Nem falta de salário e de carteira assinada é capaz de tirar o prazer da profissão de mulher rendeira

Conheça Neli da Luz, 56 anos, que tece toalhas e colchas em Florianópolis

Há 18 anos, Neli da Luz senta ao lado da mesma janela, emaranhando fios e fazendo renda
Há 18 anos, Neli da Luz senta ao lado da mesma janela, emaranhando fios e fazendo renda Foto: Patrick Rodrigues

O sol da tarde brilha a pico, e um ventinho fresco se intromete pela janela entreaberta da Fortaleza de São José da Ponta Grossa. É um bálsamo no dia abafado na Praia do Forte, no norte de Florianópolis. As paredes de pedra erguidas para proteger a Ilha do Desterro das invasões espanholas guardam uma figura singular. Acomodada em um cantinho onde a brisa é quase vento, Neli da Luz não sente calor, tédio ou cansaço. Apenas tece. Os dedos nodosos vão pra lá e pra cá, bilros para todo lado e pronto. Assim, sem alarde, a rendeira acabou mais uma pequena obra de arte feita de fios presos a pedaços de madeira.

Desde que o antigo forte português foi restaurado pela Universidade Federal de Santa Catarina, há 18 anos, Neli senta ao lado da mesma janela, emaranhando fios e fazendo renda. Sobre a almofada, a rendeira de 56 anos tece toalhas, colchas, cobertas de mesa. Tece a trama da sua vida em forma de flores, folhas, pétalas, lágrimas. E com seu sotaque de manezinha, descreve o orgulho de ser o que é.

– Sou rendeira desde os sete anos, nunca tive outra profissão.

Moradora da praia de Canasvieiras, Neli passa mais de uma hora por dia dentro dos ônibus que a leva para a Fortaleza, onde produz e expõe seu trabalho. Não tem vínculo empregatício com ninguém, não recebe salário, não tem carteira assinada. Mas agradece a oportunidade de estar ali, no patrimônio histórico visitado por tanta gente.

– Ah, minha filha, quando é verão isso aqui enche de gente na minha volta. Ficam todos loucos para saber como eu faço a renda. Daí eu explico como se faz, mostro as peças prontas. De vez em quando, vendo alguma coisa também. Até canto a música das rendeiras, conhece?

Olê mulher rendeira, olê mulher rendá / Eu te ensino a fazer renda / Tu me ensina a namorá

A pele clarinha e os olhos muito azuis revelam a origem de Neli e sua renda. Nascida e criada na Praia do Forte, ela descende dos açorianos que trouxeram para o Litoral Catarinense a arte que hoje executa com maestria. Em janeiro de 1748 desembarcaram 473 pessoas na localidade do Ribeirão da Ilha. Em pouco tempo, espalharam-se pela costa de águas cristalinas e pesca farta. Além de cuidar dos filhos, da pequena roça de subsistência e da casa, as mulheres ainda ajudavam os maridos na pesca. Quando não iam elas próprias para o mar, auxiliavam no conserto e fabricação de redes. No tempo livre que sobrava, elas exercitavam a arte usada no país de seus antepassados para enfeitar as roupas e mesas da nobreza e do clero.

Imbuída de uma inexplicável energia, ela cumpre a mesma rotina de suas tataravós – com exceção da roça. O marido, Celso, é pescador e servente de pedreiro. Foi ajudando o companheiro a pescar e a virar massa e fazendo renda no tempo que sobrava que ela trouxe ao mundo sete filhos. A herança tramada na renda, no entanto, vai morrer com Neli.

– As duas filhas menores não quiseram aprender. A mais velha é habilidosa, mas preferiu descascar ostra. Dá mais dinheiro.

Neli acredita que a facilidade de encontrar emprego remunerado está fazendo a nova geração perder o interesse pela habilidade de suas mães e avós.

– As rendeiras estão ficando velhas e doentes. Quando não é a coluna a incomodar, é a vista que não funciona direito. Eu vou fazer renda enquanto enxergar. Mas só enquanto enxergar – diz Neli.

Quando mais uma velha rendeira para, uma filha, neta, sobrinha, vizinha ou amiga precisa tomar o seu lugar. No entanto, a arte dos bilros é aprendida aos poucos, no curso de uma convivência longeva. E o tempo e o interesse das jovens já não é mais o mesmo que Neli tinha quando observava sua mãe sentada à almofada, rendando.

Turistas acostumados a passear pela Avenida das Rendeiras, em Florianópolis, veem as pequenas casinhas com portas estreitas, de cujos marcos pendem toalhas e colchas, e imaginam que o costume está seguro entre as mulheres da Lagoa da Conceição. Neli, no entanto, alerta que aquilo é só aparência. Sem jovens rendeiras, a tradição está condenada.

A prefeitura de Florianópolis assinou, recentemente, um termo de cooperação com o Ministério da Cultura para transformar o Casarão da Lagoa no Centro de Referência da Mulher Rendeira. Depois de reformado, o prédio abrigará exposições, loja, biblioteca, centro museográfico e oficinas, para garantir o repasse desse costume.

Enquanto a capital catarinense não colhe os frutos de seu empreendimento em favor da tradição rendeira, Neli e suas pares fazem o que lhes cabe na manutenção desse legado: rendam. Nos meses de inverno, quando os turistas rareiam, Neli permanece ali, sentada na janela da Fortaleza, tecendo o estoque do próximo verão. Quando precisa ajudar o marido, bate seus bilros à noite, enquanto todos dormem. Quando a maré lhe traz amarguras, como a morte de dois filhos, lágrimas de linha fina ornam mais uma toalha. Os momentos de felicidade, como o nascimento dos seis netos, vêm bordados com flores nas roupas de bebê.

Neli da Luz é rendeira, é mãe, é mulher, é feliz. Sorri fácil e solta o verbo sem desgrudar um minuto dos bilros. Estar ali, “naquele lugar histórico e lindo”, ser paparicada por visitantes, vender seu trabalho, conversar com as companheiras de ônibus, ajudar os filhos, preparar aquela estopa de peixe com o tempero que o marido adora. É essa a vida que Neli da Luz trama na simplicidade de seus fios, na delicadeza de seus guardanapos e de seu cotidiano.

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