que é uma opção individual de cada um –, o essencial é respeitar – que é dever de todos nós.

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